As Oito Salas de Lielsen – Sala Três

Do outro lado encontrou mais céu. A diferença é que havia muito mais nuvens, dispostas de modo organizado. Olhando direito, parecia uma verdadeira cidade feita de nuvens.
Ao checar os arredores, percebeu que nenhum de seus companheiros de carrinho havia entrado com ele. Suas portas certamente haviam levado a locais diferentes.
Sem saber ao certo o que fazer, o adolescente fechou a porta pela qual havia entrado e levou um tempo para acostumar-se a seus movimentos no ar. Percebeu que não só flutuava como podia voar, era só dar impulsos mais fortes com os braços ou pernas e manter o foco!
Sorrindo, ainda meio inseguro, Lielsen fez um movimento de impulsão e foi adiante, sentindo o vento balançar seus cabelos. O sorriso se tornou maior e ele deixou escapar:
– Cara, isso é bom demais.
Ele fez um movimento com as pernas, como se empurrasse o ar atrás dele e foi ainda mais rápido.
– Hahaha, muito bom! Oi, eu sou o Goku!
Lielsen cruzou os céus, voando livremente, passando acelerado entre as centenas de nuvens.
– Mais devagar, Goku, está difícil te acompanhar! – falou uma vozinha engraçada, fininha e ofegante, bem próxima.
Lielsen olhou para o lado enquanto voava. A princípio nada viu, mas lá estava, cortando os céus com ele, um minúsculo passarinho azul.
– Quem é você? – perguntou, ainda voando.
– Você não está estranhando um pássaro falar?
– Depois que um boneco de neve de enfeite natalino fez o mesmo, não.
– Tá, mas pare um pouco, por favor, não estou aguentando, vou cair e morrer.
– Ok. – E fez uma cara séria, se concentrando.
– Pássaro… como eu paro?
– Não devia ter começado a voar se não sabia como parar.
– Mas como eu paro? – o rapaz tinha uma nota de preocupação na voz.
– Jogue seu corpo pra trás e pense em parar, mas faça isso suavemente.
Lielsen fechou os olhos e fez o que seu pequeno parceiro de vôo dissera. Ficou na vertical e movimentou os braços como se para frear o impulso, concentrando-se em parar.
– Muito bem! Poucos conseguem com tanta facilidade na primeira vez! Mas agora, abra a sua mão, por favor.
Sem entender, o garoto fez o que o animalzinho pedia, e tão logo abriu a mão, o passarinho aninhou-se nela, respirando rápido.
– Ei, o que foi? – quis saber Lielsen.
– Não foi fácil acompanhar sua velocidade… Preciso de um descanso antes de continuarmos. E me prometa que vai mais devagar.
– Eu vou, mas me diga, o que estou fazendo aqui, que lugar é esse?
– Ainda não é hora pra respostas, mas posso te adiantar que essa é sua terceira sala.
– Isso é uma SALA?! – espantou-se o adolescente, olhando para a infindável imensidão do lugar. Lembrou-se em seguida da montanha russa. – O lugar anterior também era?!
– Exato. Para completar sua jornada, você terá que passar por mais cinco salas depois dessa.
– Mas pra quê isso? – a voz do rapaz era quase uma súplica.
– Você vai saber, mas me deixa descansar. – insistiu o passarinho com sua voz fofinha.
Lielsen suspirou e mexeu a boca, conformado. Lembrou que ainda não tinha olhado pra baixo naquela sala e o fez. Lá embaixo, incrivelmente distante, via o oceano e várias ilhas diversas.
– Lugar bonito.
– É mesmo, mas o que nos interessa aqui é dar uma olhada dentro das nuvens, o que faremos depois que eu descansar.
– O que tem dentro das nuvens? – perguntou o garoto, intrigado, a testa levemente enrugada, olhando para as mais próximas.
– Vidas.
– Vidas?
– Isso. E eu quero que você preste bastante atenção. Mais um pouco e já posso ir.
Não demorou muito para o emplumado novo amigo de Lielsen levantar voo novamente e ficar rodeando sua cabeça.
– Vamos, vamos! Vamos começar por aquela ali! – disse o passarinho, já voando em direção a uma das nuvens. Lielsen foi atrás, a expectativa crescendo.
O que veria?

A inusitada dupla chegou mais perto e nada anormal foi visto. Era apenas uma nuvem colossal.
– Afaste um pouco o excesso. – Informou o passarinho. Lielsen olhou pra ele sem entender direito, mas estendeu a mão e fez uns movimentos tocando a superfície da nuvem, que logo se dissipou, revelando uma pequena janela quadrada com duas varetas de madeira como divisória do vidro, formando quatro pequenos quadrados perfeitos.
Lá dentro, o adolescente viu uma família sentada a uma simples mesa de jantar. A madeira era bonita, escura, do mesmo tom da que cobria o chão da casa e formava a estante logo atrás deles. As paredes eram de pedra, algo bem rústico e aconchegante.
A família era composta por um homem de aparentemente uns trinta e quatro anos, cabelos negros e curtos, uma mulher de longos cabelos alourados e uma garotinha que não devia ter mais de 8 anos, também loira. Essa última estava bastante concentrada brincando com a comida, alheia ao clima tenso evidente entre o casal.
Aos pés da mesa um cão labrador alternava o olhar entre os membros da família, esperançoso. Os dois adultos ainda nem haviam tocado no prato e se olhavam de modo esquivo.
– Algum dos dois fez merda. – disse Lielsen. – Mas espera, tem uma casa dentro da nuvem?
– Nuvens são efêmeras e mudam constantemente até desaparecer.
– Tá, mas o que isso tem a ver com o fato de ter uma casa dentro de uma nuvem? Essas pessoas estão mortas?
– Não, não. Por que não subimos um pouco ainda nessa nuvem, aí quando você tirar o excesso verá outra janela.
O rapaz subiu e tirou o excedente de nuvem com a mão do mesmo modo que fizera antes, deparando-se com o mesmo tipo de janelinha. Dessa vez via um quarto com uma grande cama de casal. O piso de madeira e as paredes de pedra mostravam que o cômodo pertencia à mesma casa. Imediatamente Lielsen olhou para seu pequeno amigo alado e perguntou:
– Cada nuvem dessas é uma casa?
– Não, não, cada nuvem dessas é um conjunto de vidas. Obviamente, se a vida for solitária, a nuvem também é. Essa nuvem é o conjunto de vidas dessa família. Ela é uma união de três nuvens que podem ser contempladas individualmente se você checar os locais certos.
Sem estar certo de que entendera, Lielsen tornou a olhar para o quarto. O casal, que na janela abaixo estava à mesa, agora achava-se sentado na cama, cada um em uma ponta, um de costas pro outro. Era como se eles nem soubessem como se encarar.
– Mas o que diabos aconteceu? – perguntou o garoto.
– Algo meio grave. Mas já chega dessa nuvem, vamos a outra… aquela ali! – indicou o bichinho, pondo-se a voar rapidamente para uma nuvem de formato curvo, longe deles.
– Mas espera, eu quero saber o que houve com o casal! – falou Lielsen, seguindo o animal.
– Isso não é necessário.
– Pode não ser, mas estou curioso, aquilo é tenso! – o passarinho deu uma risadinha engraçada, como vários piados sucessivos, antes de dizer:
– Você é um rapaz curioso.
– Sim, eu sou.
– Aqui estamos, concentre-se nessa nuvem agora.
Com um suspiro, Lielsen fez o mesmo que havia feito antes e uma outra janela surgiu. Essa era ampla e não tinha divisória. Do outro lado estava um ambiente de escritório, com várias mesas, pessoas e telefones tocando.
Não levou muito tempo para o adolescente perceber o protagonista daquela nuvem.
Um homem jovem, nos seus vinte e cinco anos, estava parado em frente a seu computador, a mente claramente a quilômetros dali. Seus olhos estavam perdidos e emanavam uma forte tristeza.
Devagar, ele afrouxou a gravata, e enquanto fazia isso um homem passou por trás dele dando-lhe um leve tapa na nuca e chamando-o de algo que Lielsen não pôde ouvir. Certamente não fora um elogio.
O dono da nuvem não reagiu. Levantou-se e olhou desanimado para o chão. Em seguida olhou para sua esquerda, onde havia uma enorme janela de vidro. Não pensou duas vezes e correu até ela, jogando-se com vontade e quebrando o vidro.
– NÃO!!! – bradou Lielsen.
Seus colegas de escritório olharam incrédulos, mal tendo tempo pra fazer alguma coisa. O sujeito que dera o tapinha na nuca voltou-se de súbito ao ouvir o barulho e sua expressão foi de terror absoluto.
– Vamos nos afastar, essa nuvem vai sumir. – Disse o passarinho.
– O quê? – perguntou Lielsen, meio desarticulado, ainda em choque com o que acabara de ver.
– Venha, venha! – instou a avezinha, já afastada. O rapaz obedeceu e pouco depois e colossal nuvem começou a virar água, de modo que parecia que uma grande cachoeira caía das bordas de sua base, enquanto pedaços finos desprendiam-se do topo e vagavam pra cima até sumir. Era um espetáculo lindo e surreal.
– Minha nossa… – deixou escapar Lielsen.
– É lindo, não é? – perguntou, animado, o pequeno pássaro.
– Sim… é bonito… mas uma pessoa acabou de morrer… por que fica tão bonito assim quando alguém morre? – o passarinho deu a sucessão de piados que caracterizavam sua risada e respondeu:
– Você precisa ver quando alguém nasce. – Lielsen olhou para seu diminuto companheiro e em seguida tornou a olhar para o show que acontecia deslumbrante diante de seus olhos. Um sorriso cruzou seu rosto.
– Acho que seria bom você ver mais uma nuvem antes de ir embora daqui.
Ao ouvir isso, o garoto foi assaltado por uma compreensível curiosidade:
– Como é a próxima sala?
– Eu não sei. Mas o suspense é legal, né?
– E só posso voltar pra casa quando passar pelas oito?
– Isso. Não está gostando da experiência?
Lielsen parou pra pensar e disse:
– Está muito estranho, é como se eu estivesse sonhando. É divertido, mas também me incomoda… É como se algo estivesse errado.
– E está! Ótimo, ótimo! Agora vamos, aquela me parece uma boa nuvem.
– Ei, mas o que está errado, então?! – questionou Lielsen, lançando-se atrás do passarinho que ia animado para a próxima nuvem.
– Concentre-se na nuvem, na nuvem. Essa é um pouco distante, então vamos voar um pouco mais rápido, mas só um pouco, não me deixe pra trás.
– Tá, mas o que está errado?
– Vamos, vamos! – disse o pássaro, aumentando a velocidade. Vendo que não conseguiria obter uma resposta, Lielsen o seguiu.
Cruzaram os céus e novamente o adolescente experimentou uma indescritível sensação de liberdade. Eles passaram por inúmeras nuvens e chegaram em uma área onde centenas delas estavam virando cachoeira. Era o mesmo espetáculo que ele vira antes multiplicado. Era lindo demais, o jovem até diminuíra a velocidade do vôo para contemplar melhor.
– Você vai ver de perto, vamos passar entre elas! – falou o passarinho.
E logo estavam voando ao lado das nuvens em processo de desaparecimento. Maravilhosas cataratas no céu.
– Quantas mortes. – notou Lielsen.
– Um terremoto.
– Queria ver um nascimento.
– É isso mesmo que estamos indo assistir! – falou a ave, empolgada.
– Mesmo?! – Lielsen surpreendeu-se com sua própria animação.
– Sim!
Após passarem por todas as cataratas, a inusitada dupla entrou num espaço gigantesco de céu aberto. Nuvens só eram vistas muito longe dali.
– É aqui que acontecerá. – falou o pássaro.
Lielsen parou, flutuando em crescente expectativa. O que veria?
– Lá embaixo, lá embaixo. – Sussurrou o passarinho.
Ele olhou para o vastíssimo oceano pontilhado por simpáticas ilhas abaixo e não pôde acreditar no que viu.
Várias torres de água erguiam-se em direção ao céu, e nas ilhas próximas podiam ser vistas fortes luzes brancas que iam para as bases das torres, de modo que a luz crescia por dentro dos tubos de água e em determinado momento partia-se, deixando surgir vários fragmentos iluminados por dentro da água.
Logo as rotundas colunas de água ultrapassaram a altura em que Lielsen e seu companheiro se encontravam.
– Vamos nos afastar pra ver melhor! – sugeriu o passarinho, voando pra longe. Lielsen, embasbacado com a beleza da coluna de água que estava bem na sua frente, apenas balançou a cabeça rapidamente em concordância antes de se afastar.
De longe, era possível ver as torres de água em todo esplendor. Num movimento inesperado, elas começaram a se entrelaçar, ainda apontando pra cima e recebendo luz das ilhas. Não demorou pra da ponta delas emanar uma espécie de névoa mística, que depois foi ganhando corpo, e alimentada pela luz corrente no interior das torres, ganhou robustez.
– Isso é fantástico! Foi assim quando eu nasci também?
– Sim, sim, provavelmente bem parecido. Igual nunca é.
Quando a base da nuvem estava formada, os pilares de água atravessaram-na, de modo que abaixo da base estavam todos entrelaçados, mas acima não, todos seguiram retos, girando ruidosamente.
As partes que estavam acima da base começaram a adquirir uma camada branca, de nuvem, que surgiu no topo deles e depois desceu suavemente até se esparramar já na parte constituída da nuvem abaixo.
Após um curto espaço de tempo, as colunas de água eram colunas de nuvem! De repente a parte de baixo delas desabou, assim que as ilhas pararam de mandar a luz, caindo com estrondo no oceano e causando ondas insanas, as quais, curiosamente, não atingiam as ilhas, que pareciam ser protegidas por algum tipo de barreira.
Quando as torres, agora de nuvens, acabaram de girar e tudo pareceu se acalmar, o passarinho azul disse:
– Já há uma janela ali. Quer ver?
– Claro que quero! – respondeu Lielsen, animado.
Os dois foram até a nova nuvem, que na verdade consistia apenas de uma base e incontáveis pilares. No caminho, Lielsen perguntou:
– Por que está assim? As que passamos não tinham pilares.
– Essa vida ainda não começou realmente, não do modo que você conhece. Com o tempo essa nuvem vai se delinear, ganhar mais volume e forma. Os pilares são apenas a base pra dizer que algo vai começar aí.
– Ah… não sei se entendo, como assim não do modo que conheço?
– Geralmente leva de sete a nove meses para a nuvem inicial estar completamente pronta. – informou o passarinho, serelepe com sua voz fininha. – Entendeu?
– Aaaahhh… – fez Lielsen, compreendendo.
– Mas a vida já existe. Vamos ver?
– Sim, claro. – Concordou o garoto. Os dois haviam diminuído a velocidade para conversar.
Ambos chegaram perto de um dos enormes pilares. O passarinho assentiu três vezes com a cabecinha e Lielsen tirou o excesso de nuvem.
O que viu foi escuridão.
– Mas que…
O passarinho riu um pouco e pousou no seu ombro.
– Viu, não há muita coisa ainda aí.
– Todo aquele espetáculo pra isso?
– É uma vida.
– Mas eu pensei que ia ver um nascimento…
– Você viu o nascimento de uma vida humana, não de um bebê. – E aqui ele riu outra vez com seus sucessivos piados cativantes.
– Agora vamos, é hora de você deixar essa sala. – E pôs-se a voar.
Ainda um tanto confuso, o rapaz seguiu seu pequeno amigo. Voaram juntos por algum tempo, passando por várias outras nuvens. Quando notou que a avezinha estava se dirigindo especificamente pra uma delas, Lielsen disse:
– Eu pensei que não íamos mais ver nuvens.
– Não, não, é que nessa você vive.
– Como? Estou voltando pra casa?
– Ainda não. São oito salas, lembra?
– Mas então…
– Você vai entender.
E continuaram. Chegando perto da nuvem, o passarinho alçou um voo mais alto. Lielsen o seguiu, mesmo sem compreender.
– Estamos indo atrás de uma porta, não de uma janela. – Explicou o animal.
Os dois pousaram na superfície da nuvem, entre montanhas e paredões.
– Nossa, minha vida é tudo isso?
– Você acha que uma vida é pouca coisa? Ali está sua porta, indicou o passarinho do chão, esticando a asa.
Lielsen olhou e viu, cercada por nuvens, uma porta amadeirada.
– Boa sorte, Goku.
– Meu nome não é Goku. – Falou o adolescente, virando-se com uma expressão confusa, mas o passarinho já tinha ido embora.
Após observar seu companheiro alado desaparecer pelo céu, o garoto caminhou até a porta. Olhou em volta uma última vez antes de entrar, apreensivo.

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