Lições do Van Gogh Leitor, de Rodrigo Gurgel

Um aspecto surpreendente das cartas de Van Gogh a seu irmão, Theo, é o Van Gogh leitor, para quem “o amor aos livros é tão sagrado quanto o amor a Rembrandt”.

Na verdade, ele acreditava que esses dois amores “se completam”. Mas seu entendimento a respeito da leitura vai ainda mais longe: para Van Gogh — dedicado, minucioso observador da natureza — “é preciso aprender a ler, como é preciso aprender a ver e aprender a viver”.

Ele se emociona com um pequeno artigo sobre Dostoiévski, admira certa paisagem por ter “um não sei quê de Boccaccio”, conforta-se quando encontra, perto de Avignon, os mesmos ciprestes e loureiros-rosa que Petrarca teria visto — e, passados alguns meses sem ler, após devorar vários capítulos de Camille Lemonnier, comenta: “Isto me cura consideravelmente”.

Como todos os leitores dedicados, Van Gogh também ensaia um pouco de crítica literária, ou melhor, do que poderíamos chamar de crítica pictórica: “A última coisa que eu li nesta categoria foi o Sonho de Zola; achei muito, muito bonita a figura de mulher, a bordadeira, e a descrição do bordado todo de ouro. Justamente porque isso é como uma questão de cor, dos diferentes amarelos, inteiros e quebrados. Mas a figura de homem pareceu-me pouco viva e a grande catedral também me metia melancólico. Só que este contraste lilás e azul-escuro faz, se assim o quisermos, ressaltar a figura loira. Mas afinal Lamartine já fez coisas assim”.

Deseja “reler tudo” de Balzac. Divaga a respeito de O ano terrível, de Victor Hugo. Encanta-se com Dickens e vê, no seu Contos de Natal, “enormes afinidades com Carlyle”. Avalia O imortal, de Daudet, como “muito bonito, mas bem pouco consolador”, pois faz com que ele sinta “o nada do mundo civilizado”. Discute longamente com o irmão sobre um artigo da Revue des Deux Mondes dedicado ao Minha religião, de Tolstói, a respeito do qual conclui, num exercício de profetismo: “Parece-me que este livro é bem interessante, acabaremos fartos de tanto cinismo, de tanto ceticismo e de tanta zombaria, e desejaremos viver mais musicalmente. Como isto se dará, e o que encontraremos? Seria curioso poder predizê-lo, mas ainda vale mais pressentir isto em vez de ver no futuro absolutamente nada além de catástrofes, que contudo não deixarão de se abater como raios terríveis sobre o mundo moderno e a civilização através de uma revolução, ou de uma guerra, ou de uma bancarrota dos Estados carcomidos”.

Van Gogh é leitor assíduo de Shakespeare. Pede ao irmão que lhe envie uma edição completa, a mais barata que houver. Quando os livros chegam, comemora: “Isto me ajudará a não esquecer o pouco inglês que sei, mas sobretudo é tão belo!” — e completa: “Já li o Ricardo II, Henrique IV e a metade do Henrique V. Leio sem pensar se as ideias das pessoas daquela época são as mesmas que as nossas, ou o que acontece quando as colocamos cara a cara com as crenças republicanas, socialistas, etc. Mas o que me toca, assim como certos romancistas de nossa época, é que as vozes dessas pessoas, que no caso de Shakespeare nos chegam de uma distância de vários séculos, não nos pareçam desconhecidas. É tão vivo que acreditamos conhecê-las e vê-las”.

Emociona-se, ao ler Henrique VIII, com as últimas palavras de Buckingham, depois de sua injusta condenação — e imediatamente deseja ler Homero.

Mas Van Gogh não demonstra ser, na arte da leitura, um mero diletante. Enquanto lê Shakespeare, sua mente divaga: “Lá fora as cigarras cantam esganiçadamente, um grito estridente, dez vezes mais forte que o dos grilos, e a relva toda queimada toma belos tons de ouro velho. E as belas cidades do Midi estão na situação de nossas cidades mortas ao longo do Zuyderzee, outrora animadas”. A decadência das cidades, somada ao canto das cigarras, leva-o a novas ilações — e ele recorda as cigarras de Sócrates, lembrança, talvez, da leitura do Fedro.

Entre a pintura e a poesia, contudo, ele ficará com o silêncio da primeira: “Sempre me parece que a poesia é mais terrível que a pintura, embora a pintura seja mais baça e afinal mais chata. E o pintor, afinal, não diz nada, ele se cala, e eu ainda prefiro isto”.

Mas, ainda que, para ele, a poesia possa ser derrotada pela pintura, Van Gogh encontra na ficção, especificamente em Guy de Maupassant, o que ele próprio busca: “a liberdade […] de […] exagerar, criar uma natureza mais bela, mais simples, mais consoladora”. E a conclusão de Maupassant o remete à certeza de Flaubert: “O talento é uma longa paciência, e a originalidade é um esforço de vontade e de observação intenso”. Lições, convenhamos, essenciais para qualquer artista, para qualquer escritor.

Para mais material do professor Gurgel, acessem aqui.

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