Trechos de “O Brasileiro Sonhador”

Ian foi a outros acampamentos de igreja em idades variadas.

O primeiro deles foi em Jacumã, na Paraíba, quando tinha treze anos de idade. A congregação ficou na casa de um dos pastores, uma espécie de sítio completamente isolado a mais de dois quilômetros da igreja mais próxima e a centenas de metros acima do mar.

Ir à praia ali, aliás, era um desafio tremendo. Ian mesmo apenas se animara a descer um par de vezes, e em ambas teve que se agarrar a troncos mambembes e conferir a firmeza do solo antes de pisar de verdade. Na segunda descida, parou abobalhado para contemplar o corpo rolante do tecladista do grupo de louvor. Deus o protegeu: o rapaz arranjara somente uns arranhões e chegou à areia mais rápido, muito embora não tenha entrado na água.

Uma vez lá embaixo, contudo, não havia como negar a beleza deserta da praia e o encanto da suave valsa das ondas. O céu frequentemente nublado servia somente para conferir maior mistério ao cenário e para deixar o mar gelado.

Um casal de acampados aproveitou o isolamento para se conhecer biblicamente, para além de uma rocha furada que adornava a paisagem – Ian ouvira a conversa sem querer na hora do jantar.

O que mais marcou o rapazote, porém, foi a ida para o templo batista erigido no meio do nada, ou assim a coisa lhe pareceu. A precária estrada sinuosa de terra ladeada por capim amarelado, entre o qual só se via um cajueiro torto, iluminada pelo sol poente, tornou-se imagem recorrente em seus devaneios melancólicos. E o templo era azul… ou estava azul… azul meio céu, meio mar… um azul que ele jamais vira igual e pensava ser impossível de reproduzir.

 

O segundo acampamento, com a mesma congregação, foi n’algum colégio do interior pernambucano, local grande com duas quadras, piscina, refeitório, auditório e muito espaço extra. Três salas de aula serviram como dormitórios, e foi ali que Ian teve o primeiro contato efetivo com o skate e com um solo de heavy metal.

Havia um skatista entre os acampados, rapaz visitante de outra igreja, jeito de surfista e bastante simpático. Ian meteu na cabeça que queria aprender a andar naquilo e o outro prontamente cedeu o skate para o novato. Sem demora, Ian aproveitou o espaço de uma das quadras para deslizar e cair inúmeras vezes; já na segunda tarde havia atraído plateia, fosse por sua determinação férrea ou por suas quedas perigosas. Quando conseguiu guiar a prancha sem cair e fazer uma curva, a arquibancada irrompeu em vivas e aplausos.

O retiro não tão espiritual acabou antes de Ian conseguir aprender alguma manobra, mas já sabia correr, e correr bastava.

Foi no início da terceira noite, após o banho, quando todo quebrado retornava ao seu dormitório, que ouviu uma estendida nota aguda e suplicante bradar aos céus. Ele estacou e virou a cabeça em direção ao auditório, escondido de sua vista por uma imensa parede branca. A nota solitária e duradoura desfez-se em sucessivos arpejos menores e o espírito do rapaz se encantou. Um outro jovem, que o havia notado quase extasiado, pôs a mão em seu ombro e disse que aquele era o som do martelo. Martelo de Cristo, Ian soube logo em seguida, era a banda de metal cristã composta por membros daquela igreja.

Esse mesmo rapaz que esclareceu o que Ian ouvia, filho de um dos pastores, e um dos guitarristas do grupo, engravidou uma adolescente nesse acampamento. O casamento da dupla foi feito às pressas e a banda desmanchou-se; O solo foi o único trecho musical que Ian ouviu do Martelo de Cristo, mas foi o suficiente para fazê-lo comprar um álbum de metal assim que voltou à Recife.

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A música alta, estrondando, era uma constante nas tardes e noites de Ian – e de seus vizinhos. O rapaz ouvia e reouvia as músicas favoritas dos CDs preferidos, e dentro da própria mente era muitas coisas enquanto fazia isso: salvava o Egito; salvava o mundo; salvava Relenna, um mundo fantástico que cruzava, ao lado de celebridades da música e do cinema, num navio voador; salvava garotas diversas e recebia os devidos agradecimentos, muito embora, vez ou outra, negasse maiores aproximações, como o verdadeiro cavalheiro que lhe convinha ser.

Suas façanhas eram repletas de explosões, reflexos impossíveis, exibições de artes marciais que fariam inveja a qualquer Chan ou Lee e poderes místicos dignos de quadrinhos japoneses. Além disso, o mundo sempre o estava assistindo, especialmente aquelas garotas especiais, aqueles rivaizinhos invejosos, políticos de grande importância e celebridades no geral.

Ian genuinamente precisava daquilo, ansiava pelo escape proporcionado pelas aventuras imaginárias. Saía do quarto suado, fedendo mais que timbu amuado, e com o ego espantosamente fortalecido.

Descarregava todas as frustrações e a desorganização de sua vida em guerras lutadas à cavalo, corridas mortais, embates com tigres e dragões, proezas sexuais, austeros momentos de conformação e planejamento… um herói completo.

Horas depois do banho, quando ia dormir, já estava vazio novamente. Já mais nada esperava da vida.

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Ian voltava da escola pelo atalho, uma rua de terra que desembocava em trilhos de trem, e decidiu parar no meio da via férrea assim que viu, como miragem, o trem de carga. A máquina vinha, e Ian mesmerizado a aguardava. O menino de onze anos parou de pensar em tudo, ficou leve, braços ao longo do corpo que já tremia com a aproximação do monstro metálico. Largou a mochila no chão e virou-se completamente de frente para o seu destino.

Dois pedreiros que almoçavam encostados ao muro o chamaram, mas Ian demorou para ouvir. Ao escutar, olhou para a dupla, um deles já estava de pé, e saiu do transe. Diziam que era perigoso, que saísse dali. Ian pegou a mochila e saiu da frente do trem a segundos de ser atingido.

Caminhou tranqüilamente para casa, alheio ao terremoto.

 

 

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