A Fábrica – Parte três

Ramon guardava muitas de suas coisas em uma salinha no porão, lugar praticamente secreto, um dos antigos almoxarifados.  Ele entrava por um escondido alçapão, e entre os pertences tinha velhos baldes, uma enxada, garrafas vazias, livros sem capa, panelas amassadas, pedaços de madeira, roupas queimadas e quinquilharias diversas. Ele estava seguindo para seu recanto quando ouviu vozes infantis vindas do pátio. Animou-se, fazia tempo que as crianças não apareciam. Bem escondido, como sempre, observou os dois infantes, um menino e uma menina.

Deviam ter entre seis e oito anos. A garota subia uma das escadas externas e o rapazinho, com um graveto, cutucava os degraus, derrubava pedrinhas e sujeira.

O diálogo prosseguiu deste modo:

– Então, então… quando você vai poder ir? – o menino questionou, esperançoso.

– Meu papai não deixa, só se sua mamãe estiver perto.

– Você viu como choveu ontem? – o garotinho mudou de assunto. A menina continuava subindo e descendo os degraus, aos pulos, brincando.

– Vi, sim. Deu medo.

– Eu pensei que dessa vez ia apagar o sol.

– O sol não se apaga assim, a gente tem que usar mangueiras. – Afirmou a garota. Explicava o elementar.

– Mas a água da mangueira não chega lá!

– Tem que ser uma mangueira bem grande. Já viu aquelas que apagam fogo?

– Dos bombardeiros?

– Isso. Tem que ser com essa. Vou pular, me segura! – a menina saltou em cima do garoto, que largou o graveto para pegá-la, e caíram os dois no chão.

– Não faz isso! – reclamou ele, enquanto ela ria sem parar.

Depois de um tempo, ambos deitaram na terra e contemplaram o céu.

– Às vezes tem nuvem lá em casa. – Começou a menina.

– Como?

– Meu papai faz ela aparecer da panela.

– Que legal!

– É da hora. – Ela parou, pensativa, para acrescentar: – Toda vez que isso acontece a gente pede almoço fora.

– Vou pedir pra minha mãe fazer nuvem também.

– É muito louco.

– Olha, aquela é um hamster! – o menininho apontou para cima.

– E tá correndo na rodinha!

– Eu queria um hamster. A Patrícia tem um.

– Eu queria um gatinho.

– Aí o seu gatinho ia comer meu hamster! Se você tiver um gatinho e eu tiver um hamster, não vamos mais ser amigos! – falou, resoluto, o menino.

– Não seja tontinho, meu gatinho vai ser bem alimentado.

– Vou ensinar meu hamster a lutar.

– Não dá pra ensinar um hamster a lutar.

– Como você sabe?

– Os bracinhos e perninhas são muito curtos.

– O meu vai dar cabeçadas.

As crianças ficaram em silêncio, pareciam pensar profundamente, sisudas e imóveis. Ocasionalmente, um deles batia em alguma parte do corpo para afastar alguma formiga aventureira. Por fim, decidiram partir, e Ramon restou sozinho novamente, a refletir, sorridente.

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