As Oito Salas de Lielsen – Sala Um

Parecia um sonho. Claro que era um sonho, como raios aquilo não seria um sonho?
Lielsen não sabia que a maconha podia gerar efeitos retardados. O rapaz experimentara a droga quatro dias antes por insistência de amigos, tivera uma sensação estranha e pronto.
Mas agora isso?
O ambiente era amplo, muito amplo, e todo branco. Em toda parte formas geométricas, e não tão geométricas, também imaculadamente brancas, brotavam do chão e atingiam alturas variadas. Eram quadrados, esferas, triângulos, pentágonos, retângulos, todos com largura, altura e profundidade. Havia também estrelas, lua minguante e figuras mistas.
O que existia acima dele não parecia ser um teto, tampouco estava ao ar livre. Era uma imensidão de brancura.
Tomou um susto quando percebeu um gato preto rajado no rosto roçando suas calças jeans, os olhos felinos dirigindo-se esperançosos a ele.
– O que é, gato? – perguntou o adolescente.
– Rebeldia, venha cá! Não incomode o garoto. A propósito, ela é uma gata, rapazinho.
A voz vinha de uma velha sentada sobre o bloco que parecia uma lua minguante. Ela estava trajando um longo vestido roxo de lã estampado com estrelas amarelas, o traje caía nela quase como uma coberta infantil. Sua cabeça exibia um imenso chapéu pontudo e seus cabelos brancos corriam por seus ombros, descendo por suas costas, embaraçados. Ela havia sido muito bonita um dia.
Lielsen esticou um pouco o pescoço pra frente e apertou os olhos. Nem notou quando a gata saiu de junto de suas pernas e com um pulo gracioso juntou-se à sua dona.
– Você é uma bruxa? – perguntou ele.
– Sim, eu sou.
– O que uma bruxa está fazendo no meu sonho?
– Eu não sei, o sonho é seu. – O rapaz pareceu ficar aliviado. Aquilo era um sonho, afinal. Lógico, que idiota de sua parte chegar a considerar ainda minimamente que não fosse.
– Ou seria meu? – aventou a mulher, em tom distraído, com uma expressão pensativa.
– Que seu, é meu esse sonho, eu existo, você não.
– Mas oras! – falou a bruxa se empertigando. – eu também existo e minha consciência sobre minha existência é muito maior do que a sua. Eu existo mais do que você!
Rebeldia aninhou-se no colo da dona e fitou Lielsen com certa curiosidade.
– Você não existe mais do que eu, deixe de ser doida! – soltou o adolescente, com um tom ao mesmo tempo levemente ofendido e educativo, encarando a velha da forma como se encara uma criança que diz uma besteira sem sentido.
– Se tem uma pessoa doida aqui não sou eu. Ou você acha que sonhos assim são o padrão para pessoas normais?
– Então isso é um sonho?
– Você tem dúvidas?
– Não, nem sei por que fiz essa pergunta. – Ele parou um pouco e colocou as mãos na cintura. Olhou pra bruxa com um sobressalto.
– Ei, você acabou de admitir que o sonho é meu!
– E se não for nem meu nem seu?
– O quê, é dela? – perguntou Lielsen indicando a gata.
A esquisita felina balançou a cabeça, negando.
– Certo… – começou o jovem, olhando com estranheza para a gata. – Eu vou dar uma volta…
E começou a andar entre os blocos, sendo seguido pelos olhares da bruxa e da gata.

Já havia se afastado muito das duas figuras e passado por vários tipos de blocos. A imensidão daquele lugar o impressionava e era incrível como tudo era tão branco!
Ainda imerso em devaneios, Lielsen olhou para o lado e viu um homem gordo com um terno cinza, a gravata vermelha e fina jogada sobre a camisa branca, e com apenas um pouco de cabelo grisalho envolvendo sua nuca. Todo o resto da cabeça estava careca e ele mastigava com muito gosto um enorme sanduíche aparentemente entupido com uma amostra de tudo o que era comestível na Terra.
O adolescente ficou pasmo observando o outro escancarar a bocarra e arrancar um generoso pedaço do alimento, que se reconstituía a cada mordida.
A expressão de felicidade no rosto do gordo era quase obscena.
“Por que diabos eu sonharia com isso?”
Lielsen deu uns passos tímidos na direção do glutão e percebeu um enorme copo de vidro contendo uma substância preta e gasosa repousando ao seu lado. O recipiente comportava no mínimo dois litros.
– Senhor? – chamou o rapaz, ainda espantado ao constatar que o sanduíche realmente se reconstituía a cada mordida.
O homem parou o que estava fazendo e olhou para seu interlocutor. Um grande sorriso surgiu na cara redonda e seus olhinhos miúdos se apertaram.
– Sinto muito rapazinho, mas esse sanduíche é só meu. – E sorriu mais ainda. – Vá achar o seu. – E tascou outra mordida.
– Não, eu não quero o seu sanduíche…
– Também não lhe dou meu refrigerante.
– Eu também não quero o seu refrigerante. – Ao ouvir aquelas palavras, o homem gordo olhou com admiração para Lielsen.
– Você não quer mesmo? – sua voz denunciava genuína descrença.
– Se eu estivesse com fome…
– Você poderia estar com a fome que estivesse, eu não lhe daria. – Falou o gordo, voltando a sorrir. Lielsen ia dizer outra coisa, mas deu asas à curiosidade.
– E por que o senhor não poderia me dar um pedaço, ou um gole?
– Por que no dia em que eu fizer isso, eles serão finitos. O sanduíche acabará, assim como o refrigerante.
– Como sabe disso? Eles me parecem bem infinitos.
– Disseram-me.
– Quem lhe disse?
– Eu já não lembro, mas não quero arriscar. O sanduíche é meu, bem como o refrigerante, são só meus! – nesta última frase ele abraçou o pão entulhado de coisas como se fosse um poodle.
– Tá, mas quem é você?
– E isso importa? – retrucou o gordo amigável novamente, de forma mais calorosa.
Lielsen suspirou.
– Não. – E voltou a andar, meneando a cabeça.

Enquanto continuava seu caminho, listando tudo o que comera, bebera e fizera no dia anterior, forçando-se para lembrar de algo que motivasse tudo aquilo, por que obviamente a maconha não era, ele viu um bloco em forma de estrela. Sobre ele repousava uma dessas bolas de vidro que contém enfeites dentro, com pedacinhos brancos flutuando ao redor à guisa de neve.
Ele franziu as sobrancelhas e aproximou-se do objeto. Havia uma casinha de brancos telhados, e na frente dela, uma miniatura de boneco de neve.
Lielsen esticou a mão para pegar o item a fim de avaliá-lo melhor.
– Não toque no meu lar!
O adolescente retraiu o braço com tanta força por causa do susto que deu um leve mau jeito no ombro.
– Porra, quer me matar?! Quem é você, Jack Frost Jr.?!
– Eu só não quero que você toque o meu lar! – falou o boneco com uma vozinha irritante, esganiçada.
– O que foi que eu fumei? – questionou-se Lielsen em voz alta. O bonequinho o encarava com um misto de apreensão e confusão.
– Por que as pessoas têm mania de ir pegando nas coisas? – perguntou o pequeno boneco, se recompondo.
– Desculpe. – Disse Lielsen, desconcertado.
– Quer sair daqui? A saída é ali. – Apontou o bonequinho, com seu nariz de cenoura. O adolescente virou a cabeça e, por trás de conjuntos de várias formas geométricas, conseguiu enxergar uma grande porta branca.

O rapaz olhou mais uma vez para o serzinho antes de caminhar até a saída. No entanto, algo estava estranho. A porta não tinha maçaneta. Fazendo a única coisa então que lhe restava fazer, Lielsen a empurrou e ela abriu gentilmente, deixando uma brisa quente agradável entrar bagunçando seus cabelos.
Um barulho de algo se locomovendo muito rápido sobre trilhos foi ouvido e ele viu. Estava no meio de uma montanha russa, e o carrinho vinha em sua direção.

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