A Fábrica – Parte Treze

As crianças chegaram minutos após o fim da orgia, sem atinar realmente para o que uma à outra dizia. A garotinha segurava um pônei rosa, e o menino olhava o pequeno cavalo com nojo infantil:

– Você tinha que ter trazido isso? – perguntou ele.

– A Poninha? Claro que sim! – devolveu, decidida. Deixou a pônei andar pelo cimento irregular do chão, por cima do rastro seco de sangue.

– Queria ter trazido o meu boneco.

– Não trouxe por quê?

– Porque eu pensei que a gente ia brincar junto.

– A gente pode brincar com a Poninha!

– Eu não quero brincar com a Poninha! Isso é coisa de menininha. – Assegurou, cruzando os braços e olhando ao redor.

– Meu pai vai sair com sua mãe, né?

– Vai, sim.

– Será que poderemos ir? Papai disse que eles vão fazer coisas chatas de adultos e que você podia ficar lá em casa comendo pizza.

– Comendo pizza?! – a menina confirmou com a cabeça.

– Adoro seu pai! Minha mãe nunca me deixa comer pizza. – A garota pegou o brinquedo e o analisou.

– Meu pai diz que gosta da sua mãe.

– Minha mãe também gosta do seu pai.

– Isso quer dizer que eu tenho que gostar de você e você gostar de mim? – o tom de preocupação era sincero, penetrante.

– Não! Eu não gosto de você! – reverberou o rapazinho, como se exorcizasse algo.

– Claro que gosta, bobo cabeçudo. – Rebateu.

– Não gosto!

– E por que fica brincando comigo? Tudo bem, também gosto de você. – E pôs a pôneizinha para andar de novo.

– Meu Deus… – falou o menino, transfigurado.

– Que foi?

– Vamos embora. – Pediu ele, numa voz estranha.

– Por quê? – ela endireitou-se no chão, tomando o pônei rosa nas mãos.

– As coisas não podem acontecer assim. Tenho que falar com mamãe.

– Mas o que vai acontecer? Tá bobinho?

– Quer ficar? Fique. – Deu as costas.

– Espera, vou com você.

E partiram.

Ramon, sozinho, sorriu. Ele realmente apreciava o sopro de pureza trazido pelas crianças. Talvez a fábrica precisasse daquilo.

 

Havia um outro músico que de vez em quando ia lá. O homem meio gordo, desajeitado, passava horas dedilhando o violão sob o sol ou sob benção lunar. Suas idas rareavam, o que era uma pena para Ramon, que absorvia suas canções de merencória profundidade. Tocavam-lhe tanto! O bardo freqüentemente utilizava tons menores, e sua magia era efetiva.

Uma música em especial mexia bastante com o fantasma da fábrica. Na primeira vez que a escutou, arrepiou-se. Ela começava com suaves toques nos bordões, certas casas pressionadas, e após algumas passagens entrava um fiapo infeliz de voz tristemente melodiosa, que subia e descia quase sempre dentro da mesma oitava:

 

Oh! tudo cai ao meu redor.

Vidas retornam ao pó, além da compreensão.

 

Que venha… que venha o perdão

Após a destruição.

Imortal eu já sou.

 

Que caiam as máscaras de nossas faces.

Que se revelem os disfarces.

Que desmorone tudo em cima de mim.

 

Que venham os demônios de minha mente,

Que para sempre me atormentem

Para eu não esquecer quem sou.

 

Ao fim dessa canção

Encontra-se o portão; a porta para a eternidade.

Vou entrar e encarar

A minha vil realidade.

 

Esta era a única coisa que Ramon cantarolava, cabisbaixo, reprimindo lembranças, repelindo demônios; ajustando, talvez, sua máscara.

Foi numa dessas cantilenas solitárias, noturnas, que o rapaz se lembrou do pai, da figura dele, pois o nome já caíra em longo esquecimento, letra por letra evanescida da memória com o passar dos anos, fonemas perdidos.

Renoir.

Tinha num dos quadros do pintor a mais completa imagem do patriarca. A mãe de um colega seu de escola possuía uma galeria privada repleta de cópias das telas do pintor que ela considerava gênio. O “Retrato de William Sisley”, visto pela primeira vez, lembrou-o subitamente seu pai, proeminente magistrado.

Aquele homem austero, cujo olhar parecia capaz de desintegrar mentiras, vestido de preto com as lentes na mão, cabelos grisalhos não tão arrumados, testa alta, era a imagem de seu pai quando queria saber o que de errado o garoto havia aprontado. A seriedade contemplada no quadro não era, porém, desprovida de cordialidade, e seu pai desmanchava-se em entendimentos e amenas repreensões, efetuava em casa poucos julgamentos.

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