A Fábrica – Parte Dezesseis

Dois dias depois da morte de Rangel a fábrica veria mais sangue derramado. Seria outra vida que teria fim, ainda que indiretamente, através das mãos selvagens de Ramon.

Os traficantes voltaram, Silvinho e Caldeirão. O chefe esperou o subordinado iniciar a escavação, carrancudo, Glock na mão. Minutos depois, instalou-se a anunciada tensão:

– Chefe, não tá aqui. – Revelou o homem, tremendo.

– Tenho cara de palhaço, seu merda? Eu tenho cara de palhaço?! – avançou Caldeirão, agarrando a frente da camisa do parceiro.

– Devo ter errado o lugar, eu cavo de novo, eu cavo de novo… – desesperou-se.

E foi cavar. Abriu três buracos sem nada encontrar.

– Aonde você levou o bagulho?! – Caldeirão tirou a trava da arma e a apontou na direção de Silvinho. – Responde agora, eu não sou palhaço, não!

– Calma aí chefe…

– Eu tô calmo, caralho! – dez tiros.

O traficante enterrou o corpo esburacado do parceiro numa das covas providencialmente abertas, fechou as outras, e irado, saiu dali.

 

Ramon não costumava entrar no salão de produção, mas ultimamente andava estranho, vislumbrava a morte com seus olhos castanhos, recordava coisas que pensava esquecidas.

As cenas vinham em borrões confusos.

Ramon, então com treze anos, perfurara o pescoço do animal com uma faca de cozinha, de surpresa, enquanto acariciava o bicho deitado em seu colo.

Dado o golpe, o cão, enquanto emitia perturbadores ruídos agonizantes, olhou-o sem compreender, sem crer.

Ramon sequer uma lágrima derramou, deixou o corpo em seu quarto, na sua cama. O responsável pelo crime não se achou. Naquele dia, o mais velho dos irmãos fugiu com um destino fixo em mente.

A fábrica.

 

Na última vez que fora levado ao escritório do pai, sob grave acusação, reunia doze invernos. A face do homem, daquela vez, não guardava por trás da rígida máscara o menor sinal de complacência, a mais fina linha de paciência. Seus olhos eram só fúria; sua boca torcida, virulência; o agitar de seus braços, violência.

– Ramon, não sei o que posso fazer com você! Devia te dar uma surra, te dar uma surra que você jamais iria esquecer, e Deus do céu, talvez seja mesmo isso que eu vá fazer!

– Desculpe. – Disse o jovem rapaz.

– Olhe para sua cara, você não está pedindo desculpas de verdade! Desculpas não resolvem o que você fez! – saliva respingou na mesa.

– Não entendo.

– Você não pode… não pode… – as palavras doeram para sair. – Não pode abusar de suas irmãs!

– Por quê? Elas estavam gostando. Se gostavam, não era abuso.

O Vade Mecum voou no rosto do garoto. Ramon caiu sentado, nariz quebrado.

– Porque é errado! – rugiu o pai, ainda do outro lado do bureau.

– Por que é errado? Os animais…

– Não somos animais!

– Claro que somos animais. Pensa que somos especiais? – proferia as palavras com tranqüilidade, provando o próprio sangue, sem levantar.

– Deus…

– Eu não creio em Deus. Acredito na natureza.

– É simplesmente errado… Elas não tem consciência…

– E quando tiverem, será uma inculcada, não natural, nem única.

– Já chega! Basta! – Ramon ficou de pé e virou-se para a porta.

– Não se atreva a sair do escritório. – Silvou o pai, perigosamente. O filho o encarou novamente, a camisa vermelha.

– Vai me matar? aleijar? É isso que mereço? – não obteve reação.

– Então com licença, tenho um quadro para terminar. O sangue veio a calhar.

– Ramon!… Ramon! – no segundo chamado a voz saiu rasgada, dolorida, e foi precedida por uma sonora queda, grave batida.

Anos. Tinha anos que não se lembrava de nada disso. Por que agora? Não sabia o que estava acontecendo, mas se tinha que vislumbrar o passado, que assim fosse, uma hora pararia.

Resolveu caminhar o resto do dia, do rio à ferrovia, do telhado à próxima rodovia.

 

As crianças chegaram no meio da tarde, esbanjando felicidade, com raquetes de madeira e bola azul de borracha. Puseram-se a jogar, desajeitadas, mas divertindo-se como nunca.

– Vão comprar uma casa nova. – Disse a menina, após rebater.

– Talvez saiam da cidade. – Falou o menino, devolvendo.

– Ah, espero que não saiam.

– Por quê?

– Gosto daqui. – Ela indicou a fábrica com a raquete e a bola passou ao lado de sua perna.

– É… – concordou o garoto, olhando em volta.

– Bola!

– Ei! – rebateu sem refino.

Os dois jogaram quietos de palavras por minutos, até o garoto tornar a falar:

– Você acha que vamos ser irmãos agora?

– Não, que tontice.

– Não é tontice. Nossos pais vão ficar juntos.

– Se a gente for irmão, não vamos poder namorar.

A bola tocou a barriga dele e quicou no chão até parar.

– Eca! Eu não quero namorar você!

– Bobo. Não quer agora. Diga isso daqui a cinco ou seis anos. – Novamente, a menina usava seus modos didáticos, agindo como quem inicia um incauto nas verdades mais puras do universo.

– Daqui a seis anos você vai estar velha.

– Você também. Pega a bola, vamos jogar. – Aturdido, ele apanhou a esfera e recomeçou a brincadeira.

Só o som das raquetes na bola por um tempo. O garoto falou de novo:

– Não quero ser seu namorado.

– Tudo bem, acho alguém melhor.

– Melhor que eu? – estava ferido.

– Não é difícil.

– Não é difícil? – o cúmulo. Ela negou com um aceno, confirmando o que dissera.

– Espere só até eu virar exército.

– Você vai mudar de idéia. Semana passada queria ser médico. Outro dia tava falando em ser vereador. – Fez esforço para alcançar uma bola mais longa.

– Tá com inveja porque nem sabe o que é vereador.

– É o cara que verea. Não trabalha no verão, vida boa, eu sei.

O menino ficou calado. Sua amiguinha parecia mesmo saber de tudo.

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