A Fábrica – Parte Quinze

Às vezes acontecia da fábrica passar um longo período de tempo sem receber visitantes, e três semanas após o encontro de Rangel com seu cliente Ramon já se sentia estranhamente solitário. Reprimira memórias, concentrara-se exclusivamente nos instintos, caçara, inspecionara cada metro de seu decadente lar.

Banhou-se no rio, descansou horas na água, dormiu na grama.

Sobressaltou-se ao regressar à noite e encontrar os mendigos ao redor do fogo, cada qual portando uma garrafa. Escondeu-se o mais rápido que pôde, e quem falou foi Pedro:

– Quem tá aí? – levantou. Os outros olharam para onde o outro olhava.

– Tem ninguém lá não. – Conformou-se Murilo, também de pé.

– É o fantasma da fábrica. – Debochou Wesley.

– Tem fantasma aqui não. – Arriscou Micael.

– Vai lá ver, então. – Instigou alguém.

– Uma garrafa minha já sumiu aqui. – Recordou Pedro, ainda erguido.

– Eu lembro. – Disse Lúcio, sombrio.

– Ninguém ia querer mexer com um bando de mendigo. – Falou Zé. – Relaxem aí.

– Somos mendigos que estamos subindo na vida. – Fez Lúcio. – Outro brinde a Micael, o novo lixeiro da cidade!

Uma onda de vivas cruzou o círculo, mas Pedro permanecia olhando para o ponto onde vira Ramon. Esse, por outro lado, reparava que Murilo estava vestindo roupas decentes e apresentava indubitável aspecto de limpeza.

– Micael, por caridade, comece a gostar de banho, senão não vai mais ter amigos. – disparou Wesley.

– Wesley, vai cavalgar na mandioca.

As risadas explodiram irrefreáveis.

Beberam como o fantasma nunca vira, à exceção de Pedro, e noite avançada, decidiram fazer uma competição sobre quem atirava as garrafas mais longe. Murilo resolveu deixar mais interessante e sugeriu que o alvo fosse a cobertura da fábrica.

Todas as garrafas espatifaram-se nas paredes a meio caminho do topo, mas a de Pedro subiu e foi quebrar da quina do telhado. Vivas, aplausos, piadas.

Os mendigos só partiram pela manhã, e mais tarde, quando acordou, Ramon não conseguiu refrear suas memórias e passou em revista mental todos os seus quadros pintados no ateliê de seu antigo lar.

Eram dez. Rememorou um a um, reabsorvendo cada detalhe.

 

“O Huno”

 

Nesta tela, o dálmata da família, trajando esfarrapadas vestes, liderava um andrajoso exército canino ao leste, pronto a provar seu mérito. Colinas baixas, céu avermelhado, prenúncio manjado de sangue derramado. As imagens retratadas não foram dotadas de contornos precisos, mais assemelhavam-se a espíritos concisos de dentes arreganhados e olhares maldosamente expressivos. Todos na casa, à exceção de sua mãe, acharam a pintura divertida.

 

“Duas faces”

 

Dois homens de terno cinza encaravam-se sorrindo, suas figuras, iniciadas da cintura, apertavam mãos. Dentro deles, corpinhos deformados, quase demoníacos, tinham por cabeça seus corações, e retorciam-se em sorrisos macabros, olhos apertados, semblantes enviesados. Nessas partes, o vermelho adquiria um tom intenso, sanguíneo; a profundidade do rubro assombrava. Seu pai ficara especialmente perturbado.

 

“A Fábrica”

 

Um edifício cinzento de seis andares, três imperiosas torres, antigas chaminés, um pátio interno, tudo cercado por verde. Invadindo a mata, sinuosos trilhos enferrujados, e mais ao fundo, o lampejo do brilho solar em espelhos d’água. Uma névoa cobria tudo, espessa o suficiente para nada ficar totalmente claro, mas fina o bastante para todas as formas poderem ser discernidas. Pássaros negros marcavam presenças em beirais ou no ar. Tufos de ervas e arbustos travavam silenciosa batalha contra o cimento. Sujeira, abandono, lúgubres lufadas de vento. Ramon visitara a cidade na qual ficava o lugar com o pai, na infância, e escapulira do hotel. A fábrica havia retornado para casa com ele e nunca mais o abandonara.

 

“Meninas”

 

Um numeroso grupo de crianças, todas do sexo feminino, com idades que pareciam variar entre cinco a dez anos, amontoava-se, sem roupa. Mãos passeavam por nádegas, bocas experimentavam lábios, abraços apertados distribuíam-se, olhares descarados eram trocados. As cores eram vivas, as figuras humanas nítidas. Apenas o cenário, um jardim com canários, assemelhava-se a borrões de diferentes tons verdes. O magistrado aconselhou-o a não deixar ninguém mais pôr os olhos no quadro. Ficara completamente desconcertado.

 

“Meu pai”

 

Neste, fez sua primeira obra inspirada em Renoir. Reproduziu a pintura do mestre, colocando o pai no lugar do senhor Sisley, e mudou o fundo para um amarronzado mais forte, lembrando-se também de acrescentar o Bureau do escritório e pinceladas que faziam-se passar pelas coisas cravejadas na parede.

 

“A floresta”

 

A segunda obra inspirada no famoso pintor. Ramon pintou uma tela enorme, cheia de árvores de muitos tamanhos, flores, folhas caídas, animais, com jogos de sombra e luz não menos que sensacionais. Sentado ao pé da maior árvore da imagem, uma criança recostada descansava, com mantimentos ao lado para continuar a jornada.

 

 

 

 

 

“Ramon”

 

Um auto-retrato fidelíssimo captava suas joviais feições. Aparecia a partir do ombro, sisudo, os fios desalinhados, o pedaço de roupa que surgia, amarrotado. Olhos duros, calados, sobrancelhas de sombras. Nariz um tanto ossudo, mirrado, bochechas retas, queixo quase perfurante. As orelhas eram discretas, curvas, e a pele, branca, ainda bem cuidada. Foi exaustivamente elogiado por uma semana.

 

“Dia e noite”

 

A mais simples de suas obras consistia em uma tela dividida simetricamente por preto e branco, respectivamente. Ninguém entendeu que o dia era a parte escura e a noite a clara, e ele não se incomodou em explicar.

 

“Existência”

 

O cosmos se deslindava em sua maior produção: a tela tinha seis metros quadrados. As estrelas distantes eram, se observadas com atenção, ampulhetas cruzadas, e as galáxias, grandes vórtices temporais em forma de relógios. Em um lugar ou outro, planetas explodiam, e no núcleo das explosões, quem visse com atenção, veria números de fogo. Abaixo de toda a magnificência, no metro inferior, um vasto campo desdobrava-se, com poucas árvores secas, e um homem percorria sozinho uma trilha impiedosamente reta, desolado, bem no centro de tudo. Seu pai não compreendeu esse também, e de primeira não encontrou palavras, não esperava tão espantoso feito do filho, ainda que gênio fosse. Instantes depois, porém, estava se desmanchando em elogios enfáticos.

 

“O que se passa em mim”

 

Este quadro nada mais era, à primeira impressão, do que um monte de rastros de cores diferentes colidindo na tela maculada. Cores claras, negras, vivas, mortas. Até sangue ajudou a compor o rosto desfigurado e alucinado em mudo clamor desesperado, rosto que poucas pessoas foram capazes de enxergar. Ramon nunca soube se tal revelação atingira os olhos do único homem que importava.

 

O fracassado esbravejava ao celular:

– Eu não vou pagar pelo que não usei! – o cigarro escapou-lhe da boca. Escutou impaciente.

– Não adianta tentar me enrolar, mocinho, sou advogado, entendo da lei. – Catou o fumo caído e o recolocou onde estava. – Diga, qual é o seu nome? É, o seu nome, seu incompetentezinho de merda, fale aí! – ouviu, andava irrequieto. – Você vai perder o emprego se não resolver minha situação, pode apostar o que quiser, doutor Rangel quem está falando! – fez cara de ultrajado espanto:

– Como não pode fazer nada?! Eu não vou pagar pelo que não usei, porra, se não pode fazer nada, me passe para quem pode, estou perdendo a paciência, é a quinta vez que tento resolver essa merda. – Escutou.

– Mais paciência do que estou tendo é impossível! Ou resolve ou perde o emprego, e não tente derrubar a ligação! Vá preparando aí também as conversas que tive com vocês, todas elas, quero todas as gravações! – após curto silêncio:

– E eu sei lá número de protocolo, infeliz! Está tudo aí com vocês, pode procurar que acha, não quero desculpas! Você tá falando com um doutor advogado, não com um mané qualquer desses que vocês enganam todo dia. Agilize isso aí! – ordenou, rude. Pausa.

– Vai ficar insistindo que… alô, alô! Filho da puta! – ribombou – Filho da puta!

Sem demora, telefonou de novo, mas não obteve êxito.

– Filhos da puta! Vou processar todo mundo aí, estão ouvindo?! – despejou, depois da nona tentativa. O cigarro jazia a seus pés. Furioso, esmagou-o, marcando bem a pisada.

– Inferno! – explodiu. Andou mais alguns passos e:

– Merda de vida!

O celular tocou, ele olhou quem era, comprimiu o rosto, irritado, e atendeu:

– Fale. – Aguardou.

– Tá tudo nos conformes, pode ficar tranqüilo, o caso é nosso. – Tentava se acalmar.

– Tá tudo certo, pode relaxar aí. Vai fazer a encomenda, não vai? – quietude. – Isso… Isso… Muito bem, então. Relaxe aí que é nóis. – Riu afinal, uma gargalhada seca, desprovida de harmonia, soou mais gralha do que homem.

– Então tá bom, até mais.

Desligou. Abriu o maço de cigarros, puxou um novo e o acendeu.

O homem olhou para o relógio, sob a sola acabou com o último fumo, e tomou seu rumo.

 

Um choro lamurioso, vendeta da consciência, despertou Ramon de seu sono prematuro. Os ruídos ecoavam baixo pelos corredores, mas altos o suficiente para assustar roedores. Uma ratazana precipitou-se escada acima, assaltada por pavores, passando entre as pernas do misterioso residente.

Ramon achou Rangel caminhando choroso de um lado a outro em uma sala que nunca ia. Apurou os ouvidos e distinguiu os sussurros:

– Deus, por que não morro, por que continuo vivo? – fumava. As palavras saíam-lhe tênues, quebradiças, extenuadas, enfermiças.

– Eu quero morrer… tudo o que eu mais quero é morrer… para quê sirvo, para quê sirvo? Deixe-me morrer! – gritou.

O jovem que o observava deu meia volta, silencioso, retornou aos seus aposentos secretos. Catou o revólver, encheu-lhe o tambor e refez o percurso até o homem derrotado.

– O mundo estaria melhor sem mim. – Murmurou. – Melhor sem mim. Diga-me, Senhor, me daria coragem o suficiente para tirar minha própria vida? Eu quero morrer, eu quero morrer, eu quero morrer, quero ficar em paz… – estacou. Na porta da sala estava parado um rapaz absolutamente esfarrapado, de aspecto doentio, olhar desfocado, e esse inesperado visitante apontava uma arma para seu peito.

– Comecei a delirar… comecei a delirar… – recuou, o cigarro caindo-lhe da boca. Ramon avançou.

– Você me entendeu errado… tudo errado…. Diga… – quatro tiros seguidos, quatro surdos estampidos embaçaram os ouvidos.

Rangel andou de ré dois passos antes de tombar, já sem vida, a sangrar. Ramon reparou no cano fumegante e analisou-o longamente. Deixou o revólver cair de sua mão e foi, devagar, até o cadáver. Ajoelhou, tocou o rosto morto, indecifrável, e com outra mão, mexeu num dos buracos no tórax: quente, bem quente.

Provou o suco carmesim, sugando-o da fonte, e o luar acariciou sua hedionda face de queixo e lábios manchados. Deu outra investida, sugou o líquido vital que escoava.

Avaliou o sabor sem decidir se gostava ou não, absorveu o cheiro de ferrugem. Sua face inexpressiva perscrutou todo o corpo do homem abatido. O celular do defunto vibrou em seu bolso, Ramon o ignorou e sentou. Passou a noite sem dormir.

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