Sobre “Memorial de Aires”, de Machado de Assis

Machado é Machado, e em qualquer de seus trabalhos maiores podemos encontrar alguma janela que permite vislumbrar a alma humana. A janela aberta, dessa vez, deu para a resignação melancólica de um casal de velhos, se posso colocar assim sem comprometer o sentido.
O livro é sobre o casal Aguiar, enxergado sob os olhos diretos do Conselheiro Aires ou sob as vistas indiretas de sua irmã Rita, da doce viúva Fidélia, do apaixonado Tristão, da maledicente Cesaréia e talvez, em muito menor escala, através de uma ou outra observação rápida de outros personagens.
Quem conta tudo é o aposentado diplomata que dá nome à obra, composta de trechos de seu diário. É por ele, e por coisas que contam a ele, que ficamos sabendo a história do casal Aguiar, um casal especialíssimo – dei-me a superlativos – que não conseguiu ter filhos. O marido trabalhava no banco, e a esposa, dona de casa, organizava o lar com esmero e dava a tudo o seu toque, pois também bordava.
Eles não tiveram filhos, mas tiveram a quem despejar amores. Primeiro, a Tristão, que eles viram crescer e ajudaram a criar até o menino bater o pé que queria viajar a Portugal com o pai. Foi e não voltou por muitos anos. A partida do garoto quebrou o velho casal, mas eles se consolariam, no futuro, com a doce viúva Fidélia, que afastada do núcleo familiar e da terra natal por ter resolvido se casar com o filho dos rivais políticos do pai, e já órfã de mãe, havia encontrado no casal Aguiar segundos pais. A viúva se reconcilia com o pai moribundo, mas decide se desfazer da fazenda herdada e fica pelo Rio, morando com o tio no Botafogo; visita frequentemente a gente Aguiar e dá a eles enormes alegrias.
Sabemos até mesmo de um cão que o casal teve e a quem trataram como filho até a morte. O bicho jazia enterrado junto a um muro, no jardim.
Os velhos eram muito queridos nas redondezas, sempre recebiam visitas, e a esposa Aguiar, ao que parece, falava e encantava tanto com palavras tanto com gestos e olhares. Os olhares da velha, aliás, eram espetáculos à parte graças à refinada escrita de Machado.
Com os cenários e principais personagens devidamente introduzidos, volta Tristão da Europa para uma estadia temporária, e a alegria do casal Aguiar vai às alturas, pois ficam com seus dois filhos postiços.
Tudo vai bem por mais de um ano, contudo, o par de velhos acaba sozinho; a última entrada no diário do conselheiro Aires fala sobre como o antigo diplomata os encontrou desolados e solitários à porta de casa, um junto do outro, doídos de saudades e consolados unicamente pelo amor que tinham em conjunto.
Havia pensado também em escrever sobre aspectos mais técnicos, e pensei em anotar as minhas impressões sobre o narrador, Aires, mas não quero ser indiscreto.
Deixemos o casal Aguiar sentado à porta.

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