A Fábrica – Parte oito

Noite. Para Rangel, as noites que passava na fábrica eram as mais especiais de sua vida. O advogado gordo, bigodudo, que fumava maços completos diariamente, via no local um perfeito refúgio contra tudo o que o cercava. Ali, ele era rei. Ali, todo o terreno lhe pertencia. Ali, como indomável leão encarcerado, rugia.

Não se limitou a ficar dentro de uma sala. Andou por onde pôde, gritando comandos e elogios a si próprio, seguido por Ramon, a quem não via: as sombras acolhiam sua destreza. Quanto a Rangel, via-se como um altivo representante da mais pura nobreza.

No pátio, em cima de uma pedra chata, discursava:

– E é claro que não posso estar errado! Eu mando em vocês, vocês me obedecem! Dêem-me tudo! Quero ver a cor do dinheiro, quero ver a submissão, quero suas filhas e esposas, e vão me entregar sorrindo! Sou o mais poderoso! Ah, mas não temam, pois sou benevolente! Mulheres, tirem as roupas e dancem! Homens, ao trabalho! Quem manda aqui? – pôs a mão em concha ao lado da orelha. – Muito bem! Quem manda aqui?! – a fumaça saía espiralada de sua boca grande, e o cigarro permanecia entre os lábios por milagre. – Eu sou…? – e esperava a resposta. – Eu sou…? Vamos, servos inúteis! O que eu sou?! – uma expressão obscena de prazer derreteu o rosto gordo de frouxas peles. – Isso… é isso mesmo…

Nada mais proferiu. O celular tocou uma vez mas não foi atendido. Ele ficou inerte, de pé, contemplando o decadente cenário até se cansar. Suspirou, e cabisbaixo, mal-humorado, se retirou.

 

Ramon ainda sabia ler, e dos poemas que encontrava, avulsos, em folhas de caderno, árvores ou paredes do lugar, alguns chegava a decorar. Versos rabiscados, sem experiência ou pretensões literárias, mas não fazia diferença. Vinham de almas talvez esgotadas, perturbadas, tímidas, caladas.

Uma tarde, encontrou uma tentativa de Haicai escrita com giz na parede dos fundos do antigo refeitório:

 

 

Tudo vai sim

Uma manhã melhorar

Apenas viva

 

A mensagem foi apagada pelos metaleiros, que teceram algumas previsíveis zoeiras acerca do esperançoso poeta, mas o espectro da fábrica jamais havia esquecido o conteúdo dos versos. Ele mal parava para pensar que as pessoas viviam de maneira distinta da dele.

Um dos poetas que o rapaz queria observar mais detidamente era um que deixara um bloco de notas inteiro repleto de poemas, a maioria com riscos laboriosos por cima, os quais impediam qualquer tentativa de leitura. Uns porém, se salvaram, e a esses, Ramon lia em raros momentos. Eis um deles:

 

Palavras sem forma, sem vida e sem cor,

Etéreas e inertes, sem paz ou dor,

Roubam o rútilo do que seria uma poesia;

Versos vagos, vazios, vazando vida e sofrimento.

 

Será só comigo que ocorre

O fenômeno da frase que morre?

 

Meses atrás, o jovem havia encontrado um poema que bem poderia se aplicar à própria fábrica decrépita:

 

Aquela casa triste, só, abandonada,

Em apatia e melancolia esperava

O beijo da noiva noite, cansada.

 

Casa velha, suja, entregue às traças.

Traças mortas que nem mais lá moravam;

 

E chegam com a noite,

Lá na casa, no vazio,

Presenças estranhas que ninguém jamais viu.

 

 

Os universitários fizeram-se em casa sem cerimônia, formaram uma roda no centro do pátio sob o sol acolhedor. Um grupo grande de pessoas que tinham em comum os chinelos, bermudas e pêlos faciais por parte dos homens, e os cabelos curtos coloridos e visual desleixado por parte das mulheres, com uma ou outra exceção entre os sexos. Nunca era o mesmo pessoal que se reunia ali, muito embora um ou outro rosto fosse fixo.

Os assuntos gravitavam em torno de núcleos comuns: Capitalismo, Socialismo, meio ambiente, exploração, justiça social, liberação de drogas, liberação de aborto. Ramon freqüentemente se cansava das conversas deles, pois regadas a álcool e embaladas por ervas, pouco mais eram do que sequências de termos vagos despejados sobre a grama, mas gostava de vê-los; criaturas confusas e problemáticas que pareciam pensar que lutavam por um mundo melhor. De quando em vez, casais se afastavam e embrenhavam-se pelo mato. Nessas ocasiões, o jovem bisbilhoteiro os seguia a passos de gato.

 

Naquele dia, conversaram assim:

– Um idiotinha veio me sugerir Admirável Mundo Novo, dizendo que era isso que pregávamos. – Disse Marcelo, o líder deles, um dos rostos fixos nas reuniões, barba castanha clara fechada e grossa, óculos, duas eternas espinhas no meio da testa.

– Quem prega é pastor e padre. – Falou outro rapaz..

– Mas escuta aí, pô, o cara é burro pra caralho. – Fez um sinal com a grande mão espalmada, indicando que entrara em estado de falação ininterrupta. – Huxley viajou pra cacete ali, porra. – Arreganhou os dentes num sorriso de satisfação, passeava os olhos por todos os presentes, não se mantinha encarando a mesma face de modo insistente. – Porra, ele foi tentar imaginar um futuro muito distante e não estava pronto pra isso, pô, não tinha nem relógio com mostrador digital, não tinha guitarra, porra, não tinha computador! As informações eram guardadas em fichários gigantescos. Não tinha a mais leve menção de internet; nem CD, pô. Nem CD! E aquilo ainda por cima não tem nada a ver com a gente, não, alguém leu? O consumo lá no mundo novo é incentivado pra caralho, bando de consumistas capitalistas, todo mundo é alienado tipo ao extremo, pô, aquilo ali é um futuro capitalista. O cara vai querendo me dizer o que ler sem nem saber do que tá falando, o idiotinha lá. Huxley viajou, errou feio, não é digno de menção.

Afirmações de concordância e outros comentários irromperam da roda, a maioria zombando do idiotinha e de tipos como ele. Outras histórias de discussão online apareceram e Ramon então percebeu que nenhum casal copularia.

Quando o rumo que a conversa tomou foi sobre os professores da faculdade sendo taxados de geniais, com exceção de um velho reaça infeliz, o solitário residente da fábrica, enfim, partiu.

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