Falta de segurança e falta de sono

30/08/2016 – Bragança Paulista – Manhã

Mais uma noite que tive dificuldades para dormir, e por quê? Meu vizinho resolveu colocar música alta até depois das onze, foi por isso? Não. Não totalmente: Uma vez cessado o barulho, eu poderia dormir tranquilo.
A casa na qual moro tem por acesso um portão baixinho, sem tranca ou cadeado. Passado esse irrisório obstáculo, o potencial invasor sobe a escada, ladeada por um muro também baixo que dá para ser vencido do terreno vizinho, cujos portões são tão baixos quanto o meu, e dá com a porta de entrada de ferro e vidro, trambolho certamente sonoro de se arrombar à força, mas nem por isso desafio temível para quem realmente estiver disposto a causar mal.
O outro acesso ao interior é pelos fundos, pela porta do quintal, da qual digo exatamente o mesmo que disse da frontal. Entrar no meu quintal não é especialmente difícil, basta, pelo terreno vizinho de acesso facílimo, colocar uma escada mais para trás, encostada ao muro, ou basta um marginal forte erguer o companheiro.
Nunca estive tão vulnerável assim na vida, mas não é por mim que temo. A minha família também está vulnerável, e mais do que eu.
Alguém poderia dizer que estou exagerando nas preocupações, todavia, se esse alguém for brasileiro, eu retrucaria perguntando em que raios de realidade a pessoa vive. É no mesmo país que eu, onde mais de 60 mil pessoas são assassinadas todos os anos? É no mesmo país que eu, onde os bandidos e criminosos mais vis recebem afagos de intelectuais, de autoridades, de artistas e a cegueira da lei? É no mesmo país que eu, onde os cidadãos estão desarmados e são vistos como escória pelo simples motivo de exigirem direito de defesa à própria vida e à vida dos seus? É no mesmo país que eu, onde reclusos da FEBEM (Fundação CASA) recebem aulas de Jiu Jitsu, Capoeira e outras belezas para saírem dali ainda mais perigosos do que entraram? É no mesmo país que eu, onde existe uma cidade com assaltos a cada quinze minutos? É no mesmo país que eu, onde casas e estabelecimentos são invadidos freqüentemente?
Eu somente enxergo o que muitos, por motivos que variam do ufanismo à covardia, não querem ver.
Em Recife, morei numa rua na qual, durante uma época, os assassinatos eram semanais, e um dos mortos foi um vizinho do meu prédio. Um apartamento do condomínio também chegou a ser invadido por assaltantes, e eu mesmo fui roubado quase que à esquina de casa. Minha mãe, professora e pesquisadora, foi agredida dentro da UFPE; minha irmã já foi assaltada. A casa da minha sogra, aqui em Bragança Paulista, cidade outrora pacata, foi invadida durante a noite, e um ano depois, minha sogra foi assaltada na própria rua, que aliás, é a rua em que moro hoje.
Fiz uma breve entrevista a alguns amigos e todos, sem exceção, estivessem em Recife, Cabo Frio ou São Paulo, disseram já ter sido assaltados; a maioria, mais de uma vez.
Sei de casos escabrosos, e estou certo de que todos os brasileiros com mais de vinte e cinco anos sabem.
Ainda achariam exagero a preocupação, exagero dormir mal? Eu escolho não ignorar a realidade, eu escolho fazer algo a respeito.
O dono da casa já disse que ia colocar um portão mais alto aqui – se ele demorar muito, eu insistirei para pagar pelo serviço, não irei à faculdade deixando a casa no estado quase convidativo em que ela está agora com mulher, mãe e filho pequeno dentro. Também coloquei cadeado na janela do quarto que dá para a escada – a janela sequer trancava! – e pretendo encostar um sofá à porta da sala toda noite, à guisa de barricada. Ainda não sei o que fazer quanto à porta do quintal. A janela do quarto da minha mãe, bem na frente, por ser realmente alta e possuir feitura robusta, não inspira invasões. A besta estará sempre a postos.
Minha medida de segurança mais efetiva, entretanto, é tomada todas as noites antes de dormir: Peço ao meu anjo da guarda que proteja a mim, à minha família e à casa durante as horas escuras.

Texto escrito em 30 de agosto de 2016.

Foto: A passarinhóloga

Ps: Não moro mais lá.

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