Cotidiano #3 – Da flatulência

Acampei várias vezes, durante a adolescência, no Palavra da Vida, retiro evangélico focado na salvação das almas, repleto de regras e bastante exigente com a disciplina. Por exemplo, a turma que deixasse o quarto mais desarrumado no dia recebia punição após o almoço, isto é, choque ou banho de água suja com os restos da comida servida no refeitório.

Tínhamos, contudo, algumas horas livre durante as manhãs e tardes, e numa das tardes preguiçosas após o almoço, eu estava sentado na varanda do quarto Escócia, ou era outro quarto, tanto faz, alheio à guerra de toalhas molhadas que era travada a poucos metros de mim, bem no centro de uma das principais clareiras dos dormitórios masculinos – é que, veja, os quartos dos rapazes eram, basicamente, no meio do mato, numa larga encosta, sujeitos a sapos, cobras, caranguejeiras, escorpiões e o que mais a nossa exuberante fauna quisesse oferecer às camas, malas e cobertas.

Pois bem. Estava eu sentado quando, em meio ao som das lapadas cantando nos lombos dos mais descuidados, escuto aquela exclamação ejaculatória, proibida, aliás, no acampamento.

Alguém tinha usado um simulacro de arma química na guerra de toalhas.

Um dos rapazes, provavelmente o mais afetado, cambaleou com uma mão ao nariz, e o outro, que havia soltado a exclamação proibida, terminou de expressar sua indignação:

– Você peidou?! É louco?!
– Peidei. – Disse o gordo, todo vermelho de porrada. É lasca, tinha de ser um gordo.
– Mas tu é crente!
– Ôxe, crente não tem cu, não?

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