A Fábrica – Parte Final

O inverno havia trazido uma atmosfera de melancolia ainda mais pesada à fábrica. Suas rígidas formas geométricas pareceram mais impassíveis; seus recônditos ficaram mais escuros; todo o ambiente se afigurava mais sorumbático, menos seguro. O local onde as sombras mais cresciam era o peito de Ramon. O jovem iniciou uma cadeia de duradouras reflexões, primeiramente, contra a vontade, depois, consciente. Talvez aquele fosse um passo necessário.

Viu-se então cogitando algo inédito: Voltar para casa. Se ainda morassem lá, o aceitariam?

Ele nem sabia com certeza quantos anos haviam passado. Não sabia se o pai vivia.

As noites frias, mais do que o usual, foram complicadas de enfrentar. Acordava freqüentemente, sonhos ruins com a borboleta atormentavam os recantos mais fechados da sua mente. Via-a, de algum modo despedaçada, mas inteira, babada, tirada de suas vistas tão bruscamente…

 

As crianças foram se despedir:

– Adeus, lugar legal!

– É, adeus! – ressoou o garoto. A felicidade estampava-se nos rostos.

– Vai ser bom a gente morar junto. – Disse ela.

– Posso me acostumar.

– bobo.

– Não sou bobo!

– Vamos morar perto da praia.

– Vou nadar todo dia.

– Como se fossem deixar. Eles não deixam a gente fazer nada.

– Vão deixar sim, vão estar ocupados se beijando. – Fez ar de superioridade.

– Olha só! Talvez você não seja tão tontinho!

– Eu não sou tontinho!

– Vamos brincar muito!

– Jogar muito videogame!

– Ter pássaros!

– Cachorros!

– Gatos!

– Gatos não! Eu tenho um hamster, lembra?

– Você disse que ia ensinar ele a lutar.

– E vou, seu gato vai levar uma surra se tentar atacar!

– Vamos ver! – desafiou ela.

– Só espere, compre um gato pra você ver!

– Não vou comprar, bobinho, vou pegar na rua. – Elementar.

– Mas bicho de rua tem doença!

– Não se a gente pegar novinho e cuidar dele.

– Como sabe disso?

– Sei de tudo.

– Verdade.

– Vai ser tão bom! Vamos comer tanta coisa!

– Salgadinhos…

– Doces…

– Bolinhos…

– Pizza! – disseram os dois, rindo depois.

– Sua mãe é mais apaixonada pelo meu pai. – Falou a menina, quando as risadas passaram.

– Não é, minha mãe que é mais apaixonada pelo seu pai. – Retrucou imediatamente. A garota sorriu.

– Não foi isso que eu quis dizer, você entendeu!

– Bobo.

– Nunca vai parar de ser chata?

– Não.

Ela deu um selinho na boca do menino e saiu correndo. O garoto ficou parado, estátua, com dois dedos nos lábios. Seria tarefa trabalhosa achar olhos mais esbugalhados do que os dele.

 

A dupla de policiais irrompeu na fábrica com armas em punho numa manhã chuvosa. Vasculharam todos os salões e estavam no refeitório quando Manuel falou:

– Destino infeliz o da moça. Ser drogada pelo próprio sogro, escapar, e cair nas mãos de um cara ainda pior.

– O fantasma da fábrica não é lenda, então. É um criminoso perigoso, não hesite em atirar.

– Serafim…

– Reagimos, só reagimos.

– OK.

Ramon, de cima, assistia à dupla apreensivo. Se achassem os rotos restos de Rangel, nunca mais o deixariam em paz.

– Ela não deveria ter demorado tanto para dar queixa. Talvez ele já tenha fugido. – Sugeriu Manuel.

– Pode ser, mas vamos olhar em cada sala desse maldito lugar, na mata, na ferrovia. Vá ao carro pedir reforços.

– Bem pensado. – Foi.

Duas horas depois o lar de Ramon estava completamente revirado. O fantasma teve que se concentrar ao máximo para não ser percebido, mas fora ele, tudo foi achado, seus parcos pertences foram levados; o horroroso cadáver do advogado, ensacado.

– Esse deve ser o cara que estava desaparecido. – Dissera Manuel a um companheiro.

– Aquela caveira que achamos deve ser sua cabeça. – Conjeturara Serafim, com a voz tensa.

Mais de vinte policiais fizeram uma apurada busca nas redondezas, Ramon teve que executar grandes proezas para não ser detectado, especialmente pelos pastores alemães.

Só no final do dia, no telhado, a chuva ensopando seus uniformes, os policiais concluíram que, quem quer que vivesse ali, já tinha partido.

– Seria muito estúpido se ficasse. – Arrematou Manuel.

 

Ramon achou-se nu. Estranhamente desprotegido, vagueou na chuva sem pensar em absolutamente nada. Por sorte não foi avistado por Pedro, sempre vigilante. Como chovia, os pedintes usavam o refeitório de abrigo, e o robusto mendigo a tudo percebia, da janela.

Não se interessou pela conversa. Ouviu poucas coisas, entre elas, que os policiais não acharam ninguém. Micael aproveitou para insistir na idéia de fantasma, mas foi cortado por Wesley. Pedro não se conformava, mas, ao que parecia, não era o momento de discutir coisas do tipo. Murilo estava indo embora, seria transferido, e beberam uísque em sua homenagem. O bondoso homem prometeu voltar e ajudar a todos. Lúcio reafirmou que subiria na vida outra vez.

 

A queda d’água engrossou e Ramon foi ao telhado. De lá, podia ver o tremeluzir das chamas no interior do velho refeitório. Despiu-se e se concentrou nas pequenas explosões que atingiam sua pele desnuda. Respirou com força, inspirava e expirava de modo cada vez mais acelerado.

Viu quando a fogueira foi apagada, viu as silhuetas dos visitantes desaparecerem ao leste.

Esperou.

Livre, correu, bradou, lamentou. Mas Ramon não entendia de verdade o que lhe afligia, e isso, mais que tudo, doía. Estava sem nada. Teria a coragem de tudo recomeçar? E o que seria recomeçar? Para quê recomeçar? Um recomeço era sequer possível? Bastava, não queria pensar, só correr e gritar.

Ao correr em volta das beiras do telhado, uma dor aguda atravessou seu pé esquerdo, algo havia se enterrado em sua carne. No susto, cambaleou e passou a borda, despencando para o cimento seis andares abaixo.

O choque cedeu à compreensão. Ramon não pôde se mover. Seus olhos testemunhavam a imensidão do edifício, mal mantinham-se abertos por causa das gotas vindas da negridão. Não sentia nada, tinha só uma vaga noção de suas forças se esvaindo. Surpreendentemente, uma figura encorpada tomou seu confuso campo de visão.

Pedro.

O mendigo ajoelhou-se ao lado do moribundo:

– Era você… – Sumiu um momento e reapareceu com um caco de vidro lavado pelas águas celestes. Pertencia a uma garrafa quebrada.

– Acho que te matei… – Pedro aproximou seu rosto do de Ramon:

– Pode falar? – Ramon assentiu, dolorosa e vagarosamente, a mexida de crânio fora tênue, quase imperceptível, mas o interlocutor a compreendeu. O fantasma balbuciou algo. O mendigo inclinou o ouvido, e depois afastou-se, pacífico. Contemplou longamente a fronte do rapaz.

Foi mirando aqueles fortes olhos que Ramon faleceu. Lavado, se rendeu.

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