Capitu não traiu Bentinho… ou traiu?

Antes de decidir não me submeter mais à aprovação das faculdades e universidades brasileiras – não porque sou bom demais, estou longe de ser sequer bom, mas porque o quadro docente dessas instituições é composto em larga parte por ineptos e charlatões – ouvi de uma professora de Teoria Literária que a questão da traição ou fidelidade de Capitu não importava, se não estava explícita no livro, era como se não existisse. Para ela, o que não estava no livro não existia e especular era perda de tempo. A obra literária, se encerraria em si mesma, e fim, não havia margens para especulações e não havia qualquer diálogo com a realidade, por mais remoto que fosse. Basicamente, você lê, simplesmente gosta ou desgosta, esquece e acabou-se.
Mas que bela porcaria, não? Vou deixar que gente assim me avalie? Tenho mais algumas pérolas dos tempos de faculdade, algumas inclusive lançadas por essa professora, mas as guardarei para futuras anedotas.
Evidentemente, minha visão no que diz respeito às obras literárias é outra, mais completa, e como escritor, sei bem que, muitas vezes, o que não está explícito no livro existe na história. Sei também que a literatura, a literatura ao menos razoável, tem ligações com a realidade. A distorção moderna que dispensa histórias fictícias como se, no fundo, elas não tivessem nenhum valor real, nada substancial a passar, enfim, nenhuma lição a ensinar, nenhum canto a iluminar, não tem espaço na minha vida.
Pois muito bem. E Capitu, afinal, traiu ou não traiu Bentinho? Antes de responder, primeiro devo exaltar sem reservas “Dom Casmurro”. Machado de Assis, com esse livro, certamente se provou um dos maiores ficcionistas que já li, e se alguém por acaso me perguntasse de repente, encostando uma faca ao meu pescoço, quem é melhor que Machado a minha única resposta instantânea seria Dostoiévski.
“Dom Casmurro” é um trabalho excepcionalmente bem escrito e excepcionalmente belo. Parece-me, antes de tudo, um primor da arte da observação. A riqueza de cada personagem disposto no livro só pode ser fruto, além da genialidade de nosso grande escritor, de constantes e apurados exercícios de observação.
Os personagens são tão ricos – até os mais mínimos deles trazem consigo proveitosas oportunidades especulativas, como o poeta mencionado logo no início, ou o negro vendedor de doces, ou o colega de seminário de Bentinho que escreveu um Panegírico – que, quem é escritor ou trabalha com as artes narrativas em geral faria muito bem em tomar cada um deles e tentar cavar o quanto puder suas almas, fazer anotações, etc.
O livro é também de uma melancolia bela, José Dias diria belíssima e eu não censuraria o superlativo, e possui um senso de realidade cotidiana incomum. Já que a história abrange a vida de Bentinho desde os tempos de adolescente até o início de sua velhice, vemos e sabemos, por alto, a trajetória de quase todas as principais pessoas que o cercavam, e somos levados a acompanhar, de forma direta ou indireta e de modo inescapável, a menos que abandonemos o livro, as várias visitas da morte. Na obra, como aqui, as pessoas vão morrendo, e deixam aos vivos suas figuras, freqüentemente menos gloriosas e importantes do que gostariam que fossem, e o mundo segue, o mundo sempre segue…
Mas, meu querido, Capitu traiu Bentinho?
E de que importa isso diante de uma obra dessa magnitude? Exagero, importa, mas a grandeza de “Dom Casmurro” vai muito além da dúvida de mestre lançada à cabeça dos leitores. Se o que ouvi sobre a Mona Lisa original de da Vinci é verdade, que é possível enxergá-la tanto sorrindo quanto séria, dependendo do ângulo do qual é observada, a traição de Capitu acontece ou não acontece, dependendo da colheita de indícios que o leitor faça pela história, e essa é uma resposta razoavelmente satisfatória, penso, mas não acho que seja a resposta plenamente satisfatória. Ao contrário da famosa pintura, cuja ambigüidade reside somente na tela, em uma imagem, o caso de Bentinho e Capitu é muito mais complexo, e o fato da traição ou fidelidade importa menos do que a magnífica construção e representação dos dois personagens. Os indícios da verdade literária mesmo estão lá, claro, e tenho boas razões para acreditar que a mulher era inocente, mas se o objetivo de Machado era preparar o livro unicamente para essa dúvida, ele não conseguiu, seus planos foram frustrados pelo seu próprio poder evocativo, por sua escrita impecável, pelos seus personagens verdadeiros e pelo carisma ímpar de sua literatura.

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