A Mudança

Boa parte da minha mudança eu trouxe andando. Na primeira manhã que me dispus a isso, saí com uma estante vermelha, e a meio caminho da casa nova veio, descendo a rua, uma ambulância. Ora, eu estou gordo, e minha família tem histórico de doenças cardíacas; pensei então que a ambulância pudesse ser alguma espécie de aviso divino para que eu não exagerasse nos esforços empreendidos.

Mais à frente, parei para descansar à sombra d’uma arvorezinha, e olhando ao redor, vi, na porta de uma casa, a representação de nosso Senhor Jesus Cristo crucificado. Sorri, meio nervoso, e virei a esquina. Após alguns passos dados, a grade verde que cerca o Velório surgiu, e pouco depois jazigos do Cemitério da Saudade despontaram no horizonte, por trás do muro branco.

Vou ter um troço, ser levado ao hospital, encomendar minha alma a Cristo, ser velado e enterrado, pensei.

Mas prossegui, e meus dias se resumiram a carregar estantes, colchões, cômodas, máquina de lavar, centenas de livros, malas cheias de roupas e eletrônicos, utensílios diversos…

Deus teve piedade de mim e não puniu com a morte minha teimosia. Ontem mesmo subi as ruas carregando um roupeiro e acabei aceitando ajuda do segundo sujeito que se ofereceu.

 

Foto da Gazeta Bragantina.

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