Anedota #8

Morei, durante quase vinte anos, no terceiro andar de um modesto prédio que se localizava em Boa Viagem, ou na Imbiribeira, ou em Setúbal, a depender do ano e de quem falava. Ao menos, era indiscutível que ficava em Recife.

Poucos anos depois da minha família ter se estabelecido no local, uma favela surgiu, um desses aglomerados de madeira e papelão que tomam as calçadas e enchem as ruas de crianças sem grandes perspectivas. No começo foi tudo bem, inclusive fiz amizade com os garotos da favela; porém, com o passar dos anos, a maioria dos meus colegas de infância foi em busca de uma vida melhor – somente um se voltou para o crime – e a violência recifense cresceu numa velocidade impressionante; não demorou para que a minha rua, que já não ficava numa região tranqüila, começasse a cobrar sua taxa de sangue.

Tiros se tornaram corriqueiros – praticamente toda semana morria alguém ali – e eu ainda tinha de ir à escola. Eu trafegava pelo cenário numa espécie de estupor, às vezes passando rente a sangue fresco no asfalto ou na calçada, cumprimentando os conhecidos sem saber se os veria novamente e pedindo a Deus que trouxesse minha mãe a salvo da UFPE, onde dava aula até as 22:00.

Infelizmente, como acaba acontecendo cedo ou tarde com a maioria dos brasileiros, me dessensibilizei com a situação, e numa noite, ao escutar os tradicionais estouros, cheguei ao cúmulo de gracejar:

– Eita, partiu mais um!

Eu mal havia acabado de falar, ouvi o berro desesperado de Cristiana, vizinha do térreo:

– Mataram meu marido! Mataram meu marido! Por que mataram meu marido?!

Empalideci e corri à varanda. A pobre mulher jogava loucamente os braços para cima e corria perdida, sem chão, destroçada, entre gemidos e lágrimas.

Pois tinham matado Severino, o simpático e trabalhador pai de família que morava em um dos três apartamentos do térreo.

Depois ficamos sabendo que ele havia se alterado numa discussão de bar e voltado em casa para pegar a peixeira, surdo aos apelos da mulher. Só que o sujeito com quem ele arranjara briga era matador e estava no bar à espera do alvo.

A história não termina aí.

A família de Severino, possessa por fúria, conseguiu enviar o matador ao inferno num túnel próximo. Como resposta, algum parente ou amigo do criminoso despachado invadiu o terreno do prédio na surdina da madrugada, achegou-se à janela do filho de Severino e disparou contra o bebê órfão. Errou os disparos por centímetros.

A providência tomada pela mãe foi mudar-se para o prédio de trás…

Todo esse caso curou a minha apatia de uma vez por todas, e quando fui assaltado por um bando n’uma rua adjacente, poucos anos depois, ao voltar da faculdade, esperei serenamente a morte, que graças a Deus, não veio.

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