A Vela

Ricardo riscou o fósforo e cautelosamente acendeu a vela, inclinando-se atencioso para a cômoda. Estava nu em seu quarto e tinha as cortinas fechadas. Esperou a chama se estabilizar, descartou o palito, apanhou a vela e foi sentando no chão. Deitou, e com a mão livre tateou as trincheiras da retaguarda até achar o poço. Ergueu as pernas, fez cara de concentrado e num gesto firme atochou o fogo no…
: – PORRA! – rastejou de costas mais rápido do que assombração de filme de horror, e encostado na parede, lacrimejando, alternou baixinho o palavrão com xingamentos à própria pessoa.
A vela estava ao contrário.
: – Que foi isso, meu filho? – quis saber a mãe, d’algum lugar do apartamento.
– Nada! O trabalho da faculdade tá me estressando!
Ricardo, com o cu em brasa, foi andando estranho até a mesa, catou o celular, e mal conseguindo ficar parado telefonou para um amigo:
– Ei, vem aqui em casa me ajudar a ensaiar.
– Bicho, hoje não posso. É ensaio do quê?
– Daquela performance lá, com a vela.
– Dá pra tu praticar sozinho, dá não?
– Tenho medo. – Sussurrou.
– Oi?
– Dá. Dá.
– Velho, quero te parabenizar pela coragem, viu?
– Tem que ter coragem. Obrigado.
– Fodam-se aqueles reaças religiosos de merda. Não passarão!
– Não passarão!
– Filho, que cheiro de queimado é esse aí dentro?
– Quê, mãe?
A vela havia rolado pra junto da cortina, que agora começava a arder em chamas.
– Puta que o pariu!
– Que foi, Ricardo? – afligiu-se o amigo.
– A cortina tá pegando fogo!
– Faz alguma coisa!
– Eu tô nu!
– Tá nu por que, filho?!
– Mãe, não entra!
– Ricardo, meu filho!
– Sua mãe entrou?
– Vou desligar, cara.
A mãe dele já havia arranjado um travesseiro e batia como louca nos panos flamejantes.
Quando tudo se aquietou e os dois estavam inertes entre a fumaça, a mãe perguntou que raios de trabalho de faculdade era aquele que envolvia nudez e fogo.
: – É arte mãe, arte. A senhora não tem como entender. É revolução, é paixão, é desconstrução…
A mãe o olhou orgulhosa e disse:
– Não preciso entender. Meu artista. Mas se vista.
A senhora já ia saindo quando ele, inadvertidamente, ativou um áudio que havia recebido do seu parceiro de apresentação:
– Rique, só pra ter certeza, a vela vai no teu cu e o vinho no meu, é isso?

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