Crônica #4 – O Velho no Telhado

Ontem, voltando do mercado, parei para descansar num banco quebrado de uma praça mal cuidada, e tão logo ergui a vista para o horizonte me alarmei. Um senhorzinho sem camisa, com mais de setenta anos, andava pelo telhado de casa, ia em direção ao pedreiro que, lá na outra ponta, removia telhas. O andar do velho ainda guardava parte da confiança de anos passados, mas ele ia cuidadoso, certamente menos ousado do que gostaria, e mesmo assim quase escorregou.

Eu pensei logo: “Cadê os filhos desse homem pra impedir uma barbaridade dessas? Se cair, já era!”.

E fiquei lá, tenso, esperando assistir a morte de um idoso.

O velhinho, contudo, se provou felino e chegou junto do pedreiro. Conversaram, apontaram aqui, mexeram lá… o velho começou a tirar telhas, queria acompanhar o serviço de perto. O pedreiro fazia aquela cara de gentil indiferença, certamente não achava que tantos cuidados extras fossem necessários para garantir o sucesso de um trabalho tão simples.

Passou por mim, então, uma bela bunda enfiada num cinto jeans e eu olhei bem. Quando voltei minha atenção para o velho, o homem estava deitado no telhado com os olhos a poucos centímetros da furadeira em pleno funcionamento.

“Esta porra é louca!”, pensei.

Mas depois outro sentimento foi se apoderando de mim: admiração. Aquele digno senhor, mesmo depois de tantas décadas, continuava atento às suas responsabilidades, qualquer aspecto da própria vida que podia tomar nas próprias mãos, tomava. A feitiçaria moderna que derruba tantos bons senhores, tantas generosas senhoras, convencendo-os de que são retardados quase imprestáveis, não tinha qualquer efeito naquele velho, e ele ganhou meu respeito.

Ele podia ter caído do telhado? Podia, mas se caísse, morreria como um homem cumpridor de seus deveres, como um ser humano admirável que não se havia curvado ao peso dos anos; como alguém que olharia para muitos de nós, jovens modernos, com decepção e triunfo acompanhados por caridade.

E eu ali descansando. Tomei vergonha na cara e levei ligeiro as compras pra casa, ladeira acima.

 

01/04/2018

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