Tião Bicho Lobo

Nasceu sozinho numa casinha de palha,
Nem percebeu que sua mãe tinha morrido;
Berrou ao céu pedindo uma migalha.
Demorou mas teve o berro respondido
 

Foi por mulher que ali passava adotado,
Desmamou noutro canavial;
Seu único passado enterrado
Em fevereiro de pleno carnaval.

Logo cedo, na terra batia a enxada,
E com destreza manejava o facão.
Tinha jeito de brabo e apanhava.
Foi batizado, o pirralho, de Tião.
 

Os outros moleques, dele tinham medo.
Cresceu à base de feijão com arroz.
E o menino carregava um segredo,
Que não sabia e que vou contar depois.
 

Tião foi assumindo a delinquência,
Furtava cana e roubava gado;
Não acusava nada a consciência.
Fugia ligeiro ao mato fechado.

 
A coitada mãe sentia muita culpa
Por não ter contado ao filho sua história.
Temia era pela vida adulta,
Vida dura, de prisão, condenatória.

 
De nada adiantavam os castigos,
As conversas, choros ou palmadas:
Tiãozinho seguia com maus amigos,
Liderava o bando pela estrada.

Tudo isso antes dos doze anos.
Comentavam: “Ele não é normal”
A família jogava quentes panos,
Retribuídos com golpes de pau

Tião foi ficando violento,
Viajantes passou a agredir.
Assaltava e humilhava a contento,
Moça bonita não tinha vez ali.

 

Enfim, foi expulso de casa.
Estava tudo imensamente insuportável.
Igual urubu o menino bateu asas
E cometeu cada crime mais notável.
 

Matou Rodolfo, namorado da irmã
Que de ódio e amargura se encheu.
A caça toda se revelou vã,
Foi a primeira vez que se escafedeu.

 
A coitada mãe não se consolava.
O marido tentava aliviar.
A irmã de raiva se armava,
Sem saber como podia se vingar.

  

Agora uma pausa aqui, que essa parte é importante.
Aquela mãe, a primeira, na casinha de palha,
Tava marcada por mordida de lobo.
Se escondeu quando foi parir
Porque sabia o que viria, e queria matar.
Pois pense que grande revelação:
Do ventre morto saiu algo bem errado,
Surgiu do mal o mais forte campeão,
Que tocou o terror pelo sertão,
Batizado e conhecido por Tião.

 
O tempo ia, e ele mais animalesco
Preferiu ficar todinho só.
Seguia ganhando gostos mais grotescos,
Não conhecia compaixão, não tinha dó.

 
Em becos e vielas mais escuras,
Se aconchegava. No cenário urbano
Virava latas, a vida era dura,
Não se enxergava como um ser humano.

Olhou o céu e viu a bela lua,
Sentiu no corpo o mais tenso calafrio;
Correu gritando para o meio da rua…
Atropelado, arremessado ao meio fio.
 

O povo na calçada e na via
Com certeza que desacreditou,
Pois o rapaz levantou e já lá ia,
E da cidade noutro dia se mudou. 

A fera dentro dele o assustava,
Tião pensava já em perecer.
Durante o dia até que sossegava,
Mas à noite o bicho dava pra crescer.
A lua era a maior inimiga;
Às estrelas, declarara guerra.
Porém Tião não venceu a briga
Que o converteu em pêlo e sangue pela terra.
 

Após desgraças tentou voltar pra casa.
A família não o reconheceu,
Foi recebido a chumbo, faca e pedrada,
Então pra sempre ele desapareceu.

“Oxe, então é assim que acaba?”
É não, mas posso falar mais nada.
Quero levantar suspeita, não.
Faz muito tempo que tô caçando maninho Tião.

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