Não seja Chapeuzinho Vermelho

Praticamente todo o mundo já ouviu, viu ou leu alguma versão da história de Chapeuzinho Vermelho, só que muita gente conhece apenas uma versão amena –  uma versão não educativa –  ou então a versão dos irmãos Grimm, na qual, apesar de devoradas pelo lobo, chapeuzinho e a avó são tiradas da barriga da fera por um caçador. Nesta versão, como tudo acaba bem, a moral da história passa despercebida para alguns indivíduos.

A versão dos Irmãos Grimm certamente tem valor, e eu poderia usá-la para ilustrar meu ponto, mas para essa história prefiro a narração mais seca de Charles Perrault.

Chapeuzinho vermelho fica encarregada de levar comida para a avó adoentada, e no caminho encontra o lobo, em quem confia prontamente. Ora, o lobo, ao saber que a menina que ele deseja comer pretende visitar a avó, e ao saber onde a avó mora, pega o caminho mais curto, mata a velhinha doente e espera a pobre neta da senhora, ingênua e imprudente. O que acontece é que Chapeuzinho Vermelho é também devorada pelo lobo, e não há caçador ou lenhador que a consiga resgatar.

A menina é culpada da desgraça que aconteceu?

Não.

Ela podia ter sido mais prudente e não ter confiado tão rápido em qualquer um que lhe cruzasse o caminho?

Sim.

Nossa sociedade esqueceu do valor dos contos de fada, dos contos populares; esqueceu da sabedoria intrínseca em muitas dessas histórias. Até vemos, e não raramente, o termo “contos de fadas” usado de maneira pejorativa. Essa mentalidade se alastrou para muito além dos contos populares, e hoje “ficção”, para várias pessoas, é sinônimo de bobagem, de simples mentira, etc.

Não é a intenção desse texto explicar ou especular sobre os motivos dessa situação. Contento-me em lembrar que histórias nem sempre são meras historinhas, e que os contos clássicos, por exemplo, contêm lições valiosas; lições, aliás, que os mal-intencionados não gostariam que fossem absorvidas.

A quem interessa, afinal, esse excesso de confiança? A quem interessa esse tipo de descuido? A quem interessa a confusão dos termos ao ponto de avisos óbvios sobre prudência serem tomados como culpabilização das vítimas? A quem interessa tornar esse tipo de sabedoria cada vez mais rara e irreconhecível?

Ser imprudente não significa ter culpa da desgraça que te aconteceu, se tal desgraça foi causada por outra pessoa, mas as pessoas ruins têm grande preferência pelos imprudentes, pelos descuidados, e não vamos negar que gente ruim existe,  vamos?

Não seja Chapeuzinho Vermelho.

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