A Inauguração

O homem engomado subiu ao palco improvisado, e depois de saudar a platéia com acenos de cabeça e sorrisos melosos, olhou contidamente para baixo, esperando o fim dos aplausos.

Quando a população se aquietou, ele encheu o peito e começou agradecendo a uma pletora de excelentíssimos senhores doutores, ou doutores senhores, excelentíssimos senhores professores doutores e políticos ilustríssimos. Inflou-se novamente, após quase vinte minutos de felação, e disse assim:

– Atlântida cresceu e sucumbiu na água. Desde os tempos antigos, a importância deste inexorável elemento tem sido reconhecida; Tales de Mileto a considerava a origem de toda a vida, Hesíodo dizia que ela devia ser bebida com moderação, e Homero, antes de todos, fez Ulisses cruzar seus domínios. Charles Darwin, pai da moderna biologia, e por que não dizer, da moderna ciência, também achou que da água viemos, e foi através dela que viajou, no famoso Beagle para iluminar a humanidade. E não utilizou a água Arquimedes, milênios antes, com assombrosa eficiência em benefício da ciência? – Endureceu o olhar, recurvou os lábios e fez que ia compartilhar coisas graves. – O nosso Couto de Magalhães, tão esquecido em nossos dias, comparava o rio Araguaia ao Oceano, pois entendia que é através dos caminhos aquáticos que as economias se fortificam, que as nações se desenvolvem. É o simbolismo da água. Os homens se encantam por suas profundezas, imaginam mil coisas; Andersen nos deu, graças à água, a pequena sereia, história tão bela que encanta nossas crianças até hoje, e as diversas mitologias de nosso planeta a povoaram de monstros horríveis. Era na água que vivia Moby Dick, e as baleias do oceano sustentaram, sozinhas e por décadas, muitas comunidades.

“Onde pairava o espírito de Deus? Exatamente, meus caros. Como castigou Deus a humanidade na época de Noé, evento lembrado de modo tão divertido por nosso grande Machado de Assis?

É impossível dissociar nossas vidas da água. Sem mares nunca antes navegados, os portugueses não teriam chegado aqui e não existiríamos! Imaginem o horror de não existir!

Por devermos tanto, por devermos tudo, a tal elemento inexorável, sinto-me extremamente honrado por poder dizer a todos os senhores e senhoras que, a partir já de hoje, podem aproveitar, podem aperfeiçoar o caráter, podem desfrutar sem impedimentos do laço mais significativo entre todas as civilizações; podem explorar o espírito humano. Eu, feliz e emocionado, declaro aberta a piscina de nosso colégio.”

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