Trechos de “Viagem ao Araguaia”, de Couto de Magalhães

“Enquanto assim pensava, despontou a lua, e eu não poderei nunca descrever, nem ao menos de longe, a beleza melancólica de toda aquela paisagem, tão deserta, tão grandiosa, e ao mesmo tempo tão serena e tão calma, em tão absoluto silêncio, que se ouviam as pancadas do coração. Aquele leito imenso do rio, o lago, a orla de flores negras que se estendiam em arco, à minha esquerda; aquele refletir da lua nas águas e na areia branca eram de uma beleza tão melancólica, que, ao mesmo tempo que eu me extasiava contemplando tanta grandeza, meu coração se apertava, como se eu estivesse sob a pressão de uma dor pungente. E comecei então, a lembrar-me dessas teorias nebulosas dos filósofos alemães, repassando mil doutrinas que havia estudado e lido em uma quadra feliz da vida, em que estudos eram a minha única ocupação.

Eu disse atrás que sensações como essa são talvez o pressentimento de uma vida para a qual somos destinados. Pensei de novo nisso. Neste século de luzes, nós não tratamos de inquirir o que seremos algum dia; nossas ocupações diárias, nossos interesses materiais nos absorvem por tal forma o tempo, que é mister que uma sensação poderosa como essa nos venha abalar toda a natureza moral, para que dirijamos ao pensamento uma dessas interrogações. Menos materialistas do que nós, os antigos tinham a esse respeito suas crenças, e, certas ou errôneas, com elas viviam, com elas sabiam morrer.

E nós? Nada sabemos, não acreditamos, nem deixamos de acreditar em coisa alguma, porque não nos queremos dar ao trabalho de pensar: é mais cômodo viver como vive a besta…”

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“Então, dirá consigo o leitor, no curto espaço de vossa existência já tiveste tempo suficiente para apreciar mudanças de costumes em matéria de viagens?

Ah, leitor, quantas e quantas coisas, mesmo neste São Paulo, de onde escrevo esta, já vi mudar, desde o tempo em que era rapaz até hoje!

Do rio para aqui, a distância era quádrupla, quíntupla, ou mais, a contar pelo tempo necessário para transpô-la.

Se se vinha pelo mar, havia uns péssimos vapores, que consumiam às vezes cinco dias no oceano.

Os hotéis, em Santos, eram então coisa igualmente detestável.

Tomavam-se aí animais – quase sempre burros – os quais, cavalgados por imperitos e entregues depois à incúria dos escravos negros, ficavam manhosos (esse era o termo) a mais não poder.

Nesses animais manhosos subia-se a serra – aquelas rampas alcantiladas do Paranapiacaba, muitas vezes por noite velha. Grande parte dos viajantes – estudantes do Rio ou das províncias marítimas, sem prática alguma de andar a cavalo – não podia suportar de uma assentada a viagem de Santos a São Paulo, pelo que pernoitava no alto da serra, ou na pousada de um alemão, chamada Zanzalar, ou em outra, chamada a do Rio Grande, ou ainda em outra, chamada Ponte Alta, de modo que, do Rio de Janeiro a São Paulo, o que pelo mar se faz hoje em pouco mais de uma noite e um dia, gastavam-se então, muitas vezes, cinco e seis dias, repletos de aventuras, peripécias e, quase sempre, de reais perigos.”

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