A Princesa que não Podia Casar

Era uma vez uma princesa de um reino distante que nasceu trazendo consigo complicados problemas de saúde. Temerosos, e após tentar de tudo para melhorar a condição da menina, os pais resolveram viajar disfarçados até a Gruta da Mãe das Fadas para pedir ajuda à sua sinistra moradora.

Disse a Fada Mãe:

– Mas é claro que a irei curar, isto é, se a menina jamais casar.

– Como é? – perguntou a rainha, desconsolada. A pobre mulher já havia perdido o primeiro filho para uma caçada.

– Uma benção por uma maldição. Eis a troca. Se assim não for, não posso ajudar.

O casal real aceitou e a princesa ficou boa.

Depois da menina crescer mais, a mãe ia de vez em quando aos seus aposentos e perguntava, terna e combalida:

– Filha, filha amada, como está?

– Meu peito ainda é pedra, mãe, e sinistro o meu olhar. Nunca, nunca vou casar.

 

A linda princesa vivia num castelo muito bonito, naquele reino distante já esquecido pela história, condenada a morrer sem jamais conhecer o amor de sua vida. O rei, seu pai, escondia do povo a triste maldição da filha e assegurava à corte que, um dia, a princesa casaria e o reino continuaria próspero e feliz; o casal real não podia mais conceber, e o casamento da princesa seria a única forma de manter o reino unido sem derramamento desnecessário de sangue.

A rainha quase toda noite punha a mão no coração, na esperança de que o tormento da filha se dissipasse, e sempre que a visitava em seus aposentos pessoais, dos quais a jovem saía cada vez mais raramente, a conversa se repetia:

– Filha, filha amada, como está?

– Meu peito ainda é pedra, mãe, e sinistro o meu olhar. Nunca, nunca vou casar.

A boa rainha deixava o quarto da filha em comedido pranto e rezava aos céus por um milagre.

Os pretendentes à mão da princesa já não eram tantos; os bailes no palácio rareavam; não tardou para rumores de doença se espalharem pelo povo, postos em circulação por cozinheiros, costureiras e cavalariços do castelo.

– A princesa Beatriz adoeceu.

– Morrerá em breve.

– Quanta tragédia em cima do rei e da rainha!

– Eles devem ter feito algo muito errado.

– Que azar! Que azar!

– A princesa não sai da cama!

– Acho que já morreu.

Os boatos chegaram aos ouvidos do filho do alfaiate, que há longo tempo amava a princesa em segredo. O rapaz entrou no ateliê do pai, onde também trabalhava, e correu à janela para ver o castelo na colina além do bosque. Voltou-se para dentro e fitou intensamente o pai, que escrevia recibos sentado ao tamborete.

– Pai, a princesa Beatriz vai morrer!

– É o que estão dizendo.

– Não posso deixar isso acontecer!

– Filho, o que você faria? Olhe para a sua situação, você é apenas o filho de um velho alfaiate.

– Eu quero casar com a princesa!

– Ora, rapaz, agora já delira. Há pano esperando seus cuidados logo ali.

– Há uma donzela esperando meus cuidados, a mulher que eu amo. – Saiu tão impetuosamente como tinha entrado.

Na noite anterior, a rainha havia falado com a filha:

– Filha, filha amada, como está?

– Meu peito ainda é pedra, mãe, e sinistro o meu olhar. Nunca, nunca vou casar.

 

O filho do alfaiate teve que solicitar audiência diariamente por dois meses antes de finalmente ser recebido pelo casal real, e a cada ida ele deixava um presente para a princesa, que já estava cheia de curiosidade sobre o rapaz.

Num crepúsculo especialmente belo, a rainha achegou-se à filha na sacada do quarto:

– Filha, filha amada, como está?

– Meu peito já não é pedra, mãe, sinistro já não é meu olhar. Gostaria muito de casar.

Pois bem. Na manhã seguinte, rei e rainha tinham a seus pés o insistente jovem, e aos pés do jovem repousava uma gaiola contendo um rouxinol e um bilhete.

– Diga, o que tanto quer aqui? – indagou o rei.

– Cuidar de vossa filha. Correm rumores de que morre a doce Beatriz, derrubada por doença, trancafiada e infeliz.

A face da rainha se encheu de ternura.

– E você não pensa que já temos os melhores do reino cuidando dela?

– Não, pois se tivessem a princesa tomaria ar mais vezes. Todo o reino sabe que doentes precisam de ar fresco.

O rei fez sinal para que fossem deixados a sós com o rapaz e falou, bem sério:

– A nossa filha não é doente, é amaldiçoada. Qualquer que não tenha com ela laços de sangue morrerá dentro de três semanas após ter tocado sua pele. Se sua intenção era casar com ela, nobre garoto, esqueça.

A rainha lançou ao pretendente um sorriso triste.

– Mas meu senhor, eu amo a sua filha. Amo, amo, amo! Sempre a amei!

A princesa estava escondida atrás de um pilar; levou a mão ao coração e lágrimas marejaram seus olhos.

– Não há nada que possamos fazer. – Rematou o rei.

– Eu sei como acabar com a maldição!

Atrás do pilar, a princesa quase foi ao chão. Seus pais empalideceram.

– Fale! – urgiu o rei.

– Cortemos as palmas minha e da princesa, encostemos as feridas, nosso sangue ficará unido e a maldição terá sido quebrada!

O casal real exultou, tal arranjo jamais fora pensado.

– Se não der certo, você vai morrer. É isso o que quer?

– Não me importo em morrer por ela.

Beatriz sentiu tamanha onda de alegria que nunca havia sentido.

 

O plano do filho do alfaiate deu certo, o reino festejou e eles viveram felizes para sempre.

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