Para Pasternak, a fama é reles – e também os partidos – Rodrigo Gurgel

Reli ontem, após muitos anos, “A fama é reles…”, de Boris Pasternak

O poema é um contraponto ao nosso tempo, em que gênios e celebridades da literatura surgem a cada dia para, exclusivamente, cumprir seu efêmero destino na indústria de diversões e logo rumar para o esquecimento.

Pasternak não se queixa por estar ilhado na Rússia bolchevique. Não vê com melancolia a fugacidade do sucesso. Não se entrega ao desapontamento nascido de glórias passageiras. Não encontramos nos versos aquela certeza triste, tão comum, principalmente no fim da vida, de que nem tudo foi feito — e que o realizado significa, na verdade, uma insignificância. O leitor tampouco encontrará a proclamação romântica da busca pela perfeição inalcançável — ou, o que seria decepcionante, o batido pretexto da pobreza como trincheira da criatividade.

O poema é uma afirmação viril em louvor do ato criativo, um convite à solidão produtiva. Pasternak enaltece o trabalho silencioso:

Criar é se entregar de todo,
jamais sucesso ou alarido.
É vergonhoso, sendo engodo,
virar provérbio promovido.

O escritor deve encarar a obra como sua própria vida — esse o verdadeiro destino, que não admite lacunas — e fugir do rumor, da agitação:

Some no anonimato e esconde
teus passos, como sítio oculto,
por brumas muito espessas, onde
nada se avista do seu vulto.

É exatamente o comportamento que Pasternak não encontra em Maiakóvski, como relata Isaiah Berlin no ensaio “Conversas com Akhmatova e Pasternak” (em Estudos sobre a humanidade): “os gritos eram insuportáveis”, diz Pasternak, referindo-se à forma de Maiakóvski declamar, “ele inflou seu talento e o torturou até que explodiu. Os tristes trapos do balão multicolorido ainda estão no meio do caminho, para quem é russo. Ele era talentoso, importante, mas rude e pouco desenvolvido, e acabou como um artista de pôster”.

O juízo de Pasternak ilumina os motivos do exagerado culto a Maiakóvski que os concretistas e seus herdeiros instituíram no Brasil: além de cego defensor da Revolução Russa — o poema épico dedicado a Lênin, de 1924, é uma peça vexaminosa de propaganda comunista —, Maiakóvski foi, ainda segundo Pasternak, “um destruidor titânico de antigas formas”, mas jamais “um grande poeta, nem um deus imortal como Tyutchev ou Blok, nem mesmo um semideus como Fet ou Bely”. Acorrentado à escola futurista de Moscou, Maiakóvski obedeceu ao que a revolução exigia — mas o tempo o diminuiu, conclui Pasternak.

Na verdade, Maiakóvski ignorou o alerta de Pasternak na última estrofe de “A fama é reles”:

Não rendas nunca, por motivo
algum, teu rosto, tua estrada;
prossegue vivo, apenas vivo
até o fim, vivo e mais nada.

Comportamento, aliás, que Pasternak impôs a si mesmo, aceitando viver como um exilado em seu próprio país, sem submeter-se ao stalinismo. Um dos episódios relatados por Berlin é emblemático dessa escolha. Ao comemorar, onze anos depois do primeiro encontro, com absoluta falta de tato, que Pasternak continuasse vivo, a reação do poeta é imediata: “Sei o que você está pensando. Sei, sei, sei exatamente o que se passa na sua mente. Não minta. Posso ver mais claramente na sua mente do que na minha”. Perturbado, Berlin insiste na pergunta: “O que estou pensando?”. E Pasternak: “Você pensa — sei que você pensa — que fiz alguma coisa para eles”.

Foi difícil Berlin provar que nunca tivera tal pensamento: “Só depois de eu ter reiterado que a admiração por ele, não só como escritor, mas como ser humano livre e independente, era, entre os povos civilizados, mundialmente difundida, foi que começou a retornar ao seu estado normal. ‘Pelo menos’, ele disse, ‘posso dizer, como Heine: «Talvez não mereça ser lembrado como poeta, mas certamente como um soldado na batalha pela liberdade humana»’”.

O empenho de Pasternak no sentido de “viver sem disfarce” permitiu-lhe também mudar seu estilo literário, abandonar o que fizera nos primeiros trabalhos em prosa — segundo ele, “influenciada pelo que havia de mais fraco e mais confuso no movimento simbolista”. Pasternak reitera a Berlin: “Tudo que eu escrevia antes era obsessivo, forçado, fraturado, artificial, sem utilidade; mas agora estou escrevendo algo inteiramente diferente: algo novo, completamente novo, luminoso, elegante, bem-proporcionado, classicamente puro e simples — o que Winckelmann queria, sim, e Goethe; e essa será minha última palavra, minha palavra mais importante, para o mundo”. Foi o que realizou em Doutor Jivago — ali teria atraído “o puro amor do espaço”; ali talvez tenha conseguido escutar “o apelo, ao longe, do futuro”.

Pasternak não considerava repulsivo servir apenas ao Partido Comunista — ele comparava a Rússia a “uma galé, um navio de escravos, e os homens do Partido eram os superintendentes que chicoteavam os remadores” —, mas a qualquer forma de associação, de organização. Presente, em 1935, ao Congresso Antifascista organizado por André Malraux, foi categórico ao discursar: “Compreendo que este é um encontro de escritores para organizar a resistência ao fascismo. Só tenho uma coisa a lhes dizer: não organizem. A organização é a morte da arte. A única coisa que importa é a independência pessoal. Por favor, eu lhes imploro, não organizem”.

Além do desprezo pela fama, Pasternak ensinou aos escritores o que, no Brasil, muitos fazem questão de esquecer: manter-se íntegro, a salvo, distante da política e dos partidos.

 

Para mais textos de Rodrigo Gurgel, acessem aqui

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