A Chave

Aviso: Este foi o meu primeiro conto, escrito em 2006. Não pretendo encaixá-lo em livro algum, mas também não gostaria de descartá-lo ou de fingir que ele não existe. Achei uma idéia razoável postá-lo aqui.

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Ele acordou em um chão forrado por folhas secas e gravetos retorcidos, com um cheiro de terra molhada tomando conta do ambiente. Estava deitado de bruços e levantou a cabeça devagar, tentando absorver todos os detalhes do lugar.

Era uma floresta.

As árvores tinham troncos grossos e galhos fortes, robustos. Canções de pássaros eram ouvidas ao redor, e soavam como um sorumbático uníssono.

Ele esticou os braços contra o chão para se levantar e virou para o lado, sentando. Suas roupas estavam sujas e ele tinha terra na bochecha, assim como nos cabelos. Fachos de luz solar atravessavam as folhas altas e formavam variados pilares de iluminação, moldando um estranho caminho à sua frente. Os cantos dos pássaros prosseguiam, mas o homem não conseguia vê-los.

“Onde estou ?”, pensou ele enquanto olhava para os galhos das árvores à procura dos pássaros. “Eu desmaiei… acho.” Continuou. Começou a andar e viu algo piscando sob um dos feixes de luz solar. Aproximou-se e encontrou no local uma grande chave de ferro, já repleta de ferrugem, com poucos espaços rutilantes.

Abaixou-se e pegou o objeto, o levou à altura dos olhos para examiná-lo melhor. Era uma chave velha, larga, retorcida e enferrujada. “Que porra é isso ? Eu estou ficando doido ?”. Guardou o instrumento no bolso da calça e instintivamente apalpou as roupas para ver se estava com a carteira, a caneta e a chave do carro. Não estava com nada. Enrugou a testa e volveu a cabeça um pouco para o lado, pensativo. “Que diabo está acontecendo?”. Olhou para o chão, com as mãos na cintura, e refez o dia mentalmente.

Havia voltado de seu consultório de psicologia, discutindo com a noiva assim que chegara em casa, e começado a beber uísque enquanto a mulher permanecia trancada no quarto, provavelmente ao telefone. Depois, lembrava-se apenas de ter acordado ali. “Estou bêbado.” Olhou para a mão direita e viu que o anel de noivado também não estava lá. Enrugou de novo a testa e ficou olhando para a mão. Em seguida, deu uma nova geral no lugar idílico em que se encontrava. “Dessa vez eu bebi”. Respirou fundo, ainda confuso, e pôs-se a andar pelo corredor de árvores e fios  luminosos, vez por outra ainda tentando localizar os pássaros, sem sucesso.

Depois de longos minutos andando, começou a se incomodar por não ver nenhuma forma de vida no lugar, com exceção dos pássaros, incansáveis, que ele sabia que estavam lá mas não via. “Falando sério, o que é que tá acontecendo comigo? Estou começando a ficar preocupado.”

Tirou a chave do bolso duas vezes para olhar enquanto andava, recolocando-a pouco tempo depois de tirada. “O que é que isso abre?”, pensou em uma das vezes, “Se é que isso abre alguma coisa.” Refletia ainda sobre o absurdo de sua situação quando viu, a certa distância, uma superfície lisa refletida à luz do sol. Um lago. “Um lago?”

O homem começou a andar mais rápido, pois descobriu que tinha sede. Ao chegar em frente ao lago, ficou fascinado ao ver que suas águas eram claras, transparentes. Olhou defensivamente ao redor e, ao perceber que realmente não havia ninguém, principiou a tirar a roupa lentamente, sempre atento a qualquer aparição. Os pássaros ainda cantavam.

Bateu a camisa com as mãos para tirar a sujeira e colocou-a dobrada sobre uma pedra. Tirou o cinto e o enrolou sobre a camisa. Antes de tirar a calça, porém, tirou a chave de dentro do bolso. Não sabia o porquê mas achava melhor estar carregando o objeto.

Entrou no lago com a chave e notou que, apesar de ser amplo, na outra margem ainda conseguia enxergar mais árvores, idênticas as que já tinha visto. Sorriu por um momento. “Estou nu, segurando uma chave velha e nadando em um lago de uma floresta deserta. Uísque é perigoso”.

Ele tentou várias vezes se lembrar do que havia acontecido após começar a beber mas não obteve sucesso. Foi um pouco mais para o fundo do lago e, através da água de uma clareza pura, viu um grande peixe com mais de cem nadadeiras de cores diferentes e olhos grandes e esverdeados. Tomou um susto e recuou apressado, mas o peixe estava no próprio território e logo estava na frente dele de novo. Era um peixe grande, do tamanho de um pastor alemão adulto mais ou menos. O homem estava ficando meio apavorado.

Foi então que o peixe falou. E quando ele falou, os pássaros se calaram, voltaram a cantar apenas quando a criatura aquática silenciou. O peixe disse:

– Tenha certeza quando avistar o muro. – Mas o homem ficou tão abismado com aquilo que nada respondeu, embora seu subconsciente estivesse fervilhando de perguntas.

O peixe então se afastou, nadando com charme e desaparecendo, nadadeira por nadadeira, até sumir por completo diante dos olhos do estranho que havia acordado naquela floresta.

O homem, por sua vez, não pensou duas vezes antes de sair correndo do lago e se vestir, sempre observando apreensivo a água.

Estava achando que tudo aquilo era um sonho louco, um delírio causado pelo excesso de álcool, mas, por mais irreal parecesse, o que estava vivendo ali era realidade. Segurou a chave firme e pensou nas palavras do peixe. “De que muro ele estava falando?” Depois fez uma careta “E por que eu estou pensando no que um peixe me disse?”. Recomeçou a andar, contornando o lago, sempre olhando para a água.

Após certo tempo caminhando, estava seguindo nova trilha por dentro do enigmático recanto em que despertara. Havia refeito seu dia duas vezes e estava cada vez mais convencido de que aquilo, de algum modo, era a realidade.

Cansado, sentou-se, encostado a uma das milhares de árvores. Seus pensamentos vagaram no limbo do nada que habita as mentes exaustas até chegar no rosto de sua noiva. Sentia saudades.

Levantou-se e recomeçou sua jornada rumo a algum lugar. Depois de andar um bocado, encontrou, em uma pequena clareira, provavelmente aberta pelas mãos de uma só pessoa, uma pequena casa de madeira com telhado de pedra.

Sorrindo à maneira dos imbecis, praticamente correu até a habitação e bateu vigorosamente na minúscula e encurvada porta. Os pássaros ainda cantavam.

-Por favor! Estou perdido aqui! – Dizia enquanto esmurrava a tábua de madeira. Parou de tentar quando viu que não teria resposta. Encostou então o ouvido no lugar que suas mãos antes socavam, tentando escutar algo que denunciasse a presença de algum tipo de morador. Nada. “Se eu arrombasse…não, pode ser que tenha alguém aí, alguém armado…” Foi só aí que ele percebeu a fúria com que tinha atacado a pobre porta. “Eu também estaria armado do outro lado…”

Colocou uma mão sobre a parede da casa e tentou uma nova abordagem:

-Eh, desculpe, eu não queria assustá-lo, não é minha intenção fazer mal a ninguém. Só estou procurando ajuda. – “Lógico que ele vai abrir…” pensou, furioso com sua estupidez. Era um psicólogo e sabia muito bem que sua súbita mudança de comportamento teria um efeito contrário em quem quer que estivesse lá dentro.

-Olha, eu vou aparecer na janela, não atire, por favor…

-Poderia abrir a porta? Estou quase implorando. – Disse, quando deu a volta na casa e viu que não havia janela alguma. Pensava seriamente em invadir. O som dos pássaros o atormentava.

Resolveu pensar mais um pouco. Atrás da casa havia um poço de aparência bem velha. O homem sentou-se em sua borda. Refletia quando ouviu um rugido furioso ecoar pela floresta. “Vou arrombar.”

-Você ouviu isso? goste ou não, estou entrando! – Deu um chute vigoroso na porta, que tombou, revelando uma saleta vazia. Por um momento, ele não acreditou que estivesse tentando ter uma conversa amigável com o nada, mas, ao ouvir outro rugido, entrou e ficou apoiando a porta pelo lado de dentro.

Olhou outra vez para a chave. Qual seria a serventia dela? Começava a sentir vontade de chorar. Sua atenção, no entanto, foi desviada. Viu-se envolvido em um súbito silêncio. Até a atmosfera era outra. Com as sobrancelhas enrugadas de estranhamento, moveu lentamente a porta da casinha e pensou na possibilidade de estar louco.

Tinha diante de si uma estrada de terra ladeada por vastos campos. O silêncio imperava. Demorou para ele absorver aquilo, contudo, quando conseguiu assimilar a nova realidade, saiu da casa, arriscando alguns passos no novo território.

Quando olhou para trás, viu que a casa não estava mais lá. Não vendo outra alternativa iniciou a caminhada rumo ao norte, ou pelo menos assim lhe parecia.

À medida que avançava, divisava uma enorme silhueta à sua frente. Logo estava enxergando o maior muro que já havia visto. Lembrou-se então das palavras do peixe e parou. O medo tomava forma dentro dele. Não, não queria ir até o muro. Voltou-se para fazer o caminho inverso e deixou escapar um grito breve quando viu que o lugar de onde tinha vindo não existia mais. Era apenas um grande vão negro.

Só podia seguir para o muro, que parecia tomar todo o horizonte.

Ocorreu-lhe ficar parado, mas, ao observar que as trevas iam devorando o chão que ele havia pisado, raciocinou que era melhor continuar na direção que estava, e o mais rápido possível.

Não demorou para começar a correr, o pânico alastrando-se dentro de seu ser, transparecendo na sua face que de tempo em tempo virava para trás. A massa negra espalhava-se impiedosa. No íntimo, o que mais o agoniava era a falta de som daquilo tudo. Gritou mais uma vez e não conseguiu ouvir a própria voz.

Reconsiderou a hipótese de sonho, ou melhor, pesadelo. Corria e no fundo esperava acordar deitado no chão da sala com uma garrafa de bebida pendendo de uma de suas mãos. Sabia, porém, que aquilo não aconteceria.

Chegou, enfim, ao muro. Era muito alto, no entanto, suas pedras não eram regulares, o que possibilitava uma escalada. Não pensou duas vezes e encetou a subida, a escuridão cada vez maior atrás de si.

Alcançou o topo do muro e do outro lado viu uma grande espaço branco, um grande nada. Desesperado, olhou para a negridão e depois para a imensidão branca do outro lado da divisão de pedra. Incapaz de pensar no que fazer, com a mente travada, foi tragado pelas trevas e perdeu a consciência.

Não se sabe o que aconteceu com o seu corpo. Sua mente foi estilhaçada; sua alma, pulverizada.

 

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