Um Caso de Nova Coimbra

Nova Coimbra era uma miniatura de metrópole cravada em algum lugar do Brasil, recheada de prédios sujos, preenchida por odores subidos das sarjetas, beberrões, e contendo sua cota noturna de sangue. No entanto, poucas vezes a cidade havia presenciado crime tão bárbaro.

Os flashes clareavam as janelas toda vez que uma foto da sangrenta pintura era batida. Numa saleta apertada, peritos, guardas e investigadores espremiam-se para trabalhar diante de dois cadáveres femininos lacerados à machadadas; mãe e filha. A mulher mais velha tinha deslocada e cortada a mandíbula, e trazia aberta a lateral da cabeça. A filha portava hediondo corte na face direita e brutal fenda no topo do crânio. Estava a jovem caída mais pro canto, perto da janela, e a pobre anciã despejada no meio do exíguo cômodo.

Davi Hermano, inspetor de eterno terno amarrotado, piscou o isqueiro e acendeu o Lucky Spark, as sobrancelha baixas, os olhos negros pregados numa esguichada mancha de morte no tapete, a vários centímetros da mãe assassinada.

Saboreou o fumo e expeliu devagar a fumaça, congestionando o já denso ar do quase cubículo. Seu parceiro, Guilherme Abreu, novato no posto, acudiu ao parapeito a fim de absorver qualquer frescor que a noite estivesse disposta a distribuir.

Mais flashes.

Ouviu-se um murmurar de vizinhos e curiosos sendo desbaratados, impedidos de entrar na cena do crime, projetando sombras sobre o já tenebroso quadro. Quando fosse oportuno, todos os residentes do terceiro andar, e dos andares adjacentes, seriam interrogados, era o que um oficial qualquer dizia. O legista, o calvo e chupado Dr. Guimarães, que dormindo certamente poderia ser tomado por um de seus mórbidos pacientes, escrevia velozmente, agachado perto das vítimas, em seu habitual bloco de notas.

A macabra pincelada no tapete, certamente feita pelo demônio, continuava a atrair a atenção de Davi, e o ato de fumar, como sempre acontecia quando se encontrava diante de uma cena monstruosa, tornou-se mecânico. Já não saboreava a nicotina, e poder-se-ia dizer que o inspetor navegava perdido nos rubros mares daquela lua incomum.

Em cima de uma escrivaninha encostada na parede, a arma do crime, uma machadinha afiadíssima, jazia inofensiva. Fora encontrada na privada.

Mais flashes.

Davi foi resgatado de seus devaneios por Abreu, que, postado ao seu lado, estudava a triste composição com aspecto grave de quem quer mostrar serviço sem estar realmente pronto para fazê-lo.

Disse o colega:

– Não acha que devemos interrogar o síndico?

– Por que o síndico? – Hermano tirou o cigarro da boca e olhou confuso para o companheiro.

– Síndicos costumam saber das coisas que acontecem nos prédios, não?

– Eu começaria com algum vizinho imediato, se fosse você, mas faça como achar melhor. – Voltou a fumar.

– Não vem comigo?

– Por que eu iria com você?

– Porque é meu parceiro? – a voz de Guilherme traiu a insegurança, e o rapaz ficou incomodado.

– Seu parceiro, não sua babá. Vá lá e mostre que vale alguma coisa. – Rebateu, impassível, Davi, observando o fotógrafo. Quando a luz inundou brevemente a saleta pela enésima vez, o inspetor soltou: – Ei, já chega de fotos, sim? Vai parecer que você tem uma queda por mortas.

O fotógrafo, sem graça, assentiu, mudo, e abriu caminho pelos homens para sair do recinto, visivelmente abalado. Guilherme, meio atabalhoado, depois de lançar ao seu parceiro um trêmulo olhar de dúvida, também saiu.

Davi acabou o cigarro e apagou-o num cinzeiro que ali havia. Todo o apartamento estava na mais perfeita ordem, perturbada apenas pelos grotescos cadáveres ao piso. O inspetor dirigiu-se ao ossudo legista:

– Dr. Guimarães, que me diz?

– Não digo nada, nunca digo nada…

– Antes de um exame mais detalhado. Sei. Que me diz? – o médico encarou o investigador, de baixo, e levantou, passando assim a encará-lo de cima, severo.

– Eu digo que é uma pena vidas terminarem deste modo, Sr. Hermano.

– Quanta força é necessária para que as mulheres tenham sido tão… danificadas?

– Bastante força, Sr. Hermano. Quem fez isso era grande, parrudo.

– Ou não. Dê licença, Dr.

Davi foi até a janela e inspirou o ar carregado de segredos de Nova Coimbra. Muitos apartamentos no horizonte mantinham acesas as luzes e nas vias, lá embaixo, punhados de carros trafegavam indo ou vindo de qualquer diversão notívaga. O silêncio, porém, era marcante, embora não total, e somente teimosos cães, que ladravam não se sabia onde, conseguiam incutir nele notas de desacordo.

As sobrancelhas de Davi comprimiram-se novamente e mais um cigarro foi aceso. Fumou tranquilamente sem dar qualquer consideração ao que se passava atrás de si. Deixou morrer os ruídos, as conversas comedidas; até os latidos tornaram-se vagas lembranças da realidade.

Atirou na calçada a bituca e voltou-se para dentro. Viu Guilherme Abreu se aproximar e dispensou-o com gestos bruscos. Dirigiu-se às pessoas:

– Preciso falar com o chefe. Saiam daqui, por favor, o trabalho de vocês por hoje acabou, muito bem, etc, etc. – Gesticulou, como se enxotasse pombos. Sem parar para contemplar o efeito de suas palavras, foi até o telefone, tirou-o do gancho e ia discar quando reparou que Abreu continuava na sala.

– É surdo, rapaz? – segurava o fone à orelha.

– Hermano, me advertiram de que o Sr. era um pouco esquisito…

– Eu sei quem é o assassino, não me atrapalhe, vá embora e não diga que eu disse isso a ninguém.

Guilherme ficou por demais perplexo pra falar, demorou para concatenar sílabas:

– Como…

– Ô rapaz, não estou a fim de dar aula agora. Some. E bico fechado.

Atordoado, o novato deixou o parceiro em companhia das defuntas e foi embora. Davi, então, direcionou seus pensamentos para o telefone e discou os números. Pediu para falar com seu superior e passou-lhe as suas impressões. O chefe já conhecia o trabalho de Davi Hermano há anos, e não seria naquele momento que começaria a duvidar de seu mais eficiente agente, por mais absurda que fosse a teoria aventada por ele.

Portanto, foi permitido que Davi passasse o restante da madrugada no apartamento amaldiçoado, e ficou garantido o sigilo mesmo dentro da força policial. Para o plano funcionar, fazia-se necessário que ninguém, exceto os dois homens que falaram ao telefone, soubesse da prolongada estada do investigador na cena do crime. Eles tinham que se manter em contato e nada podia ser mexido.

Davi desligou as luzes e retirou-se para um dos quartos da casa, mais alcova que quarto propriamente dito, a bem da verdade, tão miúdo era. Andou desconfortável pelo ambiente abandonado, tentando não imaginar que tipo de existência levavam as desgraçadas covardemente eliminadas.

Não abriu gavetas ou armários; a prateleira com livro permaneceu intocada.

O terceiro cigarro foi aceso, o quarto, o quinto…. Ao perceber que o maço havia terminado, Davi praguejou baixinho, o amassou e jogou-o aos pés duma velha cadeira estofada. A alcova tinha mais móveis do que seria aconselhável.

Aos poucos, as luzes no horizonte foram se extinguindo, os carros rareavam, só de vez em quando um cachorro latia para algum felino desavisado que passeava nos limites dum quintal proibido. A hora mais negra instalou-se em Nova Coimbra, e dificilmente tal hora surpreendia alguém de bem perambulando sozinho à fraca benção dos postes públicos.

Davi esperou, só lhe restava isso, e torceu para que seu chefe também estivesse a exercitar a paciência trancado no escritório.

Às quatro da manhã, sentado na cama, ouviu a única porta de entrada ser aberta delicadamente. Sacou sua pequena Beretta, destravou-a, e surpreendeu, junto às mortas, Francisco Menezes, o fotógrafo.

Enquanto o assassino recuava, embasbacado, tendo ao alto as mãos, Davi falava:

– Muitas fotos, meu caro. E desde quando um fotógrafo forense de razoável experiência sai tão abalado de uma cena? Os golpes fortes atribuo aos ossos do ofício… fotografar deixa os braços firmes, não?

– Não pode provar nada! Nada!

– O chefe já ouviu o que tinha de ouvir, – indicou o telefone fora do gancho, – acabou.

Francisco saiu de si e puxou a pistola, mas Davi já tinha o dedo no gatilho. O estampido surdo ceifou a terceira vida da noite naquele triste apartamento, e logo os lares próximos, nos prédios do entorno, voltaram a emitir luz. Sentiu-se a tensão dos vizinhos.

Vazio de alma, o inspetor Hermano, após observar longamente o colega caído, deixou a sala.

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