Ego

Estou eu aqui diante de três portas sem saber ao certo em qual devo entrar. Não é justo. Depois de tudo que eu passei, fracassar por causa de uma única escolha errada não parece justo.
Mas obviamente você não está familiarizado com a minha situação, então vou contar o que aconteceu do início.
Era uma manhã como qualquer outra, sem nada de especial, quando, ao sentar na cama, eu me encontrei.
Poético, não?
Seria, se eu não tivesse me encontrado literalmente.
Qual não foi a minha surpresa ao me ver, e eu digo me ver, sentado na beirada de minha própria cama, olhando para mim e coçando o queixo. Sim, era eu no meu quarto, me encarando.
No início, fiquei sem reação, o que, convenhamos, é absolutamente compreensível. Estava esperando que aquela visão de mim fosse um sonho, uma miragem, uma ilusão que logo passaria.
Mas eu continuei sentado na cama olhando para mim.
Olha, eu não bebo, não fumo, não uso drogas de nenhum tipo e nunca fui a sessões espíritas. Também não sou epilético nem tenho esquizofrenia. Não tenho histórico de doenças mentais na família, então, devia haver alguma explicação racional para eu estar no meu quarto naquela manhã de outubro, mas não encontrei nenhuma. Ao que tudo indica, minha aparição era real.
Quando eu vi que não ia embora, falei comigo. Lembro-me que perguntei a coisa mais idiota e clichê que se poderia perguntar naquele momento:
– Quem é você?
– Arthur King. – Foi o que ele respondeu. Sim, Arthur King é o meu nome. Ele era realmente eu. Então fiz outra pergunta. Acho que foi mais ou menos essa:
– Você sou eu?
– Não. – Já respirava mais aliviado quando ele completou a resposta:
– Você é que sou eu. Eu sou o você principal.
– Como?
– Existem muitos vocês e eu sou o você principal. Sou o seu Eu central.
– Está me dizendo que eu sou apenas uma parte de mim?
– Sim, você é uma parte de mim. – Eu começava a pensar que o primeiro caso de loucura na família seria o meu. Mas não podia aceitar ser uma parte menos importante de um organismo principal.
– Acho que não. – Disse, meio irritado com a minha arrogância. Quero dizer, com a arrogância de meu outro eu.
– Você não tem o que achar. É o que é.
– Eu não tenho o que achar?
– Sim, eu não tenho o que achar.
– O que você está fazendo no meu quarto?
– Por que eu não posso estar no meu quarto?
– Esse quarto é meu.
– Eu sei, ele é meu.
– O apartamento é seu também?
– É. E gostaria de saber o que está fazendo no meu quarto.
– O que estou fazendo no seu quarto?
– Sim. Acordei, fui escovar os dentes e tomar café. Quando voltei, você estava dormindo aí.
– Impossível! Eu moro aqui há…
– Quatro anos? Eu também. Mas tem outros vocês e eus que não moram aqui.
– Quer parar com isso por favor?! – gritei, em um momento de desespero. Afundei a cara no travesseiro e contei até dez. Quando olhei pra frente, eu ainda estava lá.
– Não se desespere, meu eu periférico. – Eu periférico. Aquilo foi demais.
– O “eu” periférico aqui é você! – Disse eu para mim. Para minha surpresa, eu ri diante daquela declaração.
– Como posso ser eu o eu periférico? Você por acaso tem consciência dos outros nós?
– Outros nós…
– Sim, meu caro eu mesmo. Sou o Eu central justamente por isso. Eu conheço a maioria de meus outros eus, o que me dá, logicamente, uma ciência maior sobre quem somos, e passa toda a essência de nós para mim. – Tentei entender aquilo, e para minha surpresa e satisfação, compreendi sem mais demora.
– Não me agrada a idéia de ser apenas um eu qualquer.
– Não é uma idéia. É um fato.
– Tem como mudar isso? – Perguntei para mim.
– Claro.
– Como?
– Não vou me dizer. Isso eu tenho que descobrir sozinho se quiser mostrar que posso ser um eu mais forte. Agora saia do meu quarto. Volte para meu quarto. Tenho coisas a fazer hoje.
– Eu estou no meu quarto! – disse, mais uma vez irritado. E quando percebi, estava sozinho. Olhei para todo o aposento me procurando e não me encontrei. Para onde eu tinha ido?
O fato é que acabei me convencendo de que fora tudo uma ilusão e de que estava atrasado para o trabalho. Levantei da cama, ainda atento a tudo ao meu redor, ligeiramente abalado pelo incômodo evento.
Fui trabalhar e esqueci momentaneamente o assunto. Eu sou advogado de uma importante firma em Vancouver e dou muito valor ao meu trabalho. Imerso nele, esqueço do mundo.
Eu não queria lembrar daquela visita estranha que tive pela manhã, por isso, tirei dos arquivos alguns processos e comecei a trabalhar neles.
Lembro que fui o último a sair do escritório naquela noite. Eu não estava querendo ir para casa. Percebi que estava com medo de me encontrar de novo.
Bom, peguei alguns papéis mais extensos, enfiei-os na pasta e fui embora. Só pararia de trabalhar na hora de dormir, e de manhã, acordaria cedo e iria para a firma. Não era má idéia, afinal, estávamos prestes a ser envolvidos em uma grande causa envolvendo o meio ambiente e montadoras e eu não queria perder oportunidades.
Tentei colocar umas músicas para me distrair no carro, mas não adiantou muito. Cheguei em casa cansado e fui logo tomar uma ducha.
A verdade é que eu já estava ficando perturbado. Quanto mais eu tentava esquecer a minha presença no meu quarto, mais vívida ela ficava na minha mente e mais certeza eu tinha de que me encontraria de novo.
Eu devia esquecer aquilo. Devia me esquecer.
Como alguns de vocês já devem ter percebido, ou ao menos deduzido, eu sou solteiro. Sempre valorizei a minha solidão e minha independência para fazer o que quero e de estar onde quero estar, mas, se eu tivesse uma companhia naquele momento, as coisas ficariam mais fáceis para mim, pois quando você tem alguém que gosta você acaba esquecendo um pouco de si mesmo.
Mas eu era sozinho. Era só eu e eu mesmo.
Nem amigos eu tenho. O pessoal do colégio e da faculdade está todo disperso e eu não tenho tempo para manter contato. Sou uma pessoa ocupada. Minha família está longe, e mesmo assim não tenho muito tempo para vê-los.
Não estou reclamando de meu estilo de vida. Adoro isso. Apenas achei que ajudaria ter alguém para conversar, fosse namorada, amigo ou parente.
Mas como não tinha ninguém, tinha de me resolver sozinho.
Para começar, pararia de pensar naquilo e me concentraria em outra coisa. Iniciaria com a ducha.
Depois do banho, enquanto estava no meu quarto arrumando umas coisas, ouvi um barulho de digitação vindo do meu escritório. Sem poder acreditar, fui até lá e me deparei comigo no meu computador.
– Eu aqui de novo? – Perguntou eu para mim. Era muito cinismo.
– Foi você quem invadiu minha casa outra vez!
– Exato, fui eu.
– Sim, mas o eu agora é pra você, não pra mim!
– O eu sempre foi pra mim, admitindo que você é um dos meus eus dentro de mim. O que me deixa intrigado é como eu consegui chegar até mim.
– Quer dizer, eu chegar até você, certo? – havia resolvido me tratar como outra pessoa.
– Se preferir assim…
– Bem, eu não cheguei até você, você veio até mim!
– Engana-se. Eu estou no meu lugar. – Aquilo estava me dando dor de cabeça
– Eu devo estar louco, só pode ser isso… mas que merda! Enlouquecer logo agora!
– Eu estou perfeitamente são.
– MAS EU NÃO! – e comecei a gritar.
– Se não me incomoda, poderia parar de berrar? Tenho que entregar esta parte a Little Frank amanhã. – eu parei de gritar, mas foi por espanto. L. Frank era um colega de trabalho que eu detestava na firma. Ele também não gostava de mim. Na verdade, eu não o suportava.
– Entregar a quem? – questionei, apenas para confirmar.
– Little Frank.
– Existem dois desses também? – indaguei, tendo asco só de pensar.
– Bem mais de dois. – Foi minha resposta. – Não sei qual o espanto. É o meu melhor amigo hoje em dia.
– Como é?! – era um pesadelo, um longo pesadelo.
– O que foi? Não me dou muito bem com ele na sua esfera existencial?
– Eu odeio aquele baixinho metido!
– Não fale assim de seu amigo.
– Seu amigo!
– Veja, vou pedir para você se retirar. Sua mulher pode estar chegando a qualquer momento e ela certamente surtaria se me visse aqui.
– Você é casado?
– Sim, você é casado. Tem dois filhos que estão passando um tempo com os avós.
– Os dois avós?
– Sim. Richard e Lauren. – Como posso explicar o que senti naquele momento? Meu pai, Richard, já havia há muito falecido, e mesmo antes de morrer já era divorciado de minha mãe. Como podiam os dois estar vivos, e casados ainda por cima?
Quando voltei a mim, estava sozinho no corredor da minha casa, parado em frente a porta aberta do escritório. Encostei na parede. Pensei em tantas coisas naquelas horas que se seguiram que de nada me recordo.
Sei que não trabalhei aquela noite.
De manhã, na firma, passei por Little Frank e estaquei. Virei-me para olhá-lo. Quase tenho um troço ao perceber que ele vinha em minha direção, sorrindo, aquela careca lustrada ofuscando os arredores.
– E então, Arthur, trouxe os papéis? – perguntou, com a mão no meu ombro. Lembrei-me de súbito da conversa que havia tido comigo e respondi:
– Claro… estão… – e saí, me controlando para não deixar de ser amigável com ele.
Ao chegar em meu local de trabalho, coloquei a maleta sobre o bureau e fiquei olhando aturdido para todos os cantos da sala. Não sei precisar quanto tempo se passou até a porta ser aberta por mim.
– O que estou fazendo aqui? – quis saber eu mesmo, após, com velocidade, trancar a porta e fechar as persianas da janela que dava para o interior da área comunal.
– Sinceramente, não sei. – Respondi tonto, sentando-me.
– Não fiz nada, não é? Nada que eu não faria?
– Não, nada…
– Vá embora, eu menor. Pode acabar destruindo todo o nosso ciclo existencial! Se eu estou aqui, provavelmente outro eu está lá no meu lugar! E outro, e outro. Tem um eu vago! A vida deste eu vago deve estar uma bagunça! – não consegui responder nada, exceto:
– Apenas dê-me um tempo… – mal havia terminado a frase, bateram à porta de. Meu outro eu, o eu central, respondeu:
– Estou com uma terrível enxaqueca. Seja quem for, volte depois por favor.
– É uma ligação urgente, senhor.
– Sinto muito, não posso atender. – A silhueta de Evanna, minha secretária, demorou um pouco antes de ir, resignada. Foi então que eu me voltei a mim.
– Como faço para voltar ao meu mundo?
– Eu não sei explicar. – Revelou-me eu, sentando-se em uma cadeira de frente para mim. – Sei fazer, mas não sei ensinar como se faz. – Completou. Pus a cabeça entre as mãos e me abaixei. Uma forte enxaqueca tomava corpo. Quando levantei a fronte, estava sentado no meu escritório caseiro e já era tarde da noite.
Tentei entender o que provocou o lapso temporal, mas não pude. Exausto e com a mente fervilhando, tomei um banho e caí na cama. O sono salvador veio logo. Contudo, dentro de mim, crescia a incerteza sobre o dia seguinte.
Assim que acordei, vi fundamentada a minha desconfiança. Estava num quarto pequeno, escuro, com cortinas de flanela, deitado em um colchão desarrumado no chão. Réstias de luz solar entravam pelas pequenas frestas da cortina na janela. O barulho da rua estava distante, o que me fazia acreditar que eu estava em um lugar alto.
Não pude assimilar o que vi quando me virei para dentro do aposento.
Um cadáver.
Meu cadáver.
Ali estava eu, de cabelos revoltados, camiseta cinza e calças jeans, descalço, com os olhos esbugalhados voltados para o teto e a boca aberta no que teria sido um último estertor. Encostada na parede, duas guitarras velhas e arranhadas. Ao alcance de minha mão, no chão, seringas.
– Puta merda! – disse, sentado de súbito e me encostando na parede descascada do quarto. O que tinha acontecido com a minha vida?
Meu coração quase parou quando ouvi as batidas na porta. Quem quer que estivesse batendo estava dizendo o meu nome, mas com um sotaque diferente. Foi então que me ocorreu que talvez eu não estivesse no Canadá.
Tive essa certeza quando ouvi a pessoa do outro lado da porta falar coisas incompreensíveis. Não era inglês ou francês. Português.
Afastei uma das cortinas empoeiradas e olhei pela janela. Estava em um prédio muito alto e mal cuidado. Lá embaixo, centenas de carros e pessoas passavam em um fluxo de trânsito incrível. Em algum lugar, a bandeira do Brasil tremulava com o vento suave daquela manhã quente.
Sabia que não podia atender a porta e me mostrar morto no chão. Poderia causar algum desequilíbrio… meu Deus, estava ficando louco. Talvez até mesmo já estivesse no sanatório.
-Artur! – e mais batidas.
– Ok, Ok! – falei. Tinha de atendê-los.
Levantei do colchão, fui até a porta, de madeira já podre, e girei a chave, abrindo só o suficiente para verem o meu rosto. Eram duas pessoas. Uma jovem bonita de camiseta branca e um homem alto com camisa preta, jeans e tênis. Carregava algum instrumento musical com ele. A menina tinha duas baquetas.
O que diabos eu fazia ali, naquela existência? Olhei para mim morto antes de olhar para os visitantes novamente.
Não entendi nada do que eles falaram. A menina riu um pouco de algum movimento que fiz, tentando mostrar a garganta. Fechei a porta e tranquei, apoiando-me nela. Suava frio.
Queria sair dali.
De súbito, pensei na firma. O que havia acontecido lá nestes dois dias em que eu não tinha ido?
Passando as mãos pela cabeça, comecei a andar pelo quarto, surdo às batidas e vozes na porta.
A janela começava a ficar atraente…
– Se um você morre, outro você nasce. – Gritei de susto ao ouvir essas palavras, virando-me instantaneamente para a parede. As batidas ficaram mais fortes e as vozes claramente preocupadas.
– Não me preocupe. É natural. – Meu eu central estava sentado em uma poltrona esburacada ao lado das guitarras.
– Eu quero sair daqui. – Falei baixo, quase um sussurro.
– Então saia.
– Não consigo sozinho. – O suor brilhava em minha testa. Subitamente, a porta foi arrombada e os dois que estavam lá fora entraram.
O olhar de terror, surpresa, confusão e incompreensão de ambos foi digno de pena. Olhavam de mim cadáver, para mim e para o meu eu central de modo aturdido, angustiado.
O jovem começou a gritar, desesperado, abraçando-se com a garota, que ainda tentava crer naquilo que seus olhos mostravam, contudo, sem muita convicção em sua própria visão. Parecia que sua alma havia sido destroçada por dentro.
Zumbi.
– Vamos. – Disse meu eu central, ignorando os recém-chegados.
– Como? – mas antes que ele pudesse me responder, estávamos no topo de um edifício, provavelmente no Japão. Uma manhã gloriosa de céu muito azul. Demorei para me situar e entender o que havia acontecido. Meu eu central já estava próximo a um muro do ambiente, olhando para a magnífica paisagem. Andei até ele e perguntei:
– Eu moro aqui também?
– Sim, eu moro aqui. – Silêncio entre nós.
– E aqueles dois? Lá no Brasil?
– A polícia não acreditará no depoimento deles. Pensarão que ambos estavam drogados também. Não acho difícil eles estarem.
– Eu só quero voltar para minha vida.
– Esta é minha vida.
– O meu dia a dia. Como eu era feliz…
– Eu não sou feliz. – Mais um momento de silêncio.
– O que eu faço aqui? – Perguntei, indicando a cidade de Tóquio com a cabeça.
– Eu trabalho com peixe. Tenho uma linda esposa japonesa e adoro ver a queda das folhas de cerejeiras. – Suspirei e contemplei a vista. Prédios e mais prédios com faixas e anúncios luminosos se descortinavam perante mim. Senti-me estranhamente bem. Mas tinha de voltar.
– Faça-me voltar.
– O meu apartamento em Vancouver.
– Sim, o meu apartamento em Vancouver. – Imaginava o caos que estaria o trabalho.
– Em outras esferas existenciais ele é ocupado por outras pessoas, às vezes, está desocupado. Escute-me com atenção. Como eu central, tenho o poder de manejar a trama. Posso trazer perante mim três portas de entrada daquele apartamento. Se eu, ou você, se preferir, acertar a porta que leva ao apartamento na minha, ou sua, esfera existencial, você evolui como eu e pode continuar levando a vida que você quer, com pleno controle sobre seus atos e mundo. Se você errar, invadirá a vida de outra pessoa e causará outra colisão de eus vagos e mundos, estará assim a mercê das linhas da realidade, exatamente como está agora, sem controle. Será um espírito da loucura, atormentando inúmeros círculos existenciais, não restando para você nada além do suicídio. Anime-se. Poucos têm a oportunidade de vislumbrar as realidades.
– E você sabia disso o tempo todo… – falei, aturdido.
– Sim. Eu sabia.
Quando percebi, lá estava eu de frente para uma longa parede contendo as três portas da frente de meu apartamento. E foi aqui que minha história começou. Ainda não sei que porta abrir. Um erro e estou acabado. O meu eu central ainda não apareceu. Creio que nunca mais vou me ver daquele modo.
As três entradas são idênticas…
Não dá mais para protelar, é hora de abrir uma delas. Não, não pode ser tão óbvio. Será?
Adiantei-me e girei a maçaneta da porta do meio.
Lá está a minha sala, exatamente como eu lembro de tê-la deixado.

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Escrito em 2007

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