As Oito Salas de Lielsen – Sala Oito

O piso branco e lustrado com esmero recebeu seus pés, e seus olhos contemplaram uma asseada recepção hospitalar, onde as moças falavam baixo ao telefone e alguns pacientes esperavam sentados o atendimento, alguns parecendo realmente mal.
O rapaz sentiu-se limpo. Notou que o sangue na sua camisa havia saído e não havia mais resquício nenhum de sujeira em seu corpo. Toda aquela calma no ambiente estava deixando-o ansioso. Um frio interior cresceu rapidamente e um mau presságio cruzou seus sentimentos.
Nervoso e ansioso, ele andou até a recepção e ficou de frente a uma mulher impecavelmente uniformizada, com os cabelos presos num coque redondo, e falou:
– Moça, que hospital é esse?
E a mulher continuou arrumando uns papéis sem dar a mínima atenção ao visitante.
– Moça. – Tornou a chamar Lielsen, sem sucesso. Ele olhou para trás e percebeu que até mesmo as pessoas que estavam olhando em sua direção não pareciam enxergá-lo.
– Ei, alguém está me vendo?! – perguntou desesperado.
Ninguém estava.
Não era como se ele não esperasse por aquilo. Desde o momento em que chegara ao hospital, Lielsen sentiu que nenhuma pessoa ali notaria sua presença. Com o coração pesado, ficou cruelmente claro para ele o motivo de estar ali.
Aquele era o hospital em que estava internado. Aquela era a hora de firmar sua escolha.
Sentindo-me mais perdido do que estivera em qualquer sala, Lielsen saiu da recepção e começou a vagar pelos corredores do lugar, totalmente desorientado.
Viu enfermeiras e enfermeiros, médicos, faxineiros, macas vazias e ocupadas voando pelos corredores, gente em cadeira de rodas, viu até um casal chorando, abraçado. Quanto mais tempo ficava no hospital, maior era a sua sensação de perda. Sem saber mais o que fazer, entrou num dilema. Ele obviamente havia retornado ao mundo real e era um espírito, então, podia atravessar portas. Mas será que era correto invadir a privacidade das pessoas daquele jeito só porque queria achar seu quarto? Ele gostaria que seu quarto fosse invadido por algum fantasma sem rumo?
Não, Lielsen não entraria em quartos alheios, mas tinha de haver um modo de achar seu leito.
O jovem começou a parar nos postos de enfermagem que ficavam distribuídos entre os andares e a escutar a conversa dos médicos com as enfermeiras.
De corredor em corredor, de piso a piso, rente a paredes e sob lâmpadas de luz esbranquiçada, o rapaz foi buscando uma simples menção ao seu nome. Em determinado momento passou por um salão cuja parede lateral que dava pra rua era de vidro, e ele viu as luzes da cidade forrando o manto negro da noite. Sorriu, perguntando-se como uma simples visão do seu mundo podia deixá-lo tão feliz.
Lielsen aproximou-se da vidraça. Atrás de si havia um saguão com elevadores e sofás vermelhos num cruzamento entre corredores repletos de portas.
O garoto se entristeceu por não conseguir contemplar o próprio reflexo, mas ver as pessoas, os carros, os postes, as lojas e os prédios lá fora lhe deram novo ânimo. A vontade de chorar veio, mas ele se conteve. Queria ficar apenas mais um pouco ali, olhando a rua.
– A mãe dele está acabada.
– Pudera, não sai do lado do filho nunca. Não aceita revezar o lugar com ninguém.
Lielsen sentiu uma urgência na alma e olhou para trás a tempo de ver duas enfermeiras passando pelo corredor bem atrás dele. Uma delas carregava uma prancheta na mão. O jovem as seguiu sem cerimônia. Claro que não haviam citado nomes, mas algo o impelia a fazer o que estava fazendo. Precisava dar uma boa olhada naquela prancheta.
As duas foram até um dos sofás vermelhos e sentaram, uma delas, a mais velha, reclamando que estava exausta. A tábua de madeira com a ficha foi posta ao lado, em um assento vago do sofá.
– Ficou frio aqui de repente. – Disse a moça de cabelos negros, com um ar de estranhamento na voz.
– Sério? Pra mim está normal. – Falou a outra. – E olhe que sou velha.
Lielsen ignorava o papo das duas, estava agachado lendo atentamente as informações contidas no papel carregado por elas. Ficou paralisado.

“Lielsen, Luís – Quarto 502”.

Repentinamente tonto, o jovem afastou-se de ré, cambaleando, e logo estava olhando para cada porta ao redor. Estava no andar certo.
Angustiado e ansioso, Lielsen correu pelos corredores do hospital passando por médicos e parentes de pacientes, até chegar ao corredor de seu quarto. O número 502, esculpido em aço, estava pregado na frente da porta.
O rapaz ficou travado, sem conseguir tomar nenhuma ação. O que aconteceria se entrasse? O interessante é que, ao mesmo tempo que tinha dúvidas, tinha dentro de si também as respostas, e elas eram dolorosas.
Ele pensou em todas as coisas que havia passado pra chegar ali, lembrou-se da decisão que havia tomado, reuniu toda coragem que possuía e atravessou a porta.

O ruído inconfundível do aparelho que media seus batimentos cardíacos foi a primeira coisa que ouviu. Lielsen juntou o som à imagem que se formou diante de seus olhos, e sua dor foi indescritível.
O corpo estava deitado ali, na cama, tubos saíam dele e iam ligar-se a máquinas, soro e medicamentos injetados nas veias, uma espessa bandagem cobria a testa, os olhos fechados. Seu corpo parecia a coisa mais frágil do universo. Ele estremeceu ao perceber que até sua respiração era feita com a ajuda de aparelhos. O barulho emitido por ela era agonizante.
O quarto estava razoavelmente iluminado, as cortinas fechadas, televisão desligada. Em uma poltrona cinza, ele viu sua querida mãe. A cabeça dela pendia para o lado do filho, encostada na cama. Sua blusa preta amassada, seus cabelos castanhos bagunçados e a expressão que tinha no rosto enquanto dormia denotavam muito sofrimento e cansaço. Até sua respiração parecia fraca. A mulher estava exaurida.
Ele viu também que haviam trazido seu skate, que repousava numa prateleira, e lá também estavam fotos dele, da família e de amigos. Uma parede do quarto estava praticamente tomada por bilhetes, cartas e mensagens de força de diversas pessoas, familiares ou não. A guitarra ocupava um canto do quarto.
Com os olhos voltando a ficar molhados, Lielsen aproximou-se da mãe lentamente, abaixou-se ao seu lado quando ficou perto o suficiente para tocá-la, se quisesse. O sono dela certamente não era tranqüilo.
De onde estava, o adolescente contemplou seu próprio corpo novamente. Estava todo coberto, com exceção da cabeça, do pescoço de um braço que pendia. Lielsen não conseguia acreditar, mesmo vivenciando tudo aquilo. Após ficar cabisbaixo por uns minutos, voltou sua atenção para a mãe.
Como ele se arrependia de ter vivido do jeito que vivera. Como se arrependia de estar causando tanto sofrimento.
Luís Lielsen passou horas sentado no chão, ao lado da poltrona da mãe, apenas aproveitando sua presença, sem tentar acordar a pobre mulher. Viu um enfermeiro entrar e trocar seu soro de forma cautelosa, esforçando-se para não fazer nenhum barulho.
Mais umas horas se passaram num silêncio sepulcral. Lielsen só conseguia ficar ali, parado, ao lado da mulher que tanto o amava. Pensou em muito pra dizer, tinha vontade de fazer um verdadeiro discurso, mas as palavras não saíam. Era muita coisa ao mesmo tempo pra ser dita, impossível falar algo. Além disso, quem ouviria? Optou pelo resignado silêncio.
Quando sentiu uma presença estranha no quarto, ele levantou devagar e se deparou com a mesma mulher de branco que havia conversado com ele na quarta sala. Ela estava de pé na frente do cortinado, dessa vez, sem flores na mão. Olhava-o de forma serena, maternal. Sem dizer nada, balançou a cabeça duas vezes e o garoto entendeu. Lágrimas começaram a brotar.
Numa angústia impossível de ser posta em palavras, Lielsen lançou um olhar ao seu corpo e em seguida à sua mãe. O jovem chegou perto da exausta senhora e conseguiu passar a mão em seus cabelos, afastou-os do ouvido.
– Mamãe… eu tenho que ir agora. Eu te amo.
A mulher contorceu o rosto e começou a chorar baixinho, abrindo os olhos lentamente e olhando para o filho deitado ao seu lado. Ela agarrou o braço do rapaz com força, e com a fronte na cama, chorou desolada.
A máquina que contava os batimentos cardíacos de Lielsen passou a emitir um ruído contínuo e uma linha foi mostrada na pequena tela. Também chorando e fazendo força para se controlar, o garoto foi até a mulher de branco e os dois atravessaram as cortinas e a janela em direção a alguma luz que esperava lá fora.

Em algum lugar, uma bela cachoeira começou a se formar no céu.

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