Como relacionar personagens e espaço, de Rodrigo Gurgel

Comecei a escrever, há poucos dias, sobre o que é uma personagem e a relação entre personagens e espaço, entre personagens e cenário. Grande parte dos personagens que encontramos na literatura contemporânea brasileira parece viver numa espécie de éter. Essa exagerada imaterialidade ocorre, quase sempre, por dois motivos: excesso de solipsismo — a literatura está dominada por uma horda de narradores narcísicos — e uma deficiência técnica: o escritor não consegue imaginar o espaço em que os personagens se relacionam; e, quando consegue, é como se o ambiente fosse uma tela dependurada no fundo do palco — e não um verdadeiro espaço, com altura, profundidade e largura.

Quando o escritor imagina a cena, ele não deve se concentrar apenas no personagem, mas imaginá-lo introduzido no ambiente. Nossa época, contudo, hedonista e narcísica, esfacelou a imaginação dos escritores, fazendo com que um grande número deles não consiga ir além das suas próprias sensações. Ou seja, não conseguem imaginar espaços realmente tridimensionais — com altura, largura e profundidade — e, depois, inserir seus personagens nesses ambientes.

Vamos pensar num exemplo.

Um homem reflete sobre sua vida enquanto caminha pelas alamedas de um jardim. Por mais absorvido que ele esteja em seus próprios pensamentos, seus cinco sentidos são permanentemente assediados. Mas suponhamos que, durante a cena, ele se concentra exclusivamente nos seus próprios pensamentos. Atravessa o jardim inteiro sem prestar atenção a nada, a não ser em si próprio. Bem… é incrível que ele não tropece ao menos uma vez… De qualquer forma, sabemos que há diferentes níveis de alheamento. E que é possível ao nosso personagem, durante alguns segundos, pensar apenas em si mesmo.

Mas não empobrecemos a cena quando acorrentamos nosso personagem à sua alienação temporária? Não ocultamos do leitor inúmeras informações que enriqueceriam a cena? Se, durante a caminhada, o personagem mantivesse, por exemplo, uma relação conflituosa com o espaço, certamente haveria maior riqueza psicológica.

O que ele poderia ver e sentir no jardim?

1) Um mendigo dormindo sob uma árvore — o que despertaria nele o medo da pobreza, principalmente agora, quando está a um passo de ser despedido.

2) Crianças acompanhadas de suas babás — o que ampliaria seu amargor, pois ele acredita que qualquer felicidade é apenas ilusão.

3) A reconfortante frescura à sombra das árvores — que o incomodaria tremendamente, pois, em sua mágoa, ele não se considera merecedor de nenhum tipo de prazer.

4) Policiais que se ocupam da segurança local — fariam renascer no nosso niilista o seu ódio contra o Estado ou qualquer forma de poder que pretenda impor a ordem.

5) O jogo de luz e sombra que se forma quando os raios do sol conseguem ultrapassar a copa das árvores — visão que o faria recordar de sua própria infância, quando, todas as manhãs, tinha de cruzar um jardim semelhante para chegar à escola. A comparação entre esses dois momentos, no presente e no passado, poderia aprofundar ou diminuir sua amargura.

As possibilidades, percebam, são infinitas. A interação entre personagem e cenário torna o primeiro mais complexo, mais rico — e, portanto, não só mais verossímil, mas também capaz de despertar maior interesse no leitor. É claro que uma narrativa assim exigirá do escritor capacidade de representação mental… Mas ninguém disse que escrever é apenas colocar uma palavra depois da outra.

A forma como um personagem sente e vê o espaço pode estar condicionada por seu estado de ânimo. E o escritor deve levar em conta que os diferentes cenários de uma narrativa não podem ter o mesmo valor, a mesma importância. Tudo precisa ser matizado. O jardim do nosso personagem ganharia outra dimensão se fosse o jardim em que ele passou a infância — ou no qual conheceu sua esposa — ou onde presenciou uma traição, um crime.

Olhar e Perspectiva

Quando se trata da relação entre personagens e espaço, outra questão importante, esquecida por muitos escritores, é fornecer ao leitor a perspectiva em que o personagem vê o cenário ou os objetos. Não precisamos ter cursado uma faculdade de Física para saber que o ângulo de visão muda de acordo com os efeitos da luz, as variações do terreno, a altura em que o observador se encontra — e quando este começa a caminhar, o ritmo de seus passos também exercerá influência.

Um personagem não pode ver com a mesma nitidez o que está à sua frente e o que está no fim da alameda na qual caminha. Dimensões e proporções mudam conforme ele se aproxima ou se afasta dos objetos. Quanto mais o personagem se aproxima, mais pode ver detalhes que, de outra forma, passariam despercebidos.

É claro que todos esses elementos se complicam quando o personagem apresenta um problema ocular… Ou quando os reflexos da luz, as formas e as cores produzem uma ilusão de ótica. Portanto, é preciso haver algum tipo de gradação entre o alcance do olhar, a atenção aos detalhes e ao panorama geral e os vínculos que podem surgir entre personagem e objetos.

Sem esquecer que, quando nosso caminhante chega ao outro extremo do jardim e se depara com a rua repleta de carros, centenas de pessoas, buzinas e semáforos, sua forma de atenção também mudará.

No fundo, como sempre digo a meus alunos da Oficina de Escrita Criativa, o escritor precisa fazer constantes exercícios de observação. O bom escritor está sempre disposto a ter os olhos abertos à realidade.

 

Para conhecer mais do trabalho do Gurgel, visitem.

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