A Fábrica – Parte onze

Os roqueiros retornaram dois dias após o assassinato. Antes de irem ao refeitório, deram a volta e mataram tempo à beira do rio, à sombra da favorita árvore de Ramon. Micaela, discreta, trajava jeans e regata. O homem da fábrica nada entendeu do assunto sobre o qual conversaram no refeitório:

Death Note é modinha que já passou. – Disse, com desprezo, Ricardo.

– Leia o mangá. – Insistiu Robson.

– Quer duelo de mentes, veja Code Geass

– Ah, Ricardo, aquilo é forçado pra caralho. E mais, vai dizer que Beck é modinha também?

Thauana lia alguma coisa e não se juntava ao falatório.

– Nada, Beck não faz meu estilo, mas é legal.

– Nada suspeito, você.

– Ah, Robson, vai ver Hamtaro.

– O que vocês têm contra Hamtaro? – surpreendeu-se Micaela, horrorizada.

– Mas sério, um muito foda é Now and then, here and there. – Sugeriu Robson.

– Esse eu não vi.

– Eu vi, é muuuito triste. – Enfatizou Mica. – Vi contigo, não foi?

– Foi. – Confirmou o estilista.

– Mais triste que FullMetal? – Ricardo estava cético.

– Cara, tô falando de uma fucking obra de arte aqui.

– E FullMetal Alchemist é o quê?

– Pretensioso.

– Ah, te fode. – Virou a cara.

Sorry.

– Teu cu.

– Vai ver teus Ecchi

– Tô assistindo um Ecchi, Seikon no alguma coisa. Tá legal. – Disse Micaela, sentando-se entre os dois.

– Mica, você é um Ecchi. – Observou Robson. Até Thauana sorriu enquanto a loura acertava o topo da cabeça do amigo.

– Pode falar, viu, Thau, é de graça. – Gracejou Ricardo.

– Fico lendo, não sei a graça que vocês vêem em animes, mangás… Pra mim não dá.

– Metida. – Declarou Ricardo.

– Te fode, Rico.

– Caralho, vai mandar eu me foder também, Mica? – Virou-se, inquisidor.

– Depende do que você diga ou faça. – Rasgou uma folha.

– Não gosto do Clamp, nem da Watase.

– Te fode duas vezes.

– Baba pelo Toryama. – Falou Robson, com um riso de desdém.

– Tem como não babar pelo Toryama?

– Sou mil vezes o Yoshihiro Togashi. E o Katsura?

– Lixo.

– Kishiro. Yukito Kishiro?

– Não conheço.

– Tu és todo clichezão. – Decretou Robson. – Depois vem falar de modinha.

Thauana soltou uma espécie de riso pelo nariz.

– Que foi, Thau? – perguntou Micaela.

– Robson e Ricardo. Nome de dupla sertaneja da porra. – As meninas caíram na risada; o estilista as olhou inexpressivo.

– Boa, vamos fazer carreira, cara, Die Mordechai à noite, sertanejo de dia. – Os olhos brilharam.

– Te fode.

– Caralho, parem aí de mandar eu me foder, porque se eu gostar da idéia vou exigir amante, e vai sobrar pra alguém.

– Ah, te fode.

– Vem, paixão.

Risos.

Quando o quarteto viu o caminho ressecado formado por líquido vital derramado, ficou sem ação imediata. Ricardo e Micaela acharam impressionante, encetaram uma discussão cujo objetivo era persuadir os relutantes a seguirem o rastro de morte. Thauana, fascinada e assustada, portando um livro com sonetos de Bocage, restou indecisa sob a proteção do antigo refeitório enquanto aguardava o retorno dos amigos.

Ela abriu a obra literária, tentou ler, mas não parecia conseguir se concentrar. Depositou o livro sobre uma janela, pensativa. Ramon, misteriosamente ávido por livros, muito embora cada vez entendesse menos as palavras, furtou-o sem que a garota percebesse. Ao ver o local onde antes estivera seu livro vazio, a jovem subitamente desesperou-se. Os amigos retornaram, e o choque no rosto deles arrefeceu seu ímpeto de contar-lhes imediatamente sobre o desaparecimento do livro.

– Todo esburacado… – falou Robson.

– Será que devemos chamar a polícia? – inquietou-se Micaela.

– Não, não vamos nos meter. – Sentenciou Ricardo.

– Eu não volto mais a esse lugar. Meu livro sumiu. – Afirmou Thauana, perturbada.

– Tá brincando? Esse lugar é incrível! – disse o vocalista da Die Mordechai, passando a fábrica em vista, como se jamais houvesse prestado a devida atenção ao lugar.

– E pensar que hoje eu quase trouxe Baudelaire… – continuou a moça, abalada. – Vou embora, vocês que fiquem. – E foi mesmo. Micaela a seguiu, proferindo palavras tranqüilizadoras.

– Acho bom a gente ir também. – Sugeriu Robson, aéreo.

– Vamos explorar esse lugar, cara!

– Explora você, Ricardo, eu tô fora daqui pra não voltar mais.

– Ah, qual é?

– Qual é o quê, cara, e se o assassino ainda estiver por aqui? O livro da Thau sumiu! Tu vais querer arriscar mesmo? Não viu o estado do presunto lá, quer ficar igual, bem arejadinho? – ele ia recuando enquanto falava. – Tô com a Thau, não volto mais aqui, e sugiro que você faça o mesmo. – Girou nos calcanhares e andou apressado.

– Ei, Robson! – chamou, sem sucesso. – Robson!

– Eu não volto aqui! – repetiu o outro, sem se virar. Ricardo o dispensou com um displicente movimento.

Sozinho, o músico estudou com ávido interesse o antigo prédio, caminhando maravilhado pelo pátio.

– Vai ser aqui. Vai ser aqui. – Tirou do bolso o celular e logo estava falando com alguém:

– Achei o lugar perfeito para o clipe de estréia da Die Mordechai.

 

Ramon iniciou a leitura do livro furtado na mesma tarde, e sua alma foi invadida de melancólica beleza. Dois sonetos mais o marcaram:

 

Apenas vi do dia a luz brilhante

Lá de Tubal no empório celebrado,

Em sanguíneo caráter foi marcado

Pelos destinos meu primeiro instante.

 

Aos dois lustros a morte devorante

Me roubou, terna mãe, teu doce agrado;

Segui Marte depois, e enfim meu fado

Dos irmãos e do pai me pôs distante.

 

Vagando a curva terra, o mar profundo,

Longe da pátria, longe da ventura

Minhas faces com lágrimas inundo.

 

E enquanto insana multidão procura

Essas quimeras, esses bens do mundo,

Suspiro pela paz da sepultura.

 

E:

 

De suspirar em vão já fatigado,

Dando tréguas a meus males, eu dormia.

Eis que junto de mim sonhei que via

Da morte o gesto lívido e mirrado.

 

Curva fouce no punho descarnado

Sustentava a cruel, e me dizia:

“Eu venho terminar tua agonia;

Morre, não penes mais, ó desgraçado…”

 

Quis ferir-me, e de Amor foi atalhada

Que armada de cruentos passadores

Aparece, e lhe diz com voz irada;

 

“Emprega noutro objeto os teus rigores;

Que esta vida infeliz está guardada

Para vítima só de meus furores”.

 

Ramon leu e releu. O poeta parecia íntimo da morte. Morte. Ele nunca havia pensado muito sobre o inevitável final de todos. Morrer seria como nascer? E como seria nascer? Esquecer? Mas o quê? A mente atrofiada do rapaz não obteve sucesso na especulação.

 

Marcelo, o universitário, chegou acompanhado de somente um amigo, outro estudante tão desgrenhado quanto ele, moreno, mais alto. Ficaram nas ruínas que eram os muros circundantes tomados por hera, acenderam baseados e por uns minutos nada falaram.

– Marcelo, tenho lido umas coisas que me perturbaram, cara… – começou o moreno.

– O quê?

– Tem um Eugen von Bö…

– Não, cara… Velho, não leve a sério essas merdas. Bawerk, Mises e esse povo todo nunca nos entendeu realmente.

– Mas…

– Não, deixa disso. Eles vêm com a farinha pra que a gente faça o bolo.

– Não acha que é bom…

– Não é bom.

O outro assentiu, mudo.

– Você acredita que tem um fantasma aqui? – olharam para o massivo prédio.

– Não acredito nessas viagens, não. – Respondeu Marcelo, ajeitando os óculos. – Deve ser um mendigo.

– Vai à aula amanhã?

– Não sei, quero terminar meu artigo… as eleições do DA tão chegando aí, tenho coisa pra caralho pra fazer… Não sei. Preciso do meu Hobsbawm.

– Tranqüilo, levo depois de amanhã.

– Depois de amanhã?

– Você nem sabe se vai amanhã, vou levar peso de graça?

– Tá.

– Marcelo.

– Oi.

– Gosto muito de você.

– Não começa com essas melosidades, senão pulo fora. – E sorriu.

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