Nota sobre “Inocência”, do Visconde de Taunay

O visconde de Taunay me pareceu, a julgar por Inocência, um escritor meio apressado e um tanto desprovido de senso estético; pois não pode lá ter o mais apurado senso estético quem escreve “Àquela instantânea ressureição, nada, nada pode pôr peias.”

Taunay também não é bom apresentador de cenários selvagens, muito embora o encanto genuíno que ele sentia pelos ermos nacionais possa ser captado por uma leitura mais atenta. O problema é que, na hora de passar essas paisagens ao leitor, o visconde escolhe tão mal as palavras que afirmo sem exagero: bula de remédio dá menos sono.

Não tome o que digo como verdade, confira: “Corta extensa e quase despovoada zona da parte Sul-Oriental da vastíssima província de Mato Grosso a estrada que da vila de Sant’Ana do Paranaíba vai ter ao sítio abandonado de Camapuã.”

Felizmente, não são tantas assim as descrições de cenários selvagens, e com um pouco de boa vontade o leitor as consegue deixar para trás.

O livro trata da paixão de Cirino, um curandeiro do interior, por Inocência, a filha de Pereira, sertanejo que o acolhe em casa. A questão é que a moça é já prometida a Manecão, capataz daquelas terras. Taunay, talvez inadvertidamente, talvez intencionalmente, contrapõe o romantismo fantasioso e egoísta do casal à realidade impassível da vida sertaneja.

Os personagens devidamente apresentados por Taunay são poucos, mas interessantes. Destaco o alemão Meyer, entomólogo ingênuo e linguarudo que, tão logo vê Inocência, se derrama em elogios e comentários passíveis de interpretações libertinas – o alemão não estava a par dos modos especialmente reservados dos sertanejos, não sabia bem que tais homens escondiam as mulheres em casa e consideravam desrespeitosa qualquer demonstração mais acalorada de interesse nelas – e Tico, o anão meio mudo, porém extremamente expressivo, que é uma espécie de cão de inocência.

Taunay também soube explorar a condição de loucura na qual a paixão joga alguns homens e conseguiu dar uma razoável idéia da vida e dos costumes dos habitantes do interior brabo àquela época.

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