Anedota #22

Contarei as coisas mais ou menos como me foram contadas por um senhor ex-garimpeiro que conheci na praça central aqui de Bragança Paulista, omitindo as minhas interrogações e observações, pois só a história importa. O que o levou a se abrir tanto comigo, não sei, mas agradeci a confiança.

“Lá no garimpo a vida é dura. Vejo o povo daqui reclamando de umas ninharias e fico só olhando pra cara. A gente não pode nem levar nossas mulheres; no garimpo que eu fiquei, ninguém levava, porque se alguém olhasse um pouco só pra mulher do outro, pronto, morria. Não podia nem olhar, nem levantar a vista, dava briga; briga feia. Aí a gente evitava. Tem uns garimpos que até permitem moça, mas é perigoso. Fora isso, lá no garimpo era tudo de todo mundo, e não era possível o cabra fugir sozinho, se fizesse besteira. Nos resolvíamos lá dentro.

Ficava todo mundo isolado, quase mata fechada mesmo… dá para dizer que era mata fechada, viu? O medo maior não era nem de cobra nem de onça, que pra esses a gente tinha jeito; a praga eram os índios. Só gosta de índio quem mora em cidade…Veja, vou te contar uma coisa, uma coisa que até hoje não contei pra ninguém, só sabe dela quem fez.

Teve um dia aí que a gente conseguiu achar uma pepita, pepita de ouro, grande, aí deixamos ela pendurada no refeitório. Era uma beleza, a gente olhava, olhava e não cansava de olhar. Quem gostava era o cozinheiro, que cozinhava ali olhando o ouro. No dia seguinte, descemos pro trabalho, todos animados, naquela esperança de achar outra pepita, esperança imbecil, porque se achou uma, não acha mais não, e quando voltamos tá lá o cozinheiro morto, ensangüentado, furado, e não tá lá a pepita.

Foram os índios. Tinha uma tribo lá perto, só que nunca havia mexido com a gente. Rapaz, o sangue ferveu. Todo mundo sabia que era preciso dar uma resposta à morte do cozinheiro e ao roubo da pepita, mas ninguém pensava direito no que fazer.

À noite, estávamos reunidos no quarto, éramos uns dez, e enquanto a gente discutia o que fazer, o goiano, caladão, olhando meio de lado, falou pela primeira vez desde que eu o tinha conhecido. Foi a única vez que ouvi a voz dele. Ele disse que a gente tinha de descer e matar a tribo inteira, e disse numa calma que eu senti até a noite esfriar. Todos ouviram calados, e todos concordaram. Eu concordei a contragosto, pra ninguém me acusar de ter colaborado com os índios.

Antes do dia terminar de surgir, fomos com revólveres, machados, facões, fomos com tudo para a tribo; seguir rastro de índio não é difícil, e eles não moravam longe.

Foi uma chacina. Pegaram todo mundo. Sem necessidade até, sabe? Mulher, criança, velho…. Estava lá a pepita. Eu matei também. Entrou ali é matar ou morrer, né? Tentei impedir que cortassem as crianças, mas eles não me ouviam. E o goiano, rapaz, o goiano parecia em casa.

Até hoje — isso faz mais de vinte anos — até hoje acordo com o choro das mulheres, com o grito dos meninos. Índio não presta, mas matar criança é errado, né? Por mim era pra ter morrido só os homens.”

O garimpeiro tinha lágrimas nos olhos quando terminou o relato, e eu estava sem palavras, não havia saído de casa esperando esbarrar numa história dessas na rua. Agradeci a confiança e fui embora.

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