A Fábrica – Parte dois

Antes de ler, por favor, passe os olhos por aqui.

Um grupo de mendigos freqüentemente aparecia para embebedar-se e cair pelas escadas. Góticos vagavam às vezes pelos esquecidos corredores, tiravam fotos, cediam a seus instintos. Criminosos escondiam drogas no pátio, planos ficavam nas salas vazias, encontros aconteciam em todos os lugares. Estupradores conduziam suas vítimas para o local, assim como faziam os algozes. Bem pouca coisa parava no jornal.

Ramon também possuía seus segredos.

Poucos avistaram o esfarrapado residente misterioso, o personagem de ar escabroso, mas corria a lenda de que a fábrica tinha um fantasma. O personagem andrajoso, de alma retorcida, apreciava divertir-se com a fama involuntária, e à guisa de real espectro infernal, injetava medo, quando queria, no mais deslocado pária. Seu domínio naqueles corredores era incontestável, total. Ademais, viver era banal. A existência carregava algo mais profundo, pessoal, a essência última, a Verdade Universal.

O espírito do concreto jamais se comunicou por palavras com qualquer humano que havia visitado seu reino de pedra, nunca se comunicaria até o fatídico dia, até o momento derradeiro; até a hora em que morreria.

Quando se comunicava, entretanto, a fábrica sentia o terror de seus atos, às vezes impensados, muitas vezes sãos.

Mas a fábrica… a fábrica era grande. Os piedosos não poderiam compreendê-la.

Trivialidades, porém, eram comuns por lá, como o são em toda a parte. Certa noite inóspita, o habitual grupo de mendigos se reuniu em volta da fogueira, seis homens com suas garrafas compartilhadas conversando em alegre melancolia. Trapos serviam-lhes de vestimenta, unhas sujas arranhavam seus imundos couros cabeludos – coceira freqüente, displicente e talvez contagiosa, pois Ramon, nas sombras, repetia o gesto, veemente; franzia o sobrolho, arqueava os dedos e ia em frente.

Os mendigos falavam sobre a vida debaixo daquela lua, generalidades sem esperança proferidas quase que com a simplicidade de crianças:

– O Manuel morreu ontem.

– Eu soube.

– Viveu demais já, o coitado.

– Como foi?

– Atropelado. Bebia o tempo todo, não podia tê ôtro fim.

Fez-se o espontâneo minuto de silêncio, o qual os grilos solenemente desrespeitaram.

– Eu consegui um trabalho.

– Mentira, seu féla da puta! – um dos homens socou o braço do companheiro, esticando-se sobre o fogo.

– Vou sair dessa. Essa vida de mendigo é pra eu não. Aí eu ajudo vocês depois. – O brilho sonhador tomou a face avermelhada do morador de rua, engrandecida pelas chamas a crepitar. – Um dia vou usar terno e gravata. – As gargalhadas explodiram diante de tão insuspeita absurdidade, e o semblante sonhador tornou a se enfurnar em obscuridade.

– Então não ajudo ninguém não, pronto, se fudêro. – Amuou-se.

– E vai trabalhar onde, infeliz?

– Carregar caixa no mercado.

– Óa só, a coisa é séria!

– E eu vô mentir por quê?

– Eu queria sê lixêro. – Disse um deles, que até então havia permanecido mudo. – Andar atrás do caminhão.

– Tu já é fedido, cara, deixe disso. – Mais risadas e considerações gerais sobre odores alheios. Um dos mendigos pôs a seu lado a garrafa de pinga e soprou a fumaça do cigarro.

– Eu ainda vou subir de novo na vida.

– Vai não, irmão.

Enquanto a conversa prosseguia, os olhos de Ramon recaíram na cachaça ao lado de um dos homens. Sem hesitar, o rapaz esgueirou-se pelas trevas buscando a melhor rota até seu etílico alvo, movendo-se com intrepidez e segurança, como a criatura treinada que era. Logrou passar despercebido à vista daqueles de frente para ele, abaixado, e num bote sem som raptou a vítima – uma mão no gargalo, outra na base – e sumiu na penumbra, colocando-se onde previamente estivera. Bebia e observava os mendigos.

Quando a mão calejada pela rudeza do relento, cheia de calombos e ressecados ferimentos, seguiu seu curso até onde momentos atrás estivera o sustento da mente que lhe conduzia, nada encontrou senão ar. Seu dono virou a cabeça para ver melhor o que estava fazendo e pulou sentado.

– O que foi isso, homem!?

– Minha garrafa! Minha garrafa sumiu! Eu coloquei aqui e sumiu!

– Procure direito.

– Cê tá vendo alguma garrafa aqui?! – levantou, indicando o lugar.

– Vixe!

Todos ficaram em tensa quietude, talvez pensando sobre tomar alguma atitude. Olharam desconfiados ao redor e não viram Ramon. Um deles sugeriu então que era hora de ir embora e os outros concordaram. Uma fala afirmando que a fábrica era esquisita também foi proferida, e uma vez mais, não houve senão concordância. Em pouco tempo os mendigos tinham partido sem se preocupar em apagar a fogueira, que crepitava, hipnotizava o jovem Ramon, que fazia o fogo dançar nas suas córneas, irritar suas pupilas. Entre um gole e outro, cochilou, mas acordou ainda de madrugada. Saiu dali e foi para dentro do prédio, onde, meio sóbrio, meio ébrio, adormeceu de vez.

 

Chovia. O céu desaguava na terra, correntes molhadas castigavam o mundo, folhas eram derrubadas das árvores pelo granizo que se espatifava sobre o piso árduo e sobre o telhado, onde um jovem desvairado, sem roupa alguma, corria pelado, de braços abertos, gritando feliz, urrando realizado.

Ramon gostava de intensos temporais – aproveitava-os melhor do que a maioria dos mortais. Sempre subia, nu, e oferecia seu corpo à natureza, cru. Masturbava-se sob a imperiosa tempestade – aprendera direito o ato observando um dos tristes visitantes do local.

Ramon gostava de água, de terra, de vento e de fogo; era um ser elemental, um espírito natural, reconhecia em cada parte do quarteto um poder descomunal diante do qual se curvava, sentimental. Várias vezes queimou coisas somente para ver o fogo destruir. Certa vez, atirou nas chamas um filhote de gato que havia de algum modo se distanciado da genitora, e pregou-se na consequência com séria atenção, em estado de meditação. O esganiçado miado foi curto, desesperado, rasgado, e a carne encarquilhou-se num naco carbonizado.

Usando um grande balde cheio de água da chuva, o rapaz também teceu outra estranha experiência: jogou dentro um pássaro de asas quebradas e presenciou toda a sua longa agonia até a morte.

Ele também cavava para enterrar o que estivesse à mão. Apreciava bastante o cheiro da terra e seu toque úmido ou seco. Se a noite ou a manhã era de ventania, lá ia o jovem correr em alegria.

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