A Fábrica – Parte cinco

Homens envergando ternos de fino corte seguiam um jovem de cheios cabelos enegrecidos, até o ombro crescidos, vestido por calças cinzas, sapatos negros, camisa branca, longa manga. Rosto sem gracejos. Ramon nunca os havia visto por ali, nem pela cidade. Esgueirou-se sorrateiro, a seu modo, e recebeu as novidades.

O mais novo da alcatéia ostentava um sorriso nervoso, mas batalhava para soar convincente:

– É, como eu disse, um terreno formidável, senhores. – Um velho de alvos bigodes, óculos e sobretudo nublado, dardejou:

– É no meio do nada.

– Façam esse nada virar alguma coisa! O terreno tem o seu valor, senhor Rezende. A mata adjacente é nossa, a velha ferrovia é nossa, espaço não vai faltar. É só estalar o dedo e mando demolir este lugar.

– O tempo já passou, senhor Aquino. Vocês deveriam ter se livrado disso antes. – Falou outro homem, terno azul-marinho, redondas bochechas, duas entradas na parte superior da testa.

– Não estava nas minhas mãos antes, meu finado pai se recusava peremptoriamente a vendê-la, a fábrica está com a família há quase século. – Ele ia ser interrompido, interpôs-se: – Mas agora está nas minhas mãos, e os senhores se encontram diante de uma imperdível oportunidade.

– Eu sinto muito, senhor Aquino, mas não vejo um estacionamento aqui. – Manifestou-se um terceiro.

– E o seu shopping, senhor Rezende? – tentou o jovem. O magnata de penteados fios grisalhos comprimiu os lábios.

– Não sei, senhor Aquino. Quando não tenho certeza, não faço negócio.

– Tá, OK, mas algum dos senhores arrisca? Vamos, não chegaram onde estão sem arriscar.

– Exato, senhor Aquino. – Começou o sujeito de terno cor de mar profundo – Mas chegamos, e aqui estamos.

– Tem de ter algo mais, jovem. – Completou o senhor Rezende.

– Imaginem o que podem fazer com tanto espaço! – insistiu.

– A fábrica nem pode ser aproveitada. – Um quarto homem, semelhante a um planeta, redargüiu.

– Melhor sorte da próxima vez, senhor Aquino. – Encerrou Rezende, apertando os olhos para ver o cimo das chaminés.

– Obrigado pela atenção, senhores. – Respondeu, desanimado, fazendo com ambos os braços um gesto de impotência à meia altura.

O grupo partiu falando de negócios e coisas das quais Ramon nada compreendia. Aquino foi o último a deixar o local, lançando a tudo um olhar amargurado. Não havia se rendido, afinal:

– Vocês nem viram a ferrovia, não querem ver?! – chamou.

– Hoje não, senhor Aquino. – Retrucou o obeso, cambaleando ao próprio peso.

 

A antiga estação, mirrada, porém não menos abandonada, exibia tapetes folheados que revolucionavam ao soprar de uma corrente. O aspecto geral era dormente. Concreto e natureza sem vida. Alguns bichos tinham, de fato, suas querelas ali dentro, mas era mais freqüente que as tivessem ao relento. À frente da estação, desmanchando-se nos trilhos, dois vagões aguardavam a partida que nunca sairia. Nada restava da tintura original; os bancos, descarnados, estavam detonados por igual, vítimas de fúria, de ataque animal. Os ferros aparentes, corroídos. Tetos furados, olhos fendidos no metal. O incomum residente da fábrica os usava como abrigo, ocasionalmente. Morou lá, a princípio, quando, após mais de década, retornara ao lugar que o havia enchido de encantos.

Ramon não se sentira seguro de início, na fábrica. Quanto mais explorou, contudo, mais pacificado ficou. Escolheu os pontos mais discretos, segundo julgou, e enfim, descansou.

A fábrica era grande e possuía seus segredos.

Ramon os guardava, e ela guardava os seus.

 

Na noite seguinte foi a vez dos jovens de roupas estranhas aparecerem. Quatro: Thauana, Micaela, Robson e Ricardo. Ramon gostava de observá-los, às vezes algo acontecia entre eles, especialmente entre os rapazes e Micaela. Eram metaleiros underground, e na maioria das ocasiões vestiam-se como tais. Perambulavam pelo antigo salão de montagem, displicentes, falando sobre sessões de jogos interpretativos, shows assistidos e vidas alheias.

Thauana, alta, de pele parda, rosto anguloso e escorridos cabelos noturnos, se interessava mais por falar de ocultismo ou poesia sepulcral, como chamava os versos destinados a exaltar a morte e a transitoriedade da vida. Ou de Ibsen. Idolatrava o dramaturgo norueguês. Os outros a escutavam com um misto de paciência e admiração. Ricardo sempre parecia ter uma opinião sobre tudo, mesmo sobre as coisas das quais ele nunca ouvira falar; Thauana o achava simplista. Robson tinha uma loja especializada em vestes góticas, e o espectro da fábrica já o tinha visto tirar as medidas de Micaela, quase nua, ali mesmo. Micaela, loira, usava trajes provocantes e sempre procurava ter algo sábio a dizer. Gostava de fazer poses, que muitas vezes não ficavam naturais, para se destacar.

Ramon interessava-se especialmente pela loira. Freqüentemente ela sentava, de minissaia plissada ou microvestido, com as solas dos pés no chão e os joelhos elevados, ou de maneiras semelhantes, sem se importar em exibir suas diferentes calcinhas provocantes. Ele já a vira, também, em momentos íntimos com os dois rapazes, e desde então ansiava por mais momentos daqueles. Ansiava também por uma oportunidade de pôr as mãos na moça.

Naquela noite, porém, nada demais aconteceu. Conversaram, beberam, fumaram, escutaram música. Ricardo, magricelo, de mãos ossudas e nariz exageradamente proeminente, pôs atrás da orelha uma mecha dos fios castanhos embaraçados que lhe coroavam a cabeça, e analisando a decadência das paredes sem reboco e o terreno da fábrica que se via além das janelas sem vidraça, falou:

– Aqui é um bom lugar para um clipe.

Die Mordechai vai fazer clipe, já? – questionou Robson.

– Já temos alguma grana, fizemos shows, temos mais shows pra fazer… – revelou o outro, falando como se discorresse sobre corriqueiras coisas.

– Posso estar no clipe? – perguntou Micaela, insinuando-se.

– Vai depender do seu desempenho. – Sorriu com safadeza.

– Vocês, hein! Só pensam em putaria? – indagou Thauana, que lia alguma coisa de São Cipriano.

– Só. – Foi o uníssono do trio. A moça formou um discreto sorriso e voltou à leitura.

– Mas então, cara, o cenário é perfeito para um vídeo. – Continuou Ricardo.

– Podíamos jogar RPG aqui com mais freqüência também. As interpretações poderiam ser mais realistas. – Complementou Robson.

– Mais desculpas para me comer… seus safados. – O sorriso dado, entretanto, mostrou que a idéia a agradava.

– Esperta, a menina. – Brincou o vocalista da Die Mordechai

– Se for pra putaria, não me chamem. – Pediu Thauana.

– Você é aquela esposa de Odin, a chata. – Observou Ricardo.

– Vai dar a bunda e me deixa ler. – Ricardo olhou para Robson, sensual.

– Te foder, cacete!

A risada de todos foi forte e breve.

 

A fábrica amanheceu enevoada. Quem de longe a contemplasse teria a impressão de que as nuvens haviam descido e passeavam unidas rente à terra, como um indivisível espectral tecido cujos tentáculos vindos do umbral se alastravam por corredores e salas, ofuscando a vista de qualquer animal.

Um canino determinado não precisa tanto do dom da visão, e este, em especial, corria loucamente atrás de uma lebre, as patas atropelavam-se numa carreira desorganizada, latidos desconexos ecoavam, transfigurados em sombrias risadas. O pequeno mamífero perseguido tentou buscar refúgio no alto mato, mas não adiantou, o inimigo permanecia em seu encalço. Tentou então buscar amparo dentro da construção, subiu escadas, atravessou espaços cobertos. O cão seguiu, tropeçou, não se intimidou, abriu caminho pela espessa névoa sobre a relva e deu continuidade à caça.

Em desesperado ímpeto, a lebre encurralou-se dentro de uma sala no primeiro andar. Ali, o manto branco dissolvia-se, ficando mais como um alvo gramado fantasmagórico. O cachorro, sedento por sangue, violento, entrou latindo, furioso, e sua potencial vítima deu a volta no lugar com fôlego renovado, olhos esbugalhados. O canino usou da inteligência predatória e se antecipou pelo lado contrário, fechando o cerco, ao que a lebre, agoniada, derrapou tentando jogar o corpinho ofegante para o canto oposto.

Foi então que aconteceu: os dentes úmidos de saliva precipitaram-se, envolveram o dorso peludo do pequeno animal que se debateu incrivelmente, a guinchar, a boca dentuça escancarada num mortal esgar, patas a patearem o ar. O cachorro segurou sua presa com mais firmeza, cravou-lhe novas dentadas. Os guinchos de dor cresceram para depois cessar. O sangue pintava o focinho do agressor e formava uma poça rubra no chão.

 

Ramon apreciava quando a manhã se cobria de branco de forma tão veemente. Deitava-se, deixava a névoa envolvê-lo completamente, permitia que a seus olhos fossem apresentadas imagens confusas, fantasmáticas. Ele ria, imóvel, imaginando, lembrando, pensando. O jovem não gostava de recordar o passado longínquo, tempos nos quais ele ainda possuía família, amor, certo carinho.

Não fora tragédia que o apartara do mundo civilizado. Todos, provavelmente, estavam vivos e bem. Para Ramon, uma missa, que descansasse em paz no além.

Distraído, muitos diriam destruído, ele gostava de espalhar o lençol branco de nuvens, dissipando-o momentaneamente, só para vê-lo inteirar-se novamente. Conforme o dia avançava, mais fraca se tornava a neblina, e após a graça da brincadeira ter se esvaído, Ramon perambulou pelo pátio da fábrica, por vezes sob as sombras impávidas das três rainhas, massageando a barriga esfaimada.

Sentou-se numa área de grama particularmente vicejante que teimava em crescer entre o cimento e ouviu sons de grilo. Sempre se divertia tentando localizar os bichos, freqüentemente levava mais de meia hora, como agora. Encostava o ouvido no solo, analisava cada tufo de vegetação com olhos e mãos, emitia ruídos baixos, trêmulos, em expectativa. Várias vezes insistia em observar o mesmíssimo ponto por longos minutos, esperando que dali brotasse o alvo num desastrado bater de asas ou num salto desafiador.

Com o peito no chão, uma perna esticada, outra não, os braços meio estendidos adiante da cabeça de embaraçadas mechas, os cotovelos pronunciando-se em angulosa envergadura, Ramon observava a grama sem piscar.

Sombras de nuvens passaram por suas costas estiradas. Ele havia esquecido o mundo, apenas o grilo interessava.

Por fim, visualizou o inseto quase que exatamente onde já procurava, perfeitamente camuflado, a esfregar as patas. A mão do rapaz desceu em concha sobre seu alvo, escurecendo repentinamente o universo do grilo. Ramon voltou a sentar e manejou a captura com cautela, como fazia com todo inseto que caísse em sua tutela. Segurou o pequeno animal entre polegar e indicador, indiferente às vigorosas batidas.

Pôs na boca e mastigou.

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