A Fábrica – Parte Dezessete

Os mendigos reuniram-se à noite em cinco, Murilo não se encontrava entre eles, e esse era o tema da conversação quando Ramon principiou sua escuta:

– Tá ficando metido. – Alfinetou Wesley.

– Tá ficando ocupado, Wesley. – Corrigiu Pedro.

– Ele não quer ficar no cargo que está a vida toda, busca promoção, ascensão. – Lembrou Lúcio.

– Tá metido e pronto.

– Fica com inveja não, Wesley, você também vai arranjar trabalho. – disse Micael, antes de emborcar a bebida.

– E tu pensa que eu quero trabalhar? Quero não, Deus que me livre.

– Vai ficar mendigo pra sempre? – questionou Lúcio.

– Eu e tu, parceiro.

– Eu vou subir na vida de novo.

– Num te vejo tentando.

– Tu tá pensando que a gente vai te bancar? – perguntou Pedro, áspero.

– Murilo e Micael tão bancando nóis, tão não?

– E tu ainda chama o cara de metido. – Espetou Zé.

– Zé, cala essa merda que tu tem na cara aí.

– É foda ouvir a verdade, né? – retorqüiu Pedro. – Murilo e Micael tão ajudando, mas eles sabem que a gente quer tudo crescer aqui. Se tu num quer, tá no grupo errado. Devia ter ficado com os caras na praça hoje.

– Tá esnobando Matias Locão e o pessoal? – perguntou Wesley.

– Num tô esnobando ninguém, a gente troca idéia e se respeita, mas o que eles quer é diferente do que nóis quer. Cê devia tá com eles.

– Daqui a pouco vai roubar. – Falou Micael.

– Fica na tua ô catador de merda.

– Tô nem aí, eu ando no caminhão.

– Com cheiro de merda na cara.

– Cala a boca aí! – bramiu Pedro, levantando. Ninguém entendeu e ele explicou: – Ouvi alguma coisa.

Ramon, envolto em noite, ergueu as sobrancelhas. Aquele mendigo estava ficando muito perceptivo.

– É o fantasma. – Debochou Wesley.

– Mano, e se for uma assombração mêrmo? – interessou-se Micael.

– É nada, é algum drogado delinqüente. – Arriscou Lúcio.

– Segurem bem as bebidas. – Arrematou Pedro, sentando-se.

– Fantasma pinguço. – Disse Wesley.

Ramon, silenciosamente, se afastou.

 

O fantasma da fábrica. Ele possuía certa fama, e bem de vez em quando, raramente, jovens sozinhos ou em pequenos grupos faziam um teste de coragem que envolvia passar toda a noite no interior do prédio. Nunca entravam muito, achavam um bom lugar e se aninhavam, tremendo, enquanto as horas passavam. Às vezes, Ramon dava o ar de sua graça, o que resultava em algumas experiências traumáticas para os bravos madrugadores.

A dupla de policiais andava pelos largados salões. Manuel apontava para os vacilantes andares superiores, compostos de enferrujadas passarelas:

– Será que é firme?

– Não, não é. Pisou caiu, vá por mim.

– Lugar grande.

– Muita gente já passou por aqui.

– Por que não fazem logo um shopping? A cidade precisa de um.

– Deve ser a energia. – Confidenciou Serafim, analisando milimetricamente o velho maquinário.

– Energia? Acredita nisso?

– Meu filho, eu acredito em tudo. Essa fábrica é muito… muito pesada. – Juntou as pontas dos dedos da mão direita.

– Não sinto nada.

– Não precisa sentir, só observe. Inspire.

– É, bom, eu não me sinto lá confortável aqui.

– É um começo.

– Falam de um fantasma aqui. Você acredita nisso também?

– Eu acredito em tudo.

– O Pedrão, pedinte, tem vindo com umas conversas estranhas. – Serafim voltou-se para o colega. Manuel continuou:

– Quando eu faço a ronda na praça ele me aborda pra dizer coisas sobre esse lugar.

– Que coisas? – o outro policial aproximou-se, lento, mãos na cintura.

– Diz que ouviu ruídos, viu um vulto que depois desapareceu, contou que uma vez a garrafa de pinga dele sumiu…

Serafim baixou a testa, pensativo.

– Vamos pro pátio. – Disse, enfim.

Ramon esgueirou-se cautelosamente por trás de uma esteira de produção, deixando somente o topo da cabeça surgir. Subiu as passarelas que, segundo Serafim, cairiam ao piso, e pegou um atalho por corredores quase desprovidos de iluminação. Saiu no refeitório e observou ambos de uma janela, protegido.

– Alguns adolescentes relatam coisas estranhas também. – Recordou Serafim.

– Faz tempo que nada é dito.

– Faz. Devem ter desistido de passar a noite aqui. – Manuel concordou, mudo, medindo o edifício com os olhos.

– Esse lugar tá acabado. – Concluiu.

– Vamos indo, nada de novo aqui.

– O que espera encontrar, Serafim?

– Não sei, Manuel, mas sei que há mais cadáveres por aqui.

– Como?

– A fábrica… a fábrica é pesada.

 

Cinco dias depois da lei, apareceram os fora dela. Caldeirão tinha outro parceiro, Ratazana, que era introduzido nos modos da casa:

– Aí tu enterra a encomenda, cava a porra dum buraco e enterra, entendeu?

– Entendido, chefe. – A voz do novato sibilava com toques jocosos, um meio sorriso dúbio estava sempre decorando seu semblante tatuado.

– E num vacila, senão tu acaba no buraco, entendeu?

– Entendido, chefe. Cavo onde?

– Onde quiser, mas não vacila. – Repetiu lentamente, movendo a Glock perto dos dentes.

Ratazana começou a escavação, o largo pacote esperava atrás, no chão. Caldeirão perfurava o ambiente com os olhos, atento a qualquer alteração. Passado longo tempo:

– Tá bom, chefe? – Caldeirão examinou o buraco.

– Não, mais fundo, e deixe de moleza.

– Eu não…

– Tu num quer discutir comigo.

– Tá firmeza, relaxa aí…

– Eu tô relaxado, cacete do caralho! Eu tô relaxado! Quer me ver irritado, tu quer me ver irritado?! – Caldeirão bradava, o cano da arma na direção de Ratazana.

– Vai te foder, seu filho de puta aidética de merda! – devolveu o outro, projetando o peitoral, agarrando a pá com mais força.

– Tu perdeu a noção do perigo, seu bosta de vaca arregaçada?! Tu quer morrer? Providencio isso agora!

– Tu num vai me matar não, cria de mijo de porco e peido de velha malcomida, tu sabe de quem sou irmão. – Falou baixo, ameaçador.

– Tô cagando pra rapariga frouxa do seu irmão, seu rola bosta miserável! Cava o maldito buraco antes que eu cave cinco ou seis em você. Cave tão fundo quanto seu cu, seu peste sem noção! – tirou a trava de segurança da arma.

– É bom que atire, é bom que atire agora, tirou a trava tem que atirar.

– Cava a porra do buraco.

– Cava tu, pau mole ressecado! – jogou a pá no chão. – Tu já era, Caldeirão. Num é assim que se faz as coisas não. – Fez o sinal de negação com o indicador.

– Tu vai se arrepender… mano, tu vai se arrepender tanto… vou acabar com tu, tua família, teus cachorro, tudo… tu vai se arrepender mil vezes…

– Fica falando aí. – E foi indo embora.

– Tu vai se arrepender!

– Enfia a pá no cu e cava rebolando, seu merda!

Bem depois do outro sair, Caldeirão continuava parado no mesmo canto, remoendo um ódio intenso, pestilento. Gritou para o nada, pegou a pá, terminou o serviço e foi embora praguejando e planejando.

 

Uma lagartixa confirmou algo com a cabeça.

Acima dela, distante, besouros cor de ônix bailavam em vôo encadeado. As incansáveis formigas continuavam a infatigável marcha, o mundo gigante; maldoso, inóspito, espalhava-se em caos. Mas elas iam, tocando antenas, dialogando, levando adiante o precioso sustento. O inverno anunciava-se, batia à porta.

Ramon sentia enorme angústia no peito. Será que algo o aconteceria?

A lagartixa mexeu a cabeça.

 

A dupla de policiais era agora presença semanal. Dessa vez vasculhavam um corredor do segundo andar, o que costumava ter vespas. Era a primeira vez que entravam tanto na fábrica, e a apreensão em torno deles fazia-se fria, praticamente palpável.

Manuel ocupava o posto de mais impressionado:

– Esse aí tem de ser um fantasma. Homem nenhum viveria aqui. – Falou, olhando as portas caídas, janelas quebradas, a imundície do corredor. Serafim manteve-se quieto, Pousou a vista num gato em decomposição avançada e mexeu o rosto, incomodado com o cheiro.

– Não acho prudente irmos mais a fundo nisso, Serafim, não sem um bom motivo.

– Pode voltar para o carro, Manuel.

– Não vou deixar você sozinho. Encucou com esse lugar de repente…

– Eu quero ver tudo.

– Mas pra quê?

– Alguma coisa não está certa aqui.

– Fazemos o seguinte: voltamos, procuramos saber quem tem o costume de vir aqui, fazemos algumas perguntas, e aí sim, vasculharemos todo o prédio, se necessário. O que acha?

– Não tenho do que reclamar.

– Então vamos.

Serafim parou de andar e contemplou detidamente uma sala próxima.

– Serafim.

– Vamos, vamos embora daqui.

Foram. Ramon sentiu-se estranhamente aliviado.

 

A caveira de Rangel apodrecia o pouco resto de pele e carne que tinha num pote. O misterioso residente da fábrica a tirara do homem na mesma noite de sua morte, e ainda sob aquelas estrelas, a escalpou. Depois, tirou como pôde o resto de carne e pele dali, um trabalho sangrento, que repugnaria a maioria de nós. Seus olhos não se alteraram enquanto agia. Jogou a fracassada máscara, nacos pendurados, aos cães após tê-la contemplado ao luar.

Apanhou o crânio do homem e gastou horas admirando-o. Não era gordo, claro. O pensamento infantil o fez sorrir.

 

A chuva estatelou-se ruidosamente contra a fábrica. Animais procuraram abrigo em seu interior; as gotas, em atravancada corrida, desciam a rugosa superfície da tríade de chaminés eternamente de pé. A temperatura tornou-se mais agressiva, cortante.

A fábrica estava fria.

 

Os mendigos fizeram sua fogueira perto do antigo refeitório, e todos os seis estavam presentes.

– Serafim, o policial, veio falar comigo. – Anunciou Pedro. – Quer saber o que eu vi aqui.

– E cê acha que a polícia vai fazer algo por causa de mendigo? – retrucou Wesley.

– Ele estava bem interessado.

– Pedro, você não tá exagerando, não? – expressou Murilo, bem barbeado, cabelos penteados, roupas melhores, até mesmo outros modos.

– E a garrafa? Porra, todo mundo esqueceu da minha cachaça que sumiu?

– Isso foi há meses. – Insistiu.

– Mas sumiu.

– O cara tá certo, Murilo, tem alguém ou alguma coisa aqui. – Declarou Lúcio. – Às vezes vejo um vulto. Pensava que era a cachaça, mas agora já não sei.

– Vocês viaja. – Arrematou Wesley, bebendo.

– Sei lá, acho que pode ter alguma coisa aqui, sim. – Falou Micael, com ar pensador.

– Porra, tu tá fedendo. – Disse Wesley.

– Eu tenho culpa se tu sempre senta do meu lado?

– Galera, sério, hoje ele tá foda. Porra de vento que soprou ao contrário agora.

– Tá foda. – Ecoou Lúcio, se afastando com a bebida.

– Vai contaminar a pinga. – Continuou Wesley, também ficando de pé.

– Caralho, Micael. – Pedro levantou.

– Sim, sim, é tudo um bando de cheiroso perfumado garnier frutis! – irritou-se o lixeiro. – É tudo madame.

– Exagero, gente. – Emendou Murilo, inclinando-se para o amigo.

– Tu vai cheirar ele? Tu é doido?! – Wesley alarmou-se.

– Porra, Micael! – exclamou o mais limpo deles, tossindo.

– Tá bom, vou tomar banho, que saco. Bando de rainha do caralho.

 

Thauana e Micaela visitaram a fábrica sozinhas. Ramon ouvira a loira segredando para a amiga que ali era o único lugar no qual se sentia à vontade para conversar. As duas vestiam moletom, e em uma delas aparecia significativo inchaço na barriga. Caminhavam rente ao muro devastado, era o máximo que Thauana se permitia entrar, e Ramon as seguia, agachado.

Era a amante dos livros que falava:

– Você foi muito louca, Mica, muito louca. – A tristeza soava não disfarçada.

– Nenhum vai assumir a paternidade, nem testes querem fazer. Quer dizer, o Ricardo ainda tá meio inconclusivo… – Micaela brilhava com metade de sua potência natural, soava meio abatida. Ramon achou-a até ligeiramente desleixada.

– Claro que não, Mica! Poxa vida, hein?! – indignou-se. – Babacas! E babaca você por ter caído nessa!

– Sei não… – teimou.

– Já tá passando da hora de tirar isso aí, né? – indicou a barriga da amiga.

– Nããão! – a outra repeliu a idéia, horrorizada.

– Como não, vai deixar nascer?

– Que escolha tenho?

– Tira isso daí.

– Não!

– Você sempre foi a favor do aborto, que é isso agora?

– Mudei de idéia. – Disse sorrindo e acariciando o ponto onde imaginava estar o neném.

– Por quê? Tá virando religiosa? – assustou-se.

– Não, odeio religião como sempre odiei… é que… não sou assassina.

– Mas nem tá vivo ainda.

– Eu pesquisei, não há consenso científico sobre quando a vida começa.

– E?

– E que existe a chance de eu estar acabando com a vida de outro ser humano, do meu filho ou filha. Não quero arriscar.

– E o que vai dizer a seus pais? – o rosto de Micaela ficou triste.

– Meu pai viu o clipe do Die Mordechai. – Thauana gelou, empalideceu.

– Ai, Mica…

– Não me bateu… só me pôs pra fora… me deserdou. Minha mãe concordou…

– Puritano hipócrita desgraçado…

– Tudo bem…. Um dia acho que me aceita de volta.

– Vai voltar?

– Não sei… Ah, Thau, não sei tanta coisa…

– E onde você está?

– Na casa da Flávia.

– Pode ir lá pra casa, viu?

– Obrigada.

– Vai largar o colégio mesmo?

– Por enquanto, sim. Todo mundo viu o vídeo. As reações… eu não esperava…

– Tudo hipocrisia, o que estava esperando?

– O Ricardo me defendeu.

– O mínimo.

– Então posso ficar na sua casa?

– Pode, claro que pode. – Rebateu de imediato.

– Obrigada, Thau. – Sorriu. – Você vai ser titia, Thau. – As lágrimas acorreram aos olhos das duas.

– Tem certeza que não quer tirar?

– Tenho.

– Nem vai dar para adoção?

– Não. Sei lá… ele, ela… é meu bebê. Vou arcar com as conseqüências… vivi em fantasia por tempo demais. Vou criar a criança e vou ser uma boa mãe.

 

Três dias depois, Ramon, do telhado, ouviu um lancinante berro feminino. O sol imperava no céu, incomum dia quente de inverno. Olhou para baixo e viu Tenório lutando para manter sob si uma atraente jovem de biquíni, calcinha azul celeste, sutiã branco, meia taça. A mulher era bela: longuíssimos cabelos pretos, pernas levemente torneadas, seios médios, seguros.

Algo dera errado e a vítima acordara. O diálogo travado era inaudível, e por isso o fantasma desceu numa pressa inédita até posicionar-se numa posição privilegiada:

– Me solta, seu nojento! Me larga! Me larga! Seu asqueroso!

– Calma, Valéria, calma! Não é o que você está pensando! – retrucou o farmacêutico, arfando, suando.

– Canalha! – tapa na cara. – Me larga, me largaaa! socorro, socorro! Tarado, socorro! Socoorrooo!

– Valéria, fica quieta! Tudo pode ser explicado… – Mas a voz dele era facilmente encoberta pelos brados desesperados da mulher.

Ela conseguiu desvencilhar uma perna e afundou-lhe o joelho nas partes baixas. O homem rolou para o lado e a apavorada vítima levantou e ia correndo para a saída, mas ao notar a rápida recuperação de seu agressor, correu para dentro da fábrica. Tenório congelou, como se temesse entrar ali.

Tudo em que Ramon conseguia pensar, no entanto, era no biquíni cavado o suficiente para deixar aparecer a maior parte das nádegas. Também ele correu para o interior da decadente construção.

Caçou a mulher, e enquanto o fazia, ouviu, longe, pneus cantando, e soube que o outro estuprador fugira. Valéria igualmente pareceu ter notado, e Ramon a surpreendeu vagueando um corredor no primeiro andar. Ela tinha uma expressão de asco na linda face de lábios rosados, queimada pelo sol, e descalça, pisava o chão com meticulosa precaução. Os mamilos, discerníveis por trás do tecido, eriçaram o residente da fábrica. Ele deu a volta, posicionando-se na outra esquina do corredor, de modo que a moça andasse diretamente na sua direção. Tirou a roupa.

Quando a sentiu perto, deixou que cruzasse seu caminho e agarrou-a, tampando sua boca. Valéria debateu-se, em pânico, e Ramon a atirou com força contra uma parede. Sem esperar aquilo, a mulher bateu a cabeça e tombou, grogue. O jovem a puxou pelos cabelos e esfregou o rosto dela contra seu membro rígido. Ela chorou, tentou levantar, mas levou um forte golpe de punho fechado na orelha, seus fios negros ainda bem seguros pelo homem que a violentava.

Numa atitude impensada, desesperançada, Valéria, aos soluços, fez sexo oral em Ramon, que o tempo todo a forçou, causando-lhe tosses. Quando se deu por satisfeito, o fantasma da fábrica a pôs de pé e arrancou-lhe a parte de cima do biquíni. A coitada tentou reagir mais uma vez e foi esbofeteada com ardor, seus cabelos firmes na mão do novo agressor.

Ramon sugou-lhe os seios como um animal faminto. Jogou-a no chão, afastou-lhe a calcinha e provou-lhe a vagina. Lembrou-se do Die Mordechai, e pondo-a de costas para si, de joelhos e tronco ao chão, afastou as duas metades do bumbum a fim de lamber tudo por ali. Enquanto lambia lá por trás, enfiou alguns dedos na entrada livre. Valéria chorava baixinho, só torcia para que o horror terminasse logo.

Seguiu-se a penetração anal.

Valéria esganiçava-se de agonia, dor e humilhação

Após o que pareceu uma eternidade de danação, o fantasma da fábrica, finalmente, iniciou a penetração convencional; a possuiu como um cão selvagem, sem ritmo, estocadas rígidas, violentas, tapas nas nádegas, nas bochechas, mordidas no ombro, puxões de cabelo que por duas vezes arrancaram punhados de fios.

Valéria foi jogada sentada contra a parede, repentinamente, e uma mão impiedosa fechou-se em torno de seu maxilar, obrigando-a a abrir a boca.

A infeliz foi forçada a engolir tudo. Não se atreveu a regurgitar.

Tudo terminado, Ramon a deixou em fiapos, a calcinha do biquíni ainda envolvendo um de seus pés trêmulos de choro.

 

A borboleta azul capturou de súbito a atenção de Ramon. Era uma borboleta cor de mar, meio translúcida, bordas negras nas asas.

Assim que viu a borboleta pela primeira vez, apegou-se. Seguia os vôos idílicos, deitava a seu lado, onírico. Suas asas eram finas fibras, delicadíssimas, o menor toque as danificaria; se algo ocorresse a ela, ele nem em cem anos se perdoaria.

Ia o bicho pela mata, ziguezagueava, desviava hábil dos troncos, e Ramon ia atrás, lutando para acompanhar os arpejos de seu adejo. Venerar aquela borboleta foi seu desejo.

Singravam o pátio, tangiam os muros derribados, feixes solares ao entardecer escapavam por cima das heras. Exploraram corredores, entraram em salas, juraram amores. A borboleta passou por uma janela, e Ramon pôs metade do corpo para fora, observando-lhe pairar, sem nunca, nunca parar.

O efêmero ser visitou a tudo. Voou pelo promontório, cruzou por cima o rio, inspecionou os tortos ramos arbóreos à sua margem, entrou nos descarrilados trens para sair por uma abertura no teto, rodopiou pela velha estação; o vôo seguia gracioso, espiralado, carregado de emoção.

Então pousou sobre uma pedra e juntou as asas majestosas. Ramon deitou-se de bruços no chão e contemplou de perto a criatura que venerava. Quis ter telas e pincéis, aquele ser merecia registro para além dos tempos. Merecia existir.

Um puxão arrancou sua amada do plácido repouso, envergou seus magnânimos painéis naturais. O ocupante da fábrica soube a aflição que se tem quando parece que o coração parou. Localizou o sapo mastigando a rainha dos ares, engolindo-a. Num urro rouco de olhos esbugalhados pegou o sapo e o espremeu; por quatro segundos, gritaram ele e o sapo. Só a voz de Ramon restou.

Chorando, abriu o cadáver anfíbio usando os dedos, e lá estava ela, retorcida, quebrada, encolhida.

As lágrimas vieram com a chuva, e com ela permaneceram, fluindo dos olhos aos joelhos em terra fincados. Ramon estava enlutado.

 

Os universitários surgiram após as águas, na tarde do outro dia. Ramon não lhes deu atenção, ouviu automaticamente Marcelo discursar aos colegas sobre a importância de ter sua chapa no diretório acadêmico.

O fantasma da fábrica não queria saber de nada.

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