A Fábrica – Parte Quatorze

As cenas vinham, oníricas.

Estava no escritório do pai. O corpulento homem erguera os olhos do processo que analisava, sorrira à sua entrada. O juiz tirou os óculos e os depositou cuidadosamente sobre o tampo de mogno. Reclinou-se na cadeira, e como a pintura, encarou-o. Por trás, na parede, fotografias da família, medalhas, prêmios, glórias; histórias.

Ramon, então com oito anos, vislumbrou o tapete trançado.

– Ramon, eu sei o que você fez. O que me intriga é: por que você fez?

Pela janela, pedaços do imenso jardim podiam ser vistos; o dia espraiava-se belo, azulado.

– Filho, por quê? – a boca do garoto mexeu-se em ensaios confessórios, mas preferiu manter-se à moda anterior.

– Ramon, não vou brigar com você, eu verdadeiramente quero entender os seus motivos. – A criança ergueu então os olhos e se deparou com a sinceridade. Sorriu, enfim, lábios curvos, bochechas saltadas, negros fios despenteados. Uma aura de troça o envolvia, e mais do que tudo dizia a razão para tamanha ousadia.

– E então? – instou o magistrado.

– Não tem motivo, papai.

– Como não tem motivo? você bebeu água da privada sem motivo? – afirmações mudas foram dadas em resposta.

– Filho…

– O Átila faz isso.

– Átila é um cachorro. – Destacou o pai, pausadamente, apontando para o menino o dedo indicador. – E mesmo ele não deveria fazer isso.

– É errado?

– Não é socialmente adequado, não é higiênico e pode trazer doenças. Você quer ficar doente? – O dedo permanecia em riste.

– Não sei.

O pai de Ramon ficou sem palavras, enrugou a fronte e tornou a recostar-se.

– Ramon, o que você quer ser quando crescer?

– Não sei se quero crescer, pai, gosto do meu tamanho.

– Bom, a única forma de mantê-lo é morrendo, e sei que não quer isso, logo, não, não quer ficar doente, pois doenças podem matar, então, o que quer ser quando crescer?

– Pintor.

– Pintor. Como quem?

– Como eu mesmo.

O homem observou longamente sua cria, colocou uma mão sobre o mogno, pareceu que ia dizer alguma coisa, e disse:

– Pode pintar um quadro e me mostrar?

– Tudo acabou. Não tenho tela, não tenho pincéis, não tenho mais faca, não tenho…

– Terá, terá hoje. E então? – o menino sorriu.

– Mas não o destrua, mostre-me antes pelo menos. – Ele assentiu.

– E por favor, filho, não beba mais água da privada.

 

Um mês depois o quadro de Ramon ficou pronto. Prédios modernos e antigos misturavam-se, as nuvens se entrelaçavam com a lua, vultos fantasmagóricos, sombrios, pontilhavam o cenário, esguios, esticando-se por janelas e esquinas, de olhos esfarrapados e inquisidores. A antiga construção, ao fundo, tudo via.

No centro de tudo, pequeno, frágil, incapaz de resistir a uma lufada de ar mais forte, uma criança se retraía, prestes a ser brutalmente esmagada pela noite.

A tela, incomodamente expressiva, ultrapassava os três metros de largura por dois de altura.

O pai a contemplou no ateliê, a visão marejada por detrás das lentes, alguns dedos sobre os lábios mudos. Ramon ainda tinha tinta pelas roupas e esperava o comentário do pai com desmedida expectativa.

O homem foi conciso:

– Você é um gênio, meu filho. Sempre soube disso. Aqui está a confirmação. Como o chamará?

– “O quadro que fiz para meu pai esperando que ele me compreendesse”. – Sorriu o pequeno.

Seus ombros infantis foram envolvidos pelo braço paterno.

– Eu pensarei bastante nele. Quanto a você, jamais pare de pintar.

– Eu também pinto aqui. – Respondeu o infante, pondo o indicador sobre os fios desajustados da cabeça.

– Mas aí ninguém vê.

– Não preciso que vejam. Não preciso que vejam.

 

Perdido em lembranças, Ramon pegou o revólver encontrado na caixa de metal e apertou o cano contra sua têmpora. Nenhuma pedra no mundo seria mais impassível do que o seu olhar.

Puxou o gatilho, o estalo não perturbou sua calma.

Parou para admirar a arma e relanceou a visão para as balas, enfileiradas a um canto, ao lado de uma garrafa vazia.

 

Era sempre a mesma dupla de policiais, Manuel e Serafim, que atendia qualquer ocorrência na região da fábrica. Assim que chegaram e viram o pátio ensangüentado, acorreram para a mata e de lá retornaram agitados, um deles falava atropeladamente pelo rádio, pedia um veículo do IML e avisava que o corpo encontrado, além de estar já em decomposição, fora lacerado e mutilado por animais.

Enquanto esperavam, deu-se o diálogo:

– Que barbaridade!

– A turma quer nem saber, Serafim. – Manuel guardou o rádio. – Matam mesmo.

– É foda…

– E talvez a gente nem pegue o desalmado que fez isso. A gente quase nunca pega.

– Pros bandido tudo, e a gente que é vilão. – Indignou-se Serafim, tirando do bolso uma barra de cereal.

– Tá comendo essas porcarias agora?

– Tô.

Após breve momento de silêncio, Manuel retomou:

– A gente é ruim, truculento, opressor. – Riu, sardônico. – Mas na hora que a coisa aperta, aí chamam, né? Gostar de bandido é fácil quando ele não tá apontando a arma pra cabeça da tua mulher. Aí me diga, quem faz uma coisa dessas – esticou o braço na direção da vegetação – ou quem fode uma criança, quem mata mulher grávida, quem bota fogo em outra pessoa, tu acha que gente assim tem jeito?

– Tem não.

– Esse pobre coitado aí tinha família. Toda vítima tem família. Ninguém dos direitos humanos pensa na vítima e na merda que a morte de um ente querido traz pra gente.

– Aí a gente tem de ficar vendo e ouvindo essas merdas.

– Tá tudo podre.

– Podre tá aquele infeliz. – Indicou a direção para onde o sangue levava. – Quero sair logo daqui.

 

Ramon parou o que fazia ao ouvir ruídos provenientes do pátio. Olhou pela janela e viu o homem que abusava das mulheres trazendo outra de suas vítimas adormecidas, como era costume. O jovem desceu correndo, mas sem denunciar-se por barulhos; gostava de assistir.

A moça, num elegante vestido cinza, com bracelete, longos e lisos cabelos castanhos, quadris ligeiramente avantajados e rosto meio oval, era bonita. O criminoso a pôs no chão com cuidado, de costas no solo, e ergueu sua perna esquerda, fazendo o tecido descer e sua perna aparecer completamente, mostrando uma fina calcinha branca de rendas complicadas.

Alerta, o estuprador olhava atenta e periodicamente em todas as direções. Já era a quinta vez que Ramon o via, as mulheres nunca acordavam. Como será que conseguia? Louco para satisfazer essa curiosidade, Ramon um dia virara sua sombra, e sem saber que alguém o seguia, Tenório levou sua vida pelo resto do dia, e na manhã seguinte foi à farmácia trabalhar.

Quieto, Ramon espreitou enquanto ele levantava também a outra perna da moça para conferir melhor a beleza de suas coxas e o efeito daquela calcinha sobre a pele desprotegida.

Tenório abaixou as calças e galgou o corpo feminino inerte a fim de passar seu pênis no rosto adormecido. Ficou largo tempo na atividade e conseguiu introduzi-lo na boca dela, onde fez um lento movimento de vaivém.

Afastou para baixo o decote do vestido, junto com o sutiã, e sugou-lhe vorazmente os seios fartos, mordiscou os mamilos, a todo o tempo em constante atenção.

Antes que Ramon pudesse perceber, Tenório já fungava entre as pernas da vítima. Virou-a de bruços, jogou a saia do vestido para o alto e mergulhou os lábios no bumbum carnudo e meio bronzeado da indefesa mulher. Girou-a novamente, tirou sua calcinha e passeou animalesco com a língua em seus negros pêlos pubianos. Abriu as pernas da vítima e começou a penetrá-la veloz e violentamente.

Ramon masturbou-se.

 

Noites depois, ouviu a voz do gordo fracassado.

O sujeito fumava copiosamente numa das salas, o telefone comprimido ao ouvido:

– Você não pode me impedir… – dizia, com falha entonação, óculos embaçados.

– Cuidado com o que diz! – continuou.

– Por favor… – suplicou.

Um chamado foi ouvido lá de fora:

– Doutor Rangel! Doutor Rangel!

Ele foi até a janela, e Ramon também, nas sombras, sem ser visto. Lá embaixo, um tipo magro, de olhos severos e feições aquilinas, vestindo jeans e camiseta, cabelo bem curto, esperava.

– Aqui, pode subir! – bradou o advogado, tapando o fone. – Ligo depois, você não pode me impedir!

O recém-chegado cruzou a porta e adiantou-se, apertando a mão de quem o recebia.

– E aí, doutor, tudo certo?

– Trouxe o dinheiro?

– Tudo aqui. – O homem mais jovem puxou do bolso de trás um maciço maço composto por notas de cem.

– Então tá tudo certo. – Deu um trago, contando superficialmente a quantia.

– Mas eu matei a puta mesmo, viu?

– Não me interessa, o que interessa é que vamos ganhar essa. – O bandido sorriu. – Tenho certeza de que ela mereceu. – Sentenciou Rangel.

– Mereceu, doutor, mereceu.

– E o cara?

– Fui eu também.

– Mereceu?

– Mereceu.

– Então tá tudo certo, tudo nos conformes, não tá, não? – soprou fumaça.

– Tá sim, doutor. – Confirmou, com sua voz arranhada.

– Tenho certeza de que o rapazinho mereceu também.

– Todo mundo mereceu, doutor. Eu que não vou ficar na cadeia por causa daqueles bostas.

– Certo está você. Ninguém mandou reagir.

– Pois é, eu iria embora de boa, sem fuzuê.

– Cigarro?

– Quero sim, doutor.

O fumo foi aceso com o isqueiro do advogado.

– Passe no meu escritório amanhã e conversaremos melhor.

– Pode deixar.

– Mas me diga, está aceitando encomenda?

– É coisa fácil?

– Coisa simples, a rotina dela é bem simples.

– Essas vacas, né não, doutor?

– Nem fale. – Os dois homens soltaram fumaça no ar.

– Mas agora não posso, não, tenho de me livrar dessa bosta toda aqui.

– Claro, mas depois…

– Depois eu mato quem o senhor quiser.

– Diga-me, tá com fome?

– Eu tô, doutor. – Ambos se estudaram meticulosamente.

– Vamos comer alguma coisa. – Soltou o cigarro no chão e pisou.

– Opa.

Ramon os observou da janela enquanto cruzavam o pátio conversando, animados.

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