A Fábrica – Parte um

Antes de ler, passe os olhos por aqui, por favor.

Os tufos de mato nasciam por entre as rachaduras do cimento, teimosos, ao sabor do vento. As folhas desgastadas eram abrigos de formigas que subiam e desciam a estrada verde em fila, às vezes carregando comida; não raro, pequeníssimos nacos da carne de ratos ou pássaros sem vida largados no cimento. Quando chovia, as gotas escorriam pelas torres abandonadas e faziam percursos irregulares, dividiam-se, paravam ao encontrar alguma mínima resistência; gotejavam das antigas chaminés quadradas, gigantes solitárias. Existiam muitas escadas internas e externas, todas lascadas; degraus quebrados, imundos, empoeirados, esquecidos. Os corredores vazios mantinham decadentes portas, abertas ou ao chão, e não compartilhavam com as janelas, já sem vidraça e de rotas cortinas, os murmúrios e segredos que guardavam.

Em tempos mais frios, especialmente nas manhãs, uma densa névoa pairava no lugar, afogava os pátios, invadia as alas, escondia os degraus, ofuscava as torres… como uma maldição embaçada de mistérios impenetráveis e intragáveis horrores. Quando o sol derramava seu brilho absoluto, os corredores eram a imagem da desolação: cacos de vidro; farpas de madeira; pedrinhas lascadas; sujeira; tudo pelo chão; vez ou outra havia um animal morto em decomposição.

A fábrica era grande.

Uma ilha cinza, indiferente, cercada por verde, verde que apenas a custo verdejava em suas dependências. Mais para lá, uma antiga ferrovia, sem uso e enferrujada, jazia. Noutro canto, um modesto rio serpenteava, e além, no mundo, uma cidade empoada trabalhava.

Mas a fábrica era grande, esquecida e meio longe, abandonada por muitos. Não em largo tempo, seria ruína, e a natureza lentamente conclamaria de volta aquele grande espaço, fazendo seus ramos quebrarem o cimento, sua fauna se apropriar dos aposentos. Um dia, tudo desabaria. Mesmo as solenes chaminés, impávidas, cheias de importância, não resistiriam.

Seis andares, um pátio. De estrutura fria, sem curvas, o gigante prédio assenhoreava-se, enquanto podia, daquela terra onde dançavam as sombras do dia seguindo o disco solar, por onde os ratos passavam a ser caçados e a caçar. O telhado da fábrica era também de pedra, fustigado pelas intempéries, arcando com o esquecimento; tinha avarias e bichos no firmamento. Era, ainda assim, um dos lugares preferidos de certo personagem, de onde ele admirava, quieto, a paisagem. Pássaros faziam, em buracos, seus ninhos teimosos, pois os gatos sempre encontravam tão farto alimento. Atacavam. Comiam. Miados de satisfação.

A fábrica era uma selva. Ali prevalecia a lei do mais forte; sem regras, sem tréguas. Cães dilaceravam gatos, gatos acabavam com ratos, ratos descontavam nos insetos. Os insetos arremessavam suas frustrações em cadáveres alheios ou uns contra os outros em batalhas épicas sobre o concreto. Cem formigas contra um grilo moribundo, resultado incerto: tombava o monstro verde, mas se erguia, se debatia, escapava, vencia? Besouros se atracavam, rolavam pelos degraus, caíam lá de cima em poças, presentes das chuvas, e não encerravam a luta, a vida tinha que deixar um dos insistentes combatentes. Amém. Cobras e lagartos às vezes digladiavam-se nos pátios, e sapos desavisados eram devorados pelas serpentes. As aranhas, sorrateiras, preferiam fazer suas pegajosas teias enormes no interior da construção, e pacientes, esperavam a refeição.

A fábrica viu muita coisa com seus olhos humanos: viu cristãos, ateus, budistas, nobres e plebeus, viu morte, nascimento, felicidade, lamento, viu guerra e viu paz, cada qual duradoura ou fugaz. Banhou-se de lua e estrelas, de sangue e suor, vômitos e lágrimas, gozos, dejetos e álcool. Foi vestida com fogo, lonas, folhas e sonhos.

Um buraco negro para onde convergiam as humanidades, de onde brotava a selvageria, em triste, mas acertada ironia. Já teria virado muita coisa, de centro cultural a shopping, de estacionamento a parque público ou museu, até prisão, mas lá permanecia, inabalável em sua solene imensidão.

A fábrica existiria até o fim. Quando deixasse de existir, simplesmente não mais existiria.

Vespas. Havia vespas no segundo andar. Ramon as evitava toda vez que ia por lá, esgueirava-se pela parede contrária, lançando-as cauteloso olhar. Ramon era jovem, vinte ou trinta anos, não se sabia. Nem alto, nem baixo; nem gordo, bem magro; nem bonito, nem feio; nem bravo, nem afogado por qualquer receio. Saudável, muito saudável, porém, dadas as condições de sua existência. Ele vivia na fábrica. A fábrica vivia com ele. A fábrica era ele.

Comia do que caçava, do que pegava nas árvores, ou do que furtava; banhava-se do que apanhava nas chuvas, ou no rio; vestia-se com trapos tão cinzentos quanto sua alma desbotada, raramente os trocava, e quando o fazia, se aproveitava de cadáveres. Assassinatos eram cometidos na fábrica. Toda a sorte de coisas era feita na fábrica.

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