Anedota #26

Quando eu era criança, considerava passar fins de semana na casa de minha tia tão bom quanto ir à Disney, ainda que eu nunca tivesse ido à Disney. Até hoje não fui. Aliás, até hoje estou como o mestre Ariano Suassuna.

O que acontecia é que eu adorava assistir a filmes, e passar lá o fim de semana era sinônimo de divertidíssimas idas à locadora e noites cinematográficas.

Numa dessas noites, a casa estava mais cheia do que de costume, pois além das moradoras habituais e de mim, estavam também meu primo mais velho, o noivo de minha prima e o sobrinho da antiga empregada da família; só que, da rua, tudo parecia quieto como sempre, era uma casa espaçosa e as luzes acesas nos cômodos mais ao fundo não apareciam na fachada. O silêncio era o mesmo de sempre.

Bom, criminosos são covardes, então tendem a ir nos alvos mais vulneráveis, e aquela casa, residência de mulheres, umas das quais quase octogenária, parecia boa aposta.

Ouvimos barulhos vindos da garagem e ficamos atentos; a velha pastor-alemão latiu no quintal. Por fim, escutamos vozes abafadas.

Todos se encontraram no corredor quase ao mesmo tempo e as armas foram convocadas. Minha prima pegou uma balestra, meu primo mais velho empunhou sua arma de pressão, o noivo da minha prima pegou um revólver velho, herança do meu avô, o sobrinho da empregada contou com um facão e eu catei meu estilingue.

Fomos para o grande terraço e nos acercamos do portão, de frente para a entrada da garagem. Alguém, não lembro quem, gritou que já sabíamos que tinha gente tentando entrar e que não íamos deixar. Em complemento ao aviso, meu primo deu um tiro de chumbinho na porta da garagem e recarregou a carabina com rapidez que eu julgava impossível.

Eu não quis ser menos macho e atirei uma pedra.

A pastor latia no quintal, e a poodle começou a latir também, dentro de casa.

Após pouco minutos, percebemos uma movimentação algo desastrada nos fundos da garagem e nos arredores, e dois de nós foram até a porta da cozinha. Eram os ladrões fugindo.

Depois desse caso, levei o revólver de espoleta para os meus fins de semana na casa da tia até proibirem a venda dessas armas.

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