Sobre “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto.

Lima Barreto, como é de seu feitio, desmascara a superficialidade brasileira com precisão e pouca sutileza. Em “Recordações…”, o espírito nacional, afeito a títulos em papel desprendidos da qualidade real de quem quer que os ostente, é esmiuçado de maneira até cruel. Vemos gente incompetente alçada a cargos de confiança, e acompanhamos charlatões diversos sob a ótica de Isaías Caminha, contínuo do jornal O Globo, ainda uma explosiva novidade no cenário local de notícias.
O plano inicial de Caminha era estudar medicina no Rio de Janeiro; sempre fora aluno brilhante, referência na turma, e conseguiu, através de um tio, a recomendação de um coronel a um deputado que, teoricamente, arranjaria emprego para o rapaz na capital nacional. Não há necessidade de dizer que, instalado no Rio, tudo foi bem diferente do esperado. Os arroubos imaginários de grandeza não tardaram a escorrer por sarjetas de desesperança enquanto a fome roía suas entranhas; o que acontece é que o tal deputado – nunca encontrado em casa – quando é finalmente alcançado, hesita em tomar qualquer ação em favor do protagonista, que vem a descobrir pouco depois, lendo jornal, que o parlamentar em breve viajaria para outro Estado por longo tempo.
Desesperado, Isaías Caminha pede dinheiro à mãe e se vê, posteriormente, dada a falta de recursos em seu lar, forçado a arrumar emprego qualquer que não o deixaria seguir seu sonho. Por sorte, graças a relação que construíra com Gregorovitch, jornalista estrangeiro que trabalhava em “O Globo”, o rapaz consegue uma vaga de contínuo na redação e chega mesmo, anos depois, a virar repórter.
O livro é povoado pelas efêmeras memórias que Caminha guarda das personagens: O doutor Ricardo Loberrant, bacharel em Direito, dono do jornal, divindade olímpica para a maioria daqueles que trabalhavam entre suas paredes; Floc, crítico cultural de modos e conhecimentos artificiais, que é oprimido pelos prazos e gostaria de escrever de outro modo; o gramático da redação, obcecado por minúcias de nossa língua; o paquidérmico vice-diretor, homem de gostos caros e talentos nulos; Leiva, revolucionário de botequim que acaba por virar repórter e tantos outros. Isaías Caminha não se demora muito em nenhum deles; alguns chega somente a esboçar, como um desenhista apressado preocupado em passar somente o essencial da imagem.
O Globo aparece como um organismo vivo, porém. Dá para sentir as engrenagens do jornal rodando e submergir nas falsificações e omissões das notícias, é possível se agoniar com o desprezo que a maioria daqueles profissionais, verdadeiro poder oculto da república, sente por tudo o que é grandioso e genuinamente artístico ou belo.
Um leitor mais atento também notará que Lima Barreto, realista como era, ou como tentava ser – e uso realista no sentido real do termo – não deixou de tocar na questão do racismo; mas o fez, no mais das vezes, de modo bastante comedido.
Não tenho mais o que dizer a não ser reconhecer que “Recordações do Escrivão Isaías Caminha” nada com desenvoltura na essência da alma nacional.

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