A Fábrica – Parte sete

O quarteto underground atravessou as dependências da fábrica à tarde, embrenhou-se na mata e foi para a alquebrada ferrovia. Tal qual felino em caça, Ramon os seguiu.

Em Micaela estava sua total concentração durante todo o percurso até a estação. Seus cabelos reluziam às costas, seu vestido preto, que terminava distante do meio das coxas e deixava que o início das nádegas aparecessem num simples caminhar, casava com as botas de cano baixo e finos cadarços, sem salto, e com a discreta gargantilha de veludo negro que portava como pingente um ankh de prata. Seus lábios estavam pintados de vermelho forte.

No pequeno lugarejo, que em outra década serviu para embarcar e desembarcar passageiros, eles espalharam folhas e acharam um local para se acomodar. Tão logo sentaram, começaram a conversar.

Ricardo, vocalista do Die Mordechai, mal reunia vontade o suficiente para parar de checar calcinha e curvas de Micaela, que sentara com um joelho perto do peito, enquanto a outra perna pendia da beirada da estação. Ramon analisou-lhe a virilha lisa, conseguiu discernir, pertíssimo da luxuosa e provocativa calcinha apenas um tom rubro acima do vinho que lhe marcava o voluptuoso sexo, resquícios de pelugem clara.

Robson estava mais recatado, e Thauana não se importava; ela tirou da encardida mochila um livro, e o oculto espreitador distinguiu-lhe o título: Os Sofrimentos do Jovem Werther. O estilista, que tentava não olhar tanto para as pernas carnudas e reentrâncias da amiga de vestido, ou para o que se delineava entre elas, falou, interessado, mexendo na cópia de Thauana delicadamente:

– Aqui tem a melhor cena de suicídio da literatura.

– Acha? – perguntou a dona do livro, sorrindo. Ricardo, de frente para os três, olhou.

– Acho.

– Qual é? – questionou Micaela, inclinando o corpo e erguendo-se centímetros. – Ah, Werther. Não acho. Para mim, a melhor cena de suicídio está em Crime e Castigo.

– Shakespeare tem umas boas, – Ricardo introduziu-se no assunto. – tem a do Otelo, a do Romeu…

– Acho legal a de O Vaqueano. – Comentou Thauana. “Quê?” e “quem?” foram ouvidos na sequência.

– Nacional, do Apolinário Porto Alegre, o suicídio do Avençal, que se estoura. Não é muito conhecido, mas acho legal.

– Tem aquele rei de Gondor em O Retorno do Rei, né? – inquiriu Ricardo.

– Aquilo foi suicídio? Não lembro direito. – Prosseguiu Robson.

– Ah, meio que foi. – Disse Ricardo.

– Tem suicídio também naquele Estudo em Vermelho, do Sherlock Holmes. – Falou Micaela, com o cenho franzido.

– De quem? – retrucou Thauana, intrigada.

– Aquela moça lá que foi forçada a se casar com o Mórmon. Aquilo é suicídio, não?

– É… eu consideraria, sim.

– Casar com Mórmon deve ser pior que suicídio. – Disparou Ricardo.

– Não, não, ela meio que desiste de viver, leia pra entender. – Explicou Micaela, e continuou: – Mas casar com religioso deve ser o fim. – Concordaram.

– Tem aquele documentário sobre suicídios naquela ponte de São Francisco. – Informou Robson, coçando o nariz.

– Nossa, quero muito ver aquilo! – entusiasmou-se Thauana.

– Dorian Gray também meio que se mata, né? – quis saber Ricardo, dirigindo a questão ao exposto volume frontal da amiga. – E o pequeno príncipe também. – Ele e Micaela flertaram por um instante.

– Nossa, mas um suicídio foda é o do Sidney, em Um Conto de duas Cidades, do Dickens. Eu chorei. – Animou-se a moça dos livros.

– Não li. – Disse Robson.

– Dickens é fantástico. Mas se quer ver suicídios dramáticos, leia Racine. – Acrescentou ela.

– Tem algum autor pra você que não seja fantástico? – zombou o músico.

– Um monte. – Devolveu, seca. – Uma pilha incontável.

– Ouvi dizer que de vez em quando tem suicídios lá na fábrica. – Segredou Micaela, sorrindo de excitação.

– Também sei desses boatos, – garantiu Robson, – o fantasma de lá, será que é de algum suicida?

– Vai saber. – Sussurrou a loira.

– Ah, sério que vocês acreditam que tem fantasma lá? Tão zoando, né? – riu Ricardo.

– Passa uma noite lá, corajoso. – Desafiou Thauana, olhando-o fúnebre por cima do livro.

– Tá doida. – Disse. Assim que as gozações começaram, complementou:

– Pode ter animais venenosos, ou sei lá o quê…

– Uhum. – Fez Robson.

– Lá é um bom lugar pra se matar. – Ponderou Ricardo, ignorando o amigo.

– Cara, lá é um bom lugar pra fazer qualquer tipo de merda.

– Tô pensando em rodar o clipe lá.

– Falei, qualquer tipo de merda. – Risadas. O vocalista adiantou-se e deu um tapa no topo do crânio do estilista.

– Gente, quero subir no trem. – Saltou de repente Micaela, observando as carcaças dos vagões.

– Tá tudo fodido dentro dos vagões. – Lembrou Robson.

– Não, eu quero subir no teto. Que outra chance teria na vida? – pulou, empolgada, para junto dos trilhos, e Ricardo a seguiu. A dupla restante apenas assistia.

– Me ajuda, Rico. – Disse, perto do compartimento.

– Com prazer. – Anunciou, auxiliando-a na escalada.

Ramon invejou a visão privilegiada do cantor, mas teria melhores. Arrastou-se, indetectável, e entrou no vagão enquanto Ricardo subia pelo exterior. O teto esburacado e fendido generosamente permitiu que ele visse o que queria.

Via os pilares sensuais de pele lisa se mexendo esporadicamente, virando, dando-lhe frente e verso. O bumbum de aspecto macio, enaltecido pelo cavadíssimo tecido, o excitou, e ele, no mesmo dia, o homenageou; mas seu momento de glória, o mais perto que chegara, e chegaria, de Micaela, foi quando ela se abaixou com as pernas juntas diretamente sobre uma reveladora abertura no teto. Seu sexo, guardado pela fina cor da calcinha, esteve bem perto da fissura, e o fantasma pálido, com desenvoltura, ávido, subiu o mais que pôde, usando reminiscências de assentos e estruturas, ignorando o diálogo dos adolescentes travado nas alturas. Delirou, pois sentiu seu perfume, e quase se denunciou quando a jovem sentou em cima da fenda, projetando abundância. Tão perto, nesgas convidativas de lábios surgiram; só cantos; mas neles, um tênue campo de trigo aparado, vicejava. Ramon inspirou, solene, e conteve a audácia, usando seu melhor julgamento com eficácia. Por muito pouco não empurrou para um lado a defesa da moça e provou-lhe da rica beleza.

Percebeu que Robson e Thauana ainda falavam de autores, e temendo não agüentar se conter, se retirou sem ser visto, pensando em como viciavam os odores das belas flores.

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