Anedota #16

Abomino a destruição do que é bom, do que funciona para o bem comum e foi construído a muito custo. As pessoas da minha geração, e as mais jovens do que eu, não parecem compreender quanto sangue, suor e lágrimas escorreram para tornar a nossa civilização possível; por isso destroem, por isso querem “mudar tudo” sem nunca pensar no penoso processo de reconstrução, o qual, acredito, seria tarefa inalcançável para a maioria dos modernos acostumados a facilidades incapacitantes e fingida polidez excessiva.

Moro agora em Bragança Paulista, que apesar de ter seus problemas — sensivelmente agravados após a estadia de um certo partido no poder — é quase um paraíso perto de Recife, cidade onde nasci, cresci e sobrevivi.

Dois anos após me mudar para cá ainda me encantava com as praças e ruas razoavelmente limpas, com o povo educado no comércio, com os carros parando para dar passagem, com os modos mais comedidos da população, com a baixa quantidade de crimes graves. Não era a perfeição, mas em termos de Brasil, era bela e funcionava harmoniosamente.

Numa tarde em que eu estava muito puto — acabara de ser sacaneado no trabalho — fui buscar minha noiva no serviço dela e decidimos sentar na praça central, ali perto, a fim de relaxar e conversar, pois o dia dela havia sido igualmente estressante.

Nem tínhamos começado o diálogo quando notei, mais adiante, um grupo de adolescentes metidos a roqueiros vandalizando uma das lixeiras da praça. Notei que a lixeira certamente quebraria se continuassem e não me contive: levantei já espumando e ordenando que parassem com aquilo, berrando que manter uma cidade funcionando não era fácil!

Um deles, justamente o mais franzino, fez cara feia e menção de vir em minha direção, mas teve o braço prontamente segurado por um colega assustado. Os outros só me olhavam atônitos, receosos, talvez, de que eu fosse além das palavras.

Pude sentir olhares de aprovação ao meu redor. Eu só queria parar a destruição gratuita.

Foto do Bragança Jornal Diário.

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