Surto

Miguel Hernandez andava distraído pelas ruas de Barcelona, indiferente ao calor causticante que se fazia presente naquela época do ano. Apenas pensava se conseguiria convencer o seu chefe a tirar a semana seguinte de folga. Precisava urgentemente desafogar a sua vida, e o trabalho de contador não era exatamente o lugar ideal para aquilo. Levaria sua namorada, Olívia, para alguma cidadezinha escondida na costa da Grécia e desfrutaria um pouco de paz de espírito.
– Vem cá, meu amigo. Quem te disse que eu quero ir pra Grécia? – perdão?
– Não se faça de idiota. Estou falando com você! Não quero ir pra Grécia. – Caros leitores, irei tomar um gole d’água, com licença.
– Volte aqui! Eu não quero ir pra Grécia! Vê se pode… Estou eu aqui, parado no meio da rua, um sol dos infernos na cabeça, olhando para o céu e gritando… Que situação ele me colocou… E ainda disse que eu tenho que ir pra Grécia! Vou ver um filme, com licença também, tentar desocupar um pouco a cabeça… estou num texto, é isso? Pois bem, feche o texto e vá ver um filme também. Fui.
Hernandez, ao continuar sua caminhada…
– Fale baixo, estou no cinema. – como é?
– Estou no meio de um filme. – Você estava andando pelas ruas de Barce…. estou endoidecendo. Conversar com um personagem…
– Ah, então você não pode conversar com um personagem? Você pode mandar o pobre ser fazer de tudo, até ir pra Grécia, e não pode conversar com ele? – acho que sofro de dupla personalidade. Vou descansar um pouco.
– Não vai sair de novo, não… foi mal, foi mal… – o que foi?
– O pessoal no cinema está reclamando comigo. – Saia da sala.
– Ah, você me deixa sair da sala? Poderia simplesmente me tirar contra a minha vontade…
Miguel Hernandez sai, então, do cinema, sob vaias e impropérios do público.
– Você não tem o que fazer, não? – vai ficar calado e permitir que eu prossiga com minha história?
– A história é minha! Você está me usando para contar, eu sou o protagonista, ela é minha! E na minha história, eu não vou para a Grécia e nem saio vaiado do cinema. Reescreva estas partes.
Miguel Hernandez começa subitamente a sentir uma insuportável dor de cabeça, que parece espremer seu cérebro de forma atroz e angustiante.
– Você é maligno. – Se prometer se comportar, a dor de cabeça passa e coisas boas virão.
– Não irei me submeter a tal coisa. Você não tem o controle sobre a minha vida! – rapaz, eu não contestaria isso.
– Ok, Ok… Podemos chegar a um acordo? – qual?
– Primeiro, faça passar a dor de cabeça, por tudo que lhe é mais sagrado… Não consigo raciocinar assim…
Tão de repente como veio, a dor de cabeça de Miguel Hernandez se foi.
– Obrigado…ah…. obrigado… – de nada. Agora me diga, que acordo propõe?
– Eu não quero ter saído do cinema à base de vaias e muito menos de impropérios, e não quero ir para a Grécia. Também não gostaria que nada de ruim me acontecesse. Você sabe, escritores, de vez em quando, gostam de colocar seus personagens em grande sofrimento, físico ou mental. Não quero isso. Também não quero grandes dúvidas ou questões morais. Afaste-me também, por favor, de assuntos polêmicos… – pode parar! Que raio de acordo é esse? Quem vai se interessar por uma história assim?
– Não interrompa os outros. – Desculpe.
– Como ia dizendo, se seguir esses requisitos, pode fazer o que quiser com minha vida. – Mas aí a sua vida não teria graça.
– Eu não quero uma vida engraçada. – Não teria emoção alguma, ou ideal, ou mesmo riscos… Que espécie de vida é essa?
– A vida perfeita. Não reclame, muita gente por aí tem esse estilo de vida e vive muito bem! – Bom, eu não me interessaria por escrever algo com um protagonista assim.
– Se esse é o problema, passe para o próximo texto, ou vá fazer outra coisa e me deixe em paz, assim, ambos ficamos satisfeitos. – Eu não ficaria satisfeito se soubesse que deixei um personagem assim livre de minhas diretrizes.
– Isso é uma injustiça! – o mundo é injusto. Caramba, que descoberta você fez!
– Eu não tenho nenhum tipo de escolha? – claro que tem. Mas primeiro precisa estar vivo em mim, e não me combatendo. Quando, na medida em que contar a sua história, eu absorver a sua personalidade, sua voz vai se fazer cada vez mais presente, ganhará certa vida própria, com traços que por mais que eu quisesse não poderia alterar, sob pena de matar minha obra. Claro, isso considerando que você fosse um grande personagem, coisa que já vi que não é.
– Eu sou sim! – olha, estou insatisfeito e gostaria de terminar logo isso daqui.
– O que quer dizer com isso? Cedeu ao meu acordo? – não. Vou limpar minha consciência, que teve a infelicidade de produzi-lo.
– Como é?
Miguel Hernandez inesperadamente desabou no chão, inerte, sem vida como, aliás, sempre havia desejado ser.

Conto escrito em 2006.

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