A Fábrica – Parte quatro

O sol matinal emprestou cor ao ferroviário ferro falho, fez a ferrugem ficar em foco, fina. Fascinantes e faustos favos feneciam, ferruginosos. Ramon recebeu os radiantes raios resplandecentes rindo, recitando revoltados repentes repentinos.

Depois, passou a tarde sentado à beira do rio, como um efebo mandrião de interiores, a jogar pedrinhas no curso aquático. Comeu o pão furtado – ele gostava de ir até a cidade, onde passava por inofensivo mendigo quando visto, e com suas mãos hábeis de ladrão prodígio, subtraía o que precisava e evaporava.

Uma coisa da qual o curioso personagem tinha horror era ser pego. De instintos aguçados, jamais se metera em semelhante problema. Não corria riscos a menos que estivesse certo de seu prevalecimento; sempre a postos, sempre atento. Ao menor rumorejar estranho, se escondia.

Quando chegou ao seu lar às primeiras horas da lua cheia, que em tudo deitava etérea luz, e enveredou por um corredor do segundo andar, não o das vespas, pois esse tentava sempre evitar, ouviu o eco lânguido de sussurros e murmúrios. Reconheceu de pronto a procedência; era de um homem gordo, suarento, de óculos grossos, espessos bigodes, elevada estatura; um fracassado sem cura.

O pobre homem estava numa antiga sala de reuniões, e comprimia o celular contra o canal auricular, sem conseguir distinguíveis sentenças articular:

– Mas… não pode… meu Deus, como posso dizer… – Pausa, o outro lado falava. Seu paletó pendia de uma janela. A gravata repousava frouxa, e enquanto escutava, impaciente e angustiado, passava as mãos no rosto suado.

– Eu sou um homem de sucesso! – irrompeu. Pausa, o outro lado falava. Não. Não falava mais.

O homem olhou desconcertado para a tela do aparelho, suas faces pegajosas refletiam o brilho tecnológico numa cena quase anacrônica. Ele tentou completar a ligação novamente, mas não houve quem atendesse. Pôs no bolso o telefone, na boca um cigarro, e o fraco lustro ígneo imiscuiu-se ao fantasmagórico lugar, como uma mão tímida que alça dedos incertos.

Fumou pensativo, às vezes parado segurando a cintura, às vezes andando sentindo tontura. Olhava demasiadamente a janela, avaliava a altura. Foi-se um maço inteiro antes do paletó ser removido do parapeito e acoplado ao gordo corpo, mas ele não saiu. Dormiria ali? Ele já dormira ali antes. Com raiva súbita, pisoteou as próprias solas e chutou as paredes. Olhou para a maleta que trazia, envolta pela penumbra, com distração, como se só naquele instante tivesse notado sua presença. À visão, pareceu se recompor; fungou, apanhou-a, e a passos decididos se encaminhou para a saída da sala. Ramon, que entrara e se alojara ao canto mais escuro, não foi visto.

O jovem acorreu às janelas e viu quando o fracassado atravessou o pátio olhando para as imponentes chaminés.

 

A fábrica teve seus suicídios. Mais de uma pessoa já havia se jogado do telhado sobre o chão de concreto. Houve até um caso em que a morte veio da chaminé central, dezenas de ossos quebrados num horrendo espetáculo brutal. O que seria a morte, afinal, se não algo banal?

 

Os mendigos retornaram mais de duas semanas após o incidente da pinga desaparecida, montaram sua fogueira noturna e ali ficaram a dialogar sobre a existência, mantendo as garrafas seguras firmes entre os dedos calejados pela difícil vida:

– Hoje tinha turista lá, consegui dinheiro bom. – Falou o pedinte chamado Micael, aspirante a lixeiro.

– Então pague o que me deve. – Pediu Wesley.

– Oxe, te devo nada não. – Retraiu-se.

– Deve, salvei tu, lembra não? Tu ia atravessando a pista sem se ligar no caminhão, te puxei.

– Porra, tais cobrando isso? – questionou Pedro.

– E né não?

– Eu te salvo também, mas dinheiro não dou, não! – afirmou Micael, resoluto. – Quero pegar mulher.

– Puta sofre, hein? – disse Lúcio, após uma rápida risada rasgada, na qual foi acompanhado por outros.

– Eu sou bonito. – Ressentiu-se Micael, passando as costas da mão esquerda na barba suja.

– Tu é fedido. – Mais risadas seguiram-se à provocação de Wesley. – E ainda quer ser lixeiro!

Antes de prosseguir com a conversa, uma sucinta descrição do grupo de mendigos: Micael era macérrimo, barbudo, fétido, mas carregava, afinal, feições harmoniosas; Wesley exibia traços porcinos e barrigona, enquanto Lúcio ostentava certo ar de decadente nobreza, era louro, tinha olhos azuis, largos ombros, distinto porte; Pedro, talvez o mais simplório, nada tinha de marcante, exceto as marcas fundas na testa eternamente franzida. Sua barba não se decidia para que lado crescer. Zé era o menorzinho, não ultrapassava um e sessenta, permanecia calado a maior parte do tempo; Murilo, por fim, era visivelmente o mais higiênico do sexteto, e ainda que a imundície das ruas impregnasse suas roupas abatidas, ele fazia o possível para deixá-la longe do seu corpo – era o único dos presentes que gastava o pouco que conseguia com inutilidades como barbeiro e calçados.

Ao notar o semblante contemplativo do colega, Pedro ouriçou-se:

– Que é que tu tens, Murilo?

– Tenho nada. Tenho porra nenhuma. – Respondeu, plácido. – Igual vocês.

O riso e zoeira foram gerais. Wesley, emborcando o gargalo, grunhiu grotescamente:

– Quem tinha coisa era Lúcio.

– Vou ter de novo, reconquistarei tudo o que perdi.

– Aí esquece de nós. – Ressaltou Micael.

– Podem ter certeza.

– Eu não vou esquecer de ninguém, não. – Lembrou Murilo. Zé revolveu a ele o olhar, atencioso. – Vou subir e todo mundo sobe comigo!

– Tá animado com o trabalho, hein? – inquiriu Wesley.

– Deixo o uniforme no serviço, posso até tomar banho lá, e daqui a vinte dias recebo o primeiro dinheiro! – o homem falava animado, a vida enchia seus olhos cansados. – Vou deixar de ser vagabundo.

Os amigos não acolheram bem a expressão, e posto contra a parede, ele emendou:

– Mas é, pô! Quem mais aqui tá se esforçando?! Eu até entendo, entendo mesmo, por isso vou fazer tudo ser diferente!

– Eu quero ser lixeiro. – Sonhou Micael.

– Puta sofre, hein? – repetiu Lúcio. Em meio aos risos, Micael disparou:

– Tu fede tamém, tu fede tamém!

– Meu caro, se eu fedo, você exala putrefação.

– Oi? Tá me chamando de quê? Tá me chamando de putão?

A breve imitação de escaramuça acalmou-se passados uns tapas e socos leves desferidos quase a esmo. Murilo foi o primeiro a levantar, tinha trabalho na manhã seguinte; despediu-se dos amigos e partiu. Os cinco restantes ainda restaram por longo tempo.

– Acham que ele consegue? – perguntou Lúcio, minutos após a partida do outro. – Ficar e subir no emprego?

– Consegue nada. – Disse Wesley. – Me dê dinheiro. – Falou, virando-se para Micael.

– Para de encher!

– Vai, pra eu comprar marvada!

– Eu vou-me embora.

 

A árvore que Ramon gostava crescia torta à beira do rio naturalmente manso. A camada de cascas no tronco marrom claro exprimia sua velhice em sulcos fundos. À distância, pareciam fronteiras de países erigidos sobre raízes, mundo imaginário. De perto, frágeis cicatrizes, mutante relicário. Cada pedaço cobria-se de rugas cansadas. As folhas iam e vinham na dança das cores, bailavam ao ar, uma a uma, dez a dez, se acomodavam suavemente ao pousar; ocráceos presentes. Os galhos desdobravam-se desordenados, desabrochavam em diversas direções, designavam-se diferentes destinos. Eram finos e torcidos em volta, rotundos na base.

Mas as garras na terra eram temíveis. Estendiam-se por demasiado comprimento, serpentes de madeira sustentando o firmamento. A grandeza da árvore estava no solo.

Outros já haviam dormido sob o frio aconchego dos recurvados tentáculos parcialmente enterrados, dormiram ouvindo o som comedido das águas do rio, embalados pelos onipresentes pios.

A mata só se tornava densa e fechada mais ao fundo; para bem além da água, trancava suas portas ao mundo. Mas onde era aberta o vento corria livre.

Quando ficava excessivamente extenuado por alguma razão, aquele chamado de fantasma se aninhava no aconchego terrento à sombra da monstruosa torre ribeirinha e dormia… dormia. Quando acontecia de ficar acordado, punha-se sentado, parado, mera extensão da vegetação.

E vegetava.

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