A Fábrica – Parte seis

Havia um promontório nas imediações, largo monte, perto do rio, calombo no mundo ornado com árvores e arbustos.

Lá o menino fora brincar sozinho uma vez com seus bonecos. Mostrou a pedregosa paisagem à sua amiga, dias mais tarde, mas ela não se sentiu bem no local.

Ramon, por vezes, percorria o curso rente à rocha, avaliando-lhe a superfície crespa com as pontas dos dedos lépidos. Experimentava com prazer as sensações oferecidas, períodos de lazer entre horas esquecidas. Elaborou suas próprias histórias nas primeiras idas, pessoas imaginárias na montanha endurecida; todavia, deixou para trás o hábito, consigo mesmo entrou em acordo tácito.

Não mais brincou.

Só deslizava os dedos, acompanhando o intrigante rochedo; interagia com o penedo enquanto refletia sobre seus medos.

A fábrica não tinha medos, pânicos ou pavores, já vivera muito e vira cedo satânicos horrores. Ramon, entretanto, os tinha, e com eles lidava como melhor lhe convinha.

Ora os encarava, ora fugia.

À fábrica, nada dizia.

 

Muitos anos atrás, às portas do refeitório organizado, lotado, ocorreu esse diálogo travado entre dois operários uniformizados:

– Simão, Simão, preciso de um favor teu, meu irmão. – Quem falava era um homem magro, mas de musculatura aparente, rosto cansado, marcado pelas agruras da vida, que se mostravam em linhas de expressão e nos pontos prematuramente grisalhos do curto cabelo preto.

– Não, cara, não… – respondeu Simão, filho de angolanos, parrudo, baixo, reagindo com desconfiança à súbita aproximação.

– Cê vai negar favor a mim, cara? A mim? – o outro postou-se bem à frente do angolano, pôs uma das mãos em seu ombro. – Cê sabe que de mim cê não pode negar favor, cê sabe. – Complementou, fazendo seu rosto chegar bem próximo ao do colega. Simão não gostava daquelas conversas quase coladas, sussurradas, que seu interlocutor tinha mania de encetar com qualquer um quando o assunto era minimamente mais sério.

– Cara, teus favores acabam em furada. Eu preciso do emprego. – Redargüiu, meio sem graça, o angolano, com sua voz excessivamente grave.

– Cê não confia em mim não, cara? Devia confiar, meu irmão… – Os olhos faiscaram, os lábios de ambos por pouco não se tocaram, e o hálito impregnado de fumo do colega invadiu as narinas avantajadas do africano. Quem entrava ou saía do refeitório preferia não interferir. – Tenho que te lembrar porque sou de confiança, cara?

– Velho, tu sabe que o que tu pede acaba mal pra quem faz. – Mas Simão já parecia menos seguro, ainda mais desconfortável. – Eu tô pra ser promovido, cara. Não me mete nessa, não.

– Te meter em quê, irmão? Relaxa e ouve aí, a coisa é simples, só quero que tu guarde uma caixa pra mim.

Simão encarou o colega com maior desconfiança:

– Que caixa, Severino? O que vai ter na caixa? Meu irmão, hoje não, pede ao Rafael, ao Tiago, ao Pedro, à Carmem, pra mim não, cara.

– Tu acha que eu posso confiar em mais alguém, meu irmão? – ele envolveu Simão em um abraço lateral. – A gente tem história, cara, só confio coisa assim pra tu cuidar. Jantei na tua casa ontem, ou não foi?

– Foi. – relutou Simão.

– E me diz, tu acha que eu ia fazer alguma coisa que fosse acabar mal praquela tua linda família?

– Eu não sei, cara… O que tem na caixa? É droga?

– Não é droga não, sossega, parceiro! – sorriu, os dentes mal escovados apareceram em plenitude.

– E o que é? Não posso concordar se não souber o que tem na caixa.

– Mas nem eu sei, cara!

– Como é isso, então?

–  Quem vai me passar a caixa é um parceiro, cara que eu gosto, que confio, ele precisa que eu quebre essa pra ele, mas pra ficar mais seguro é bom que ela fique um tempo com quem ele não conhece, entende?

– Mas que porra tem na caixa? Não quero não, Biu, quero não. – E ia saindo, mas Severino, encostou a palma aberta no tórax do angolano e o empurrou contra a parede; começou a sussurrar no seu ouvido:

– O que tu não quer, africano, é que tua mulher saiba da Carmem. É isso que tu não quer… ou não é?

A respiração de Simão encheu-se de tensão. Severino continuou:

– Quando acabar o expediente, amanhã, por trás da estação. Apareça, meu irmão.

 

Simão não viu escolha e apareceu. Trabalhara nervoso o dia inteiro, ninguém nada havia perguntado, pois o estranho encontro do dia anterior, na porta do refeitório, espalhara-se por todas as linhas e era consenso que se meter com Biu e outros de sua laia não podia ser vantajoso.

O fim da tarde recepcionou os dois, que acabaram por se encontrar por trás de um vagão abandonado. Severino carregava uma caixa de metal lacrada a cadeado:

– O que tem aí? – perguntou Simão.

– Já falei que não sei, meu irmão.

– Como que tu aceita um negócio sem saber das coisas, cara?

– Igualzinho tu vai fazer. Aí tu responde pra tu mesmo. – Estendeu o item para o colega, acrescentando: – Nem tente abrir, meu irmão. Nem tente abrir.

– Nem quero. – desabafou, irritado, pegando o que lhe era oferecido e enfurnando dentro da mochila. – Quando te devolvo?

– Quando a poeira abaixar.

– O quê?

– Tô só te assustando, irmão, irmãozinho. Agora que tal a gente ir pra sua casa e comer a janta gostosa da sua esposa?

– Ela não tá esperando que eu leve visita…

– Sempre cabe mais um, irmão.

Simão não respondeu imediatamente. Hesitou, tentou persuadir Severino a fazer outra coisa, mas não deu certo.

 

Nos dias seguintes, não viu o companheiro de labuta. Preocupado e tenso, seu rendimento começou a despencar e pela primeira vez viu a promoção ameaçada. Seis expedientes após ter aceitado prestar o favor àquele crápula veio a notícia de que Severino havia sido preso, suspeito de homicídio doloso, mas a arma do crime não se encontrava com ele, nem em parte alguma; provavelmente, em breve o homem estaria solto e seu salário receberia um impiedoso desconto, dificilmente seria demitido. A fábrica não demitia.

Simão compreendeu tudo, e no dia seguinte, à noite, voltou aos arredores de seu local de trabalho e jogou, no meio do mato, a caixa de metal que continha, agora ele sabia, um revólver.

 

Ramon havia encontrado aquele enferrujado receptáculo meses antes do início desta narrativa. O jovem segurou em êxtase o antigo calibre trinta e oito entre as mãos. Tinha uma vaga noção de como o artefato funcionava: seu pai, anos atrás, havia ensinado qualquer coisa ao filho, e Ramon constatou que havia ainda quatro balas no tambor. Guardou o inesperado presente depois de apertá-lo contra o peito, com ardor.

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