O Ônibus Estranho

Esta não vai ser uma história fácil de escrever. Não vai ser fácil porque duvido da minha sanidade, e só escolho crer no que aconteceu por causa das marcas que ficaram em minha cidade.

A minha cidade é pequena, dessas nas quais todos se conhecem,

e eu morava num apartamento modesto, segundo andar, numa rua razoavelmente movimentada. Da janela na sala podia ver o mercado local, algumas lojas, e na esquina, o único hospital que tínhamos.

A minha vizinha, Kimberly, de vez em quando ia ao meu lar para oferecer café recém feito. Geralmente tomávamos juntos o desjejum, e depois cada qual ia trabalhar. Eu, na velha Rock House, loja de artigos de Hard Rock, Heavy Metal, essas coisas, e ela no hospital, faxineira.

Na manhã do dia 25 de abril o sol ficou tímido atrás das nuvens, piscando ocasionalmente para o mundo. Preparei o café só para mim, tasquei dois pães na torradeira e liguei o rádio, como de costume. Surpreso ao só ouvir ruídos do aparelho, mudei as estações. Não adiantou. Achei estranho, mas os pães pularam, prontos. Fui pegá-los, mas parei ao ouvir um motor velho, dado a estouros e rangidos. Acheguei-me à janela e senti o forte cheiro de fumaça mesmo antes de ver a comprida carroceria enferrujada do ônibus que acabava de estacionar ao meio fio.

Toda a lataria tremia violentamente e as poucas pessoas na rua, a pé ou a bordo de veículos, olhavam atônitas para o jurássico maquinário. Dentro do ônibus, a escuridão imperava. Cortinas, pensei. Quando o motor parou até ouvi os vidros sacolejando nos caixilhos. Não consegui desviar os olhos da janela, esperei alguém sair.

De fato, acompanhando um chiado terrível, a porta dianteira abriu vagarosamente, porém ninguém saiu.

Forcei-me a ir comer e tomar café, não podia me atrasar. Antes de sair, não me contive e dei uma espiada no ônibus. Os bancos, sem estofo, tortos, estavam visíveis, a escuridão se fora e aquilo me deu um calafrio pontudo. Claro que pensei no assunto pelo resto do dia, não tinha como ser diferente.

Eu devia estar transparecendo preocupação, pois Nina, colega de trabalho, falou comigo enquanto organizávamos as camisas de bandas em araras negras:

– Taylor, tudo bem? – meu nome é Adrian Taylor. Esqueci de mencionar.

– Sim, estou bem, por quê?

– Você tá com um olhar fixo e ainda nem reclamou do som. – Parei para escutar. Megadeth. Nunca gostei do Mustaine.

– Ah, a gente se acostuma com coisas ruins.

– Vai, o que foi?

– Você viu o ônibus que chegou hoje?

– Vi quando passei, não dei muita importância. Por quê?

– Nada. Me admira que aquela coisa ainda ande.

– Não sabia que se ligava em ônibus.

– Não me ligo… É que eu o vi chegar.

– E?

– Foi estranho, Nina. Deixa pra lá.

– Estranho como? – partimos para arrumar os vinis.

– Tudo estava preto dentro dele, e depois voltou ao normal. Dos bancos só restam os esqueletos. É muito estranho. – relanceei o olhar em sua direção e enxerguei nela aquele brilho característico das faces dos amantes de filmes trash quando estão diante de algum clássico ou lançamento no gênero.

– Você que ir até lá. – Disse.

– Vamos na hora do almoço. – Pediu.

– Não sei, Nina. O troço tá parado perto de casa. Pode ser perigoso. – Eu não devia ter dito que poderia ser perigoso.

– Só dar uma olhada!

– Tá bom. – Pus o disco do Van Halen no lugar.

 

Nina ficou ansiosa pelo resto da manhã. Acho que foi isso que manteve em mim tão viva a imagem do misterioso veículo naquele período. A toda hora eu a flagrava me lançando cúmplices olhares cobradores por entre o delineador negro.

Samir Taylor, outro colega nosso, com mais tempo de casa, que jurava ser meu parente, dispensou o assunto rapidamente:

– É um ônibus. – Reconheceu, com as bochechas balançando. – Um ônibus muito velho, mas nada de outro mundo. Agora trabalhem direito, as caras de vocês parecem estar levantando suspeitas entre os clientes.

– Quando Nuts chega? – perguntei.

– Ele não vem hoje, estou encarregado daqui, portanto, nem mais uma palavra sobre esse maldito ônibus, ok?

Assentimos sem ter a menor noção de que o trambolho parado perto de meu apartamento havia sido muito adequadamente adjetivado.

De todo modo, ouvi Nina falando do assunto com dois clientes, e o velho Phill, adorador do Saxon, achou por bem comentar comigo:

– Aquele ônibus está estacionado bem perto de você. – Nunca entendi a razão dele visitar a loja, já tinha tudo o que dizia respeito a qualquer coisa que o interessasse.

– É, eu notei. Moro lá.

– Não te dá calafrios? – olhei para um pôster do Dio afixado à minha frente.

– Não, Phill. Posso ajudá-lo? – senti um arrepio na espinha.

– Claro. Tem alguma coisa nova do Uriah Heep?

– Nova, não. – Encaramo-nos, ele balançou a cabeça.

– Metido a engraçado. Saiba que não haverá bandas melhores do que…

– Heep, Saxon, Wishbone Ash e Yes. Você não me deixa esquecer, Phill.

– Tenha um bom dia.

– Igualmente.

 

O horário do almoço chegou e me flagrei desejando que a hora não tivesse surgido, o que é idiota, pois isso significaria o fim dos tempos. Raciocinando melhor, desejei nada ter marcado com Nina, já era ruim o bastante ter aquele centro de tétano como vizinho temporário… Temporário! Ah, a esperança que me invadiu! E se a lata velha não estivesse mais lá? Eles não iam ficar na cidade pra sempre, certamente, bem podiam já ter ido embora!

Sorri para Nina quando ela veio me lembrar do compromisso.

Ao dobrarmos da Main Street, senti meu coração de chumbo. O ônibus estava lá, e mesmo à distância sua decrepitude derramava-se nos arredores.

Nina, franzindo a testa, mãos nos bolsos da jaqueta, falou:

– Meu Deus, eu não tinha reparado no estado lastimável daquilo!

– É, nada pra ver, se quiser voltar e usar o horário de almoço almoçando…

– Não! Nossa, como aquilo andou?! Venha! – e ela correu.

– Nina!

– Vem!

– Não precisa correr! – inútil.

Apertei o passo para ir mais rápido, cumprimentei a Sra. Hartridge, que quase sempre me oferecia chá, biscoitos, pastilhas e iniciava um discurso sobre como eu podia ter sido bem-sucedido na vida, frequentemente com uma mão enrugada no meu ombro e sincero pesar na fronte.

Acercamo-nos do ônibus, e de verdade, não pude entender como havia chegado ali, como funcionava! Tudo estava caindo aos pedaços, os vidros rachados ou quebrados, faróis inexistentes, carroceria totalmente carcomida pela ferrugem e até esburacada, parafusos faltantes… apenas os pneus, altivos, maciços e negros, prestavam para alguma coisa.

Fiquei mal próximo daquilo e reagi instintivamente ao ouvir o inacreditável pedido de Nina para entrar:

– Não, louca!

– Mas por quê?

– Não é seu. Você queria que algum estranho montasse na sua moto? – consegui conter o súbito desespero que havia se apossado de mim.

– Eu não me importaria, contanto que ele não a levasse embora.

– Você está vendo o estado disso aqui, pode se cortar.

– Sou vacinada.

– Vai correr o risco? Não me parece muito firme.

– Adrian, você realmente acaba com a diversão, sabia?

– Bom pra mim.

– Vou voltar. – Deu as costas.

– Eu vou almoçar em casa. – Não sei o que me levou a dizer aquilo.

Ela nada respondeu, só se despediu com um gesto e seguiu seu caminho. Observei-a até ouvir, incomodamente perto de mim:

– Uma puta máquina. – Virei-me. Nunca havia visto o homem antes, e ele fedia.

– Se você acha. – Olhei rápido para o ônibus.

– Não o ônibus, a sua amiga! – fez menção ao veículo com um displicente movimento de cabeça:

– Isso não é uma máquina, – riu. – É um pesadelo! – riu mais.

– É… pesadelo para os mecânicos… Bem, vou indo…

– Sou um demônio. – Estendeu-me a mão grossa e forçou um sorriso amistoso. Só sei que arregalei os olhos.

– Rapaz, a sua cara!… – riu gostosamente.

– É, posso imaginar. – Uma mistura de alívio e medo espalhou-se por dentro de mim. Continuei: – Bem, eu tenho que ir. – Nem fodendo eu entraria no prédio com um sujeito tão suspeito por perto. Assistia a séries, sabia que esse tipo de encontro nunca acabava bem e personagens como eu eram sacrificados.

– Ei, ei, não quis ser inconveniente. – Segurou meu braço.

– Bem, você está sendo.

– Frank Torres. – Soltou-me e tornou a apresentar a mão. Hesitei.

– Adrian Taylor. – Eu não queria ter dado meu nome real, mas simplesmente saiu.

– Mora perto?

– É uma cidade pequena, tudo é perto. – Retruquei, desconfortável.

– Adoro cidades pequenas.

– Quem é você?

– Eu dirijo esta porcaria. – Ambos observamos o ônibus por alguns segundos.

– Você deve ter muita paciência.

– Não, é divertido. Não me vejo fazendo outra coisa. – Pensei no que a Sra. Hartridge diria a ele.

– Vai ficar muito tempo?

– Tempo suficiente. – Sorriu. O sorriso me assustou. Os lábios afastaram-se de modo desigual e os olhos perderam momentaneamente o brilho.

– Tempo suficiente para quê? – inquiri, após me recobrar do susto.

– Para fazermos nossas coisas.

– Cadê os outros?

– Por aí, trabalhando. – Mostrou-me novamente a expressão sinistra.

– Bem, eu tenho que ir trabalhar também.

– Aproveite a paz.

 

Acabei nem almoçando. Na loja, Samir e Nina notaram algo de errado comigo, mas como o dia estava particularmente movimentado, nenhum deles teve muito tempo para satisfazer a curiosidade. Ao final do expediente, Nina perguntou se eu queria uma carona até em casa.

Estávamos na calçada, e eu respondi:

– Não precisa, sabe onde moro, é logo ali.

– O que aconteceu, Adrian?

– Conheci o motorista do ônibus. Torres. Alguma coisa Torres.

– E?

– Cara sinistro. – Ela riu alto, batendo as palmas das mãos na frente das pernas.

– Cara, você é fã de metal! Não deveria estar acostumado a caras sinistros? Quer dizer, se olhe no espelho!  – a minha aparência é algo que não vai entrar em questão aqui, mas o jeito que ela falou me incomodou.

– Falo sinistro no sentido mau da coisa. Não gostei dele, não foi questão só de aparência.

– Descobriu quanto tempo eles vão ficar? – ela subiu na moto.

– Tempo o suficiente. – Fitei o horizonte.

– Tempo o suficiente para quê?

– Não sei se quero saber, Nina.

O pesadelo estava prestes a começar. Aquela noite seria a última na qual eu desfrutaria de certo sossego.

Já na manhã seguinte, o zelador do meu prédio, Sr. Arnolds, apareceu morto.

Na minha cama.

 

Vou contar isso direito.

Senti um terrível odor sanguíneo pela manhã, aquele cheiro forte de ferro, e também senti cheiro de carne queimada. Meu nariz nunca havia experimentado fedores tão ácidos, então imediatamente acordei. Ao meu lado –  tenho uma cama de casal, gosto de me espalhar – estava o Sr. Arnolds, me encarando com olhos retorcidos e rosto desfigurado pelas chamas.

Gritei e pulei, caindo da cama, mas levantando imediatamente e correndo até a porta do quarto em seguida. Não sei quanto tempo fiquei lá, parado, em choque puro, contemplando a carcaça do bondoso Arnolds. Reparei que ele não possuía mais dedos.

A minha cabeça travou.

Eu havia mencionado que o zelador era também o pai da minha amiga Kim?

Pois ela quase arrombou a porta do apartamento, e foi isso que me fez sair do incrédulo torpor:

– Adrian! Adrian! Meu pai está com você?! Adrian!

– Kim! – eis tudo o que consegui gritar de volta. Tonto, arrastei-me até a cozinha e a deixei entrar. As faces encharcadas de lágrimas, os cabelos bagunçados e a camisola revelavam que alguma coisa terrível também acontecera em sua morada.

– Onde está ele?! Onde?! – sacudiu-me os ombros.

– No meu quarto. – Pra quê mentir? Ela ia vasculhar o apartamento todo de qualquer modo. Só ouvi o grito lancinante. Fechei os olhos e devo ter feito uma careta amargurada.

Veio o choro sem fim.

Reuni forças para dizer:

– Kim, não saia daqui! – catei a espingarda no armário da sala e meti-me pelo corredor do prédio. O Sr. Jones abriu a porta e provavelmente ia reclamar do barulho, mas quando me viu com a arma, recolheu-se em silêncio.

A porta de Kim estava escancarada, e sem pensar duas vezes, entrei.

O cachorro dela, meio pitbul, fora desmanchado no teto, esta é a melhor palavra que posso usar, e a combinação tétrica de pêlos, dentes, ossos, carne e sangue a instruía a procurar o pai no meu apartamento.

“Mas que porra é essa, que porra é essa, que porra é essa…”. Somente isso me vinha à mente.

Sem ação, no meio da sala, ainda observando o macabro destino do cão, ouvi claramente uma puta colisão de veículos na rua. Corri até a janela e vi dois carros destroçados, fogo e choro. De repente, parte do prédio defronte explodiu, o que me afastou da janela prontamente, de olhos esbugalhados e coração acelerado.

Eu não havia notado a princípio, mas as nuvens estavam negras. Nem sei se eram nuvens. Pareciam mais espectros unidos em agonia.

Os vizinhos começaram a sair de casa, assustados e confusos. Voltei ao meu apartamento e encontrei Kim sentada rente à cama, abraçando os joelhos, chorando muito. Virei o rosto e falei que ela não saísse dali. Lembrei da explosão e concluí que, talvez, ficar não fosse exatamente seguro. Crescia em mim a sensação de que nenhum lugar mais era seguro, e como relatarei adiante, eu estava certo quanto a isso.

A começar pelo meu quarto.

Eu ia saindo quando escutei um gorgolejar gutural vindo da garota que me acompanhava no desjejum quase todos os dias. Dois segundos ou menos, esse foi todo o tempo que tive para reagir. Kim levantou, jogou o pescoço para trás, sua boca distendeu, fraturando a mandíbula, e de dentro dela brotou outra cabeça, menor, asquerosa, quatro olhos aquosos, língua espinhenta e buracos medonhos e pútridos como narizes.

Atirei e saí correndo. Na rua, pelo menos, eu teria mais espaço para as manobras necessárias à sobrevivência.

Enquanto disparava como louco pelo caos que a pequena cidade tinha se tornado, tampas de bueiros eram lançadas ao céu e pessoas atiravam umas nas outras. Carros e caixas de correio serviam de barricadas e as forças de segurança não pareciam estar conseguindo sinal para se comunicar com parte alguma. Também havia morcegos gigantes, ou algo assim, lançando guinchos estridentes, raptando e estripando humanos e animais, quebrando janelas e atirando motocicletas sobre casas.

Eu precisei atirar num desses ao dobrar uma esquina. Por mais que lave o rosto, é como se o sangue quente dele ainda manchasse minha cara.

Eu ainda tinha esperanças de sair vivo daquela loucura. A esperança acabou quando intermináveis novelos de serpente começaram a brotar dos esgotos.

É, eu sei que é absurdo, mas aconteceu! (Os enfermeiros aqui do sanatório começam a rir quando me vêem escrevendo de modo tão frenético)

Eu não fui o único sobrevivente, mas o resto está em coma ou em choque. Sou o único que pode fazer a verdade ser conhecida. E tudo foi culpa daquele ônibus maldito!

Vamos voltar às serpentes, vamos voltar às serpentes.

Eram tantas que pareciam asquerosos e letais monstros formados de organismos em simbiose…

 

Estão vindo até mim… os enfermeiros… vão me levar para o ônibus, hoje é dia de tribunal! Não quero andar naquela sucata, é o Torres quem vai dirigir, é um demônio quem vai dirigir!

Vou fugir, já chega!

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