A Fábrica – Parte dez

Os mendigos chegaram cantando em conjunto, felizes. Montaram seu lugar habitual. O motivo da alegria:

– Na firmeza, Murilo! – soluçou Micael. – Quando eu for lixeiro, te pago. – Ergueu a garrafa nova em homenagem ao companheiro, gesto imitado por todos.

– Tu não vai ser nada. – Gargalhou Wesley. – Ter um da gente trabalhando já é sorte demais.

– Que é isso, Wesley, todo o mundo aqui vai sair dessa, eu vou ajudar. – Garantiu Murilo.

– Agradeço muito, viu, Murilo? – disse Pedro, seguido por uma breve sucessão de “eu também”.

– Agora o mané aqui tá ajudando os gari. – Falou Wesley, após um generoso gole, indicando o aspirante a lixeiro.

– Tô fazendo média, ué. – Justificou-se.

– É por aí mesmo, faz bem. – Admirou-se Lúcio.

– E tu acha que os gari vão poder te ajudar? – insistiu Wesley.

– Ah, eles podem acabar falando de mim na empresa, né não? Quero andar no caminhão. – Sorriu, sonhador.

– É só a gente se esforçar que dá tudo certo. – Concluiu o trabalhador.

– E as coisas tão indo bem lá no mercado? – questionou Pedro.

– Tá tudo bem. Quero juntar dinheiro pra sair das ruas.

– Já tá ficando metido. – Soltou Wesley, em tom ressentido.

– Deixa de ser invejoso, Wesley. – Mandou Zé.

– Continua sem falar, mano. – Devolveu o outro, apontando o indicador para o peito do amigo.

Um silêncio desagradável instalou-se em volta da fogueira, mas não passaram muitos minutos até que o papo retornasse. Iniciaram a habitual conversa sobre amenidades diversas e o duro cotidiano que suportavam. Havia algo diferente no semblante de Murilo, no entanto, um brilho no seu contemplar, leveza no falar, como se soubesse com total certeza que, em breve, sua miséria acabaria. Micael, pelo visto, seria o próximo deles a se aprumar. Durante a noite, pouco falou, praticamente só sorriu, bebeu, escutou.

Ramon esperou pacientemente até que algum deles depositasse a bebida no chão, nunca havia visto aquelas garrafas, morria de curiosidade, mas ninguém do grupo vacilou. Amuado, ele mais cedo se retirou. Na escuridão, acalentou uma idéia que lhe parecia divertida. Entraria em guerra com as vespas do segundo andar, e a disputa seria resolvida em única batalha. Havia quase um ano que elas barravam uma das salas do lugar.

 

A empreitada contra os insetos foi orquestrada sem o devido cuidado. Os ninhos, imperturbáveis, soberanos e sem rivais, prosseguiam suas intensas atividades matinais quando o rapaz chegou com um cabo de rodo e determinação no olhar.

Logo Ramon corria desembalado na direção oposta.

Deu-se da seguinte maneira: Ramon, com decididos golpes, varreu as moradas; porém, mal vira o resultado de sua investida, os insetos, em fúria ressentida, zuniram em sua direção; queriam vingança pelas casas partidas. O jovem correu como nunca, desceu aos pulos as escadas, a galope cruzou o pátio, passou as férreas estradas, jogou-se no rio, ágil, imergiu completamente; a pele ardia com a dor de picadas recentes.

Por horas na água ficou, até que a multidão de ferozes perseguidores, com relutância, dispersou.

Dois dias depois daquela doída empreitada, deu-se a aparição de Caldeirão e Silvinho, dois traficantes da região. A fábrica sempre servira satisfatoriamente como esconderijo de mercadoria; depositavam, abaixo de pedras ou entre vegetação, maconha, cocaína e crack. As drogas ficavam ali às vezes por dias. Ramon os assistia em tom desafiador. Jamais conseguia ver onde os pacotes eram escondidos. Quando acorria até eles, era tarde demais. Finalmente, contudo, viu.

Os produtos foram despejados numa vala cavada nos arredores do antigo refeitório. Silvinho fazia o trabalho pesado, com uma pá pontilhada por ferrugem, enquanto Caldeirão, Glock na mão, examinava o entorno, impaciente e de testa franzida. Assoou o nariz segurando-o entre os dedos livres, deixou o ranho pingar grotesco no solo.

Falou:

– Anda logo com isso aí, Silvinho.

– Tá indo, chefia.

Ao lado do cavador, uma mala esperava. Caldeirão checou o celular. Pôs a pistola no bolso e começou a bater com os polegares na tela do aparelho, sem paciência. Terminado, empunhou de novo a arma.

– Vai logo, Silvinho.

– Tá indo, chefia.

Silvinho saiu do buraco, colocou a pá num canto e atirou para dentro do vão a mala, iniciando, na sequência, a tarefa de encobri-la com terra.

– Não vacila, não.

– Tá tranqüilo, chefia. Relaxe aí.

Caldeirão precipitou-se e tascou um seguro tapa na cara do parceiro, que caiu na vala. Apontando para ele a Glock, sacudida por espasmos violentos, bradou:

– Não me manda relaxar! Eu tô relaxado, cê tá entendendo?! Tu tá enrolando aí, faz teu trabalho direito e de bico fechado, tá entendendo?! Não me manda relaxar!

– Tá sossegado, chefia, tá sussa…

– Eu tô relaxado!

– Tá sim, tá sim!

Caldeirão se afastou e olhou para o grande prédio da fábrica, examinou cada janela, cada vão. Virou-se ao ouvir seu subordinado murmurar que o serviço estava feito.

– Simbora então. Vai lembrar onde tá, né?

– Claro, chefia, esqueço não.

– Se esquecer, sabe né? – questionou, ameaçador, olho no olho.

– Sei, tá tranqüilo. Tá tranqüilo. – Silvinho segurou o olhar do chefe.

– Então vamos.

Após a partida deles, Ramon foi catar a pá.

 

Certo dia, não muito depois da visita dos traficantes, aconteceu um assassinato na fábrica. Um homem matou outro com mais de setenta facadas e arrastou o cadáver para o meio do mato. Deixou um pavoroso rastro de sangue nas imediações do refeitório.

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