O Grilo

Mateus se virava na cama. E virava, virava, virava… virava; virava. Virava. O Sono saíra para festejar, provavelmente com a sua amante, a Preguiça. O seu sono com a sua preguiça, que deixemos esclarecido, pois tal como anjos guardiões, cada um tem os próprios demônios; mas isso não vem ao caso agora; o que vem ao caso é que o rapaz não conseguia pregar os olhos, parecia mesmo que, justamente por ter consulta marcada às oito do outro lado da metrópole, escafedeu-se dele a disposição para dormir e o acalento do cansaço.

Em verdade, a cama o irritava, os cobertores despertavam coceiras e o travesseiro surgira com calombos misteriosos. Lá fora, o mundo silencioso oferecia a mais agradável das temperaturas, como se zombasse dele. O grilo que cricrilava d’algum lugar da casa também parecia zombeteiro, e se a princípio Mateus pouca importância deu ao inseto, agora começava a se incomodar.

Descerrou as pálpebras e permitiu que a vista se amoldasse ao escuro; o quarto estava todo lá, todo tenebroso e espreitado por retas sombras inclinadas. Fechou os olhos de novo e começou a se perguntar onde o grilo estaria, aquele cri cri infeliz o perturbava cada vez mais, e o curioso é que ele o ouvia mais alto e mais alto; deduziu que o danado do bicho estava se aproximando e pôs o travesseiro na cara a fim de abafar o barulho. Limpou a mente para tentar relaxar e falhou; pensou na noiva com o mesmo intuito e falhou. Descobriu a cara, e usando o celular de lanterna, inclinou-se sobre a beira da cama para examinar o chão abaixo dela, pois concluíra que o maldito grilo só podia estar ali. Mas não estava.

Aquietou-se novamente e tentou o máximo que pôde ignorar o cricrilar, que havia crescido em volume e frequência. Mateus respirou fundo, e de olhos oclusos fez dessas viagens sinápticas que muito mostram e a parte alguma levam, queria se dissociar de si e dormir, mas entendeu que era impossível: tudo no quarto o incomodava, permanecer deitado se provava tarefa insuportável. O ar parecia mais pesado e o cricrilar não cessava de aumentar!

– Grilo maldito! – explodiu, abrindo os olhos outra vez.

Um vulto gigantesco tomava todo o espaço livre do quarto, acotovelando-se pelas paredes, espremido entre os móveis; medonhas tiras de sombras escorriam da horrorosa criatura.

Mateus gritou como nunca antes, saiu dele um berro estridente e rasgado que jamais pensou ter capacidade vocal para dar.  

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