Expectativa

A mãe havia viajado a trabalho e Beatriz reservara a noite para ela e Diego, o rapaz conquistado a muito custo.
A universitária, atabalhoada, tinha calcinhas enfileiradas na cama, e pendurados nas portas do guarda roupa, cabides com blusinhas ondulavam ao ventilador. Shorts, saias e calças amontoavam-se nos pufes, cosméticos na escrivaninha, e perdidos por aí, secador e chapinha.
Trajando ainda apenas a toalha, a garota transitava por combinações. Ansiosa, Beatriz andava pelo quarto, ignorava chamadas de amigas, provava perfumes, ensaiava caras no espelho, exercitava tons vocais doces e provocantes. Tudo tinha de ser perfeito!
Despiu-se e começou a examinar as blusas e camisetas, a partir delas daria forma ao seu visual. Antes, porém, parou para contemplar-se nua no espelho, imaginando a alegria de Diego diante de sua loira natural, antecipando a futura magia a ser realizada na cama, testemunhada por bibelôs, ursinhos e paredes confiáveis. Feliz, constatou pela milésima vez na última semana que não tinha estrias e que a pouca celulite seria invisível à meia luz. Apalpou os seios, erguendo-os, pondo-se de perfil, e tranqüilizou-se. Aproximou o rosto do vidro e executou longas viagens por cada poro da pele.
Irritou-se com a sobrancelha.
Afobada, sentou no colchão, catou a nécessaire, e munida de pinça e espelho de mão, trabalhou arduamente para deixar o rosto exatamente como queria. Subitamente, olhou para os pelos pubianos. Estariam grandes demais, curtos demais, aparados devidamente? Passou em revista as pernas lisas em busca de um fio rebelde pronunciado, mas nada encontrou.
Uma hora depois, permanecia escolhendo a roupa ideal para vestir. Indecisa, colocou as mãos em conchas na frente da boca e soprou. Pensaria melhor enquanto escovava os dentes pela terceira vez.

Diego, num bar com amigos, checou o relógio.
: – Tenho que ir, valeu.
– É hoje, hein, moleque? – falou um deles.
– É nada demais não… É que sozinho, tu sabe, eu não fico, né?
– Ô, mas a Bia é gata. – Disse outro.
– Certinha demais.
– Libera ela pra nós. – Instou o primeiro.
– Depois que eu pegar, tá livre. – Levantou, pondo na mesa vinte reais.
Depois subiu na moto e arrancou à casa de Beatriz.

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