O Mundo Atrás do Espelho

A casa era grande. A madeira velha rangia sob o peso dos passos. Até mesmo sob o peso dos passos de uma criança. E era justamente por isso que Daniel não podia enganar seu avô, que apesar da idade, ouvia bem e sabia quando o neto se aproximava do quarto proibido que ficava no corredor do segundo andar, perto da escada para o sótão.

Não havia jeito de enganar o velho. Ele sempre estava lendo em seus aposentos e parecia nunca dormir. Daniel já tentara entrar no recanto proibido ao final do corredor em vários horários e inúmeras ocasiões, sempre sem sucesso, pois o avô entreabria a porta de seu próprio quarto, e pela fresta, dizia para ele não se atrever a dar nem mais um passo. E se fechava, em seguida.

E Daniel ficava parado, no meio do corredor, olhando para a porta do avô, esperando que ela abrisse de novo, mas isso nunca acontecia e ele não tinha coragem de continuar seguindo para o local proibido, limitava-se a descer as escadas de volta.

Ele se irritava porque seus passos faziam cada tábua de madeira gemer, e não entendia por que nunca ouvia ruído nenhum no quarto do avô.

Passava os dias livres nos grandes jardins da propriedade, pensando em modos e mais modos de entrar naquele pequeno recanto proibido, sempre em companhia de Cego, seu fiel cachorro. Já havia reparado que o quarto o qual ele queria entrar não possuía janela alguma e nenhuma passagem secreta dava lá.

Pensou incontáveis vezes em falar com o avô, mas tinha medo dele. Daniel nunca o tinha visto por inteiro e parecia mesmo que o pai de seu pai não existia na maior parte do tempo, tal era o silêncio que imperava em seus aposentos.

Mas Daniel era uma criança, e crianças, quanto mais curiosas ficam, mais corajosas tendem também a ficar. Certo dia, Daniel resolveu falar com o avô.

Subiu degrau por degrau, cautelosamente, a escadaria que dava para o segundo andar. Nhec, nhec, nheeeec… A cada passo ficava mais apreensivo e sentia a coragem esvair, mas continuou e finalmente chegou ao tão conhecido corredor. Conhecido, pelo menos, até a metade.

O menino parou em frente à porta do quarto do avô, que, sem dúvida alguma, sabia que o neto estava próximo. Os últimos raios de sol daquele dia entravam pelas janelas que ficavam lado a lado formando uma fila no corredor do segundo andar, com as cortinas encardidas dançando suavemente ao vento.

Daniel respirou fundo, reunindo todo o ar que suas pequenas caixas torácicas pudessem agüentar e levantou a mão de punho delicado e magro para bater na porta do velho que não fazia barulho. Antes, porém, que ele pudesse encostar os nós dos dedos na madeira corroída pelo tempo, a porta se abriu soltando seu característico gemido lamurioso, revelando a familiar brecha. Não mais que isso.

O silêncio prevaleceu, mas a porta não fechou.

– Vovô? – chamou o pequeno, de maneira tímida, quase apavorada, talvez pensando seriamente em sair correndo dali.

– Entre, meu neto. Esperava essa hora chegar. – Falou uma voz masculina de dentro do quarto. Daniel se sobressaltou quando a ouviu e sentiu algo quente escorrer por suas pernas.

– Vovô? – repetiu, tremendo um pouco.

– Aqui você pode entrar. – E a criança empurrou a porta e entrou.

Era um recinto amplo, com uma cama grande forrada de lençóis brancos, e uma enorme janela ocupava toda a parede oposta à porta, de onde se podia ver o jardim. Uma escrivaninha de mogno abarrotada de folhas de papéis e cadernos tanto em cima quanto ao redor, pelo chão, ficava em um canto do lugar.

Não havia tapete ou nenhum outro tipo de luxo, exceto, uma escultura aos moldes gregos perto da cama.

Mas o pequeno Daniel estava espantado olhando outra coisa. O homem que ele nunca havia visto por inteiro e que sempre o havia assustado não passava de um velhinho de cabelos brancos e macios, com aparência simpática, sorriso de dentes amarelados e limitado a uma cadeira de rodas.

O velhinho sorridente fez um esforço com as mãos para virar a cadeira e ir até a escrivaninha, de onde tirou um telefone preto do meio da papelada.

– Mandarei trazer biscoito e leite. – Falou, se virando para o neto, que ainda o olhava com espanto, talvez ainda assustado, meio descrente.

– Você quer um lanche, não quer? – perguntou, com o fone em uma das mãos encarquilhadas, mas Daniel nada respondeu.

– Vou entender como um sim. – Complementou, sorrindo e levando o fone ao ouvido.

Enquanto ele falava com uma das criadas, Daniel olhou em volta, observando bem tudo. Devia ser horrível viver ali. Ele não suportaria. Ouviu um clique e olhou para o avô.

– E então, Daniel. O que veio fazer aqui? Tomara que seja o que estou pensando. – Daniel ficou calado.

– Você fala, meu neto? – o velhinho sorria, meio ansioso.

– Sim, eu falo. – Disse o menino, desarticuladamente.

– Ah, que bom! – o avô de Daniel bateu as palmas das mãos com vigor e o menino deu dois passos para trás.

– Não precisa ter medo. Eu não era tão medroso assim na sua idade. – Parou de falar e pôs-se a observar o neto com curiosidade. – Se tem medo tão fácil, como espera poder entrar naquele quarto?

– Eu não quero entrar naquele quarto, não senhor. – Falou Daniel, em um breve acesso de desespero, com uma gota de suor escorrendo pela testa. O avô riu gostosamente e seu neto, com os olhos arregalados e a boca meio aberta, ficou imóvel, chegando a se assustar quando a porta do quarto foi empurrada por uma das criadas carregando uma bandeja prateada contendo uma jarra de leite e biscoitos.

– Na cama, querida, na cama – indicou o velhinho na cadeira de rodas, ainda sorrindo e apontando para seu largo leito, – e feche a porta quando sair, sim? – A criada assentiu, e enquanto fazia o que foi pedido, um ligeiro pânico começou a tomar conta do corpo de Daniel. Ele não queria ficar ali, sozinho com o avô. Mas, como não esboçou nenhuma reação, logo estava a sós com o velho novamente

– Então você não quer entrar naquele quarto? – perguntou o vovô, movendo a cadeira de rodas até a cama. Daniel balançou a cabeça negativamente.

– Então qual é o motivo de suas excursões por esse corredor? – o sorriso dele iluminava todo o quarto e o menino já começava a achar que não devia temê-lo, afinal. Resolveu falar.

– Eu só queria saber o que tem naquele quarto… vovô. – O vovô pareceu apreciar a resposta e pegou um biscoito do prato de porcelana na bandeja. Mordeu um pedaço pequeno, e com a mão livre, deu umas palmadas convidativas na cama, ao lado do lanche.

– Eu vou contar. Depois você decide se ainda vai querer entrar. – Concedeu o avô, enquanto o neto se aproximava e sentava na cama, perto da bandeja.

– Biscoito? – Daniel pegou um, ainda cauteloso.

– E como isso foi acontecer? – o velhinho apontava para a frente das calças de Daniel, que imediatamente se ruborizou.

– Não sei… saiu…

– Tudo bem, tudo bem! – riu-se. – Agora, por que quer tanto saber o que tem no quarto? – Daniel não pareceu encontrar resposta e mordeu um grande pedaço de biscoito.

– Aquele quarto é perigoso, meu neto. O que tem nele é perigoso.

– E o que tem nele? – questionou Daniel de boca cheia, sem conseguir se conter.

– Um portal para o inferno. – Diante de tais palavras, Daniel parou de mastigar, ficou pálido, encarando o avô. Talvez estivesse recomeçando a ter medo dele.

– Um maravilhoso portal para o inferno. – Completou o velho, em tom saudoso, tom que os velhos sabem usar como ninguém, os olhos perdidos em alguma linha do tempo. Mas Daniel ainda não estava acostumado às delicadezas peculiares da vida e não achou que as palavras “Maravilhoso” e “Inferno” funcionassem na mesma frase. Tomou coragem então, após engolir a comida:

– Um maravilhoso portal para o inferno?

– Sim. – Respondeu o avô, ainda em seus devaneios internos. – Um espelho. – Daniel surpreendeu-se, pois, até onde sabia, a casa não tinha nenhum espelho. Enrugou a pequena testa.

– Não entendi… vovô.

– Eu não esperava que você entendesse. É um espelho indiano. Eu mesmo o trouxe de lá alguns anos atrás. – Mais olhares saudosos cruzaram a face do velho. – É tudo o que tem naquele quarto, Daniel. Um espelho. Um espelho capaz de te levar para um outro mundo, um mundo repugnante, morto, macabro, cruel, tenebroso, distorcido… um mundo que nenhum de nós está preparado para ver. – o rosto do velho homem transformava-se em pura agonia à medida que ele falava. A curiosidade de Daniel havia superado o medo.

– Você viu, vovô? Você viu o mundo atrás do espelho?

– Sim, meu neto. Eu vi. E é por isso que eu não o deixava entrar naquele quarto. Por isso eu esperava até você vir me ver. – Ele fez uma pausa. Um pássaro pousou ao lado de fora da grande janela do quarto e tanto avô quanto neto demoraram-se observando a ave.

– O que tem lá, vovô? – perguntou Daniel, após o pássaro voar.

– Isso, meu neto, você terá de ver. Já disse que é perigoso, e a agonia que reside naqueles domínios é imensurável. Agora você já sabe o que tem naquele quarto. Cabe somente a você a decisão de ir lá ou não. Não vou impedi-lo. – O velho abriu outra vez seu sorriso cativante e prosseguiu:

– Mas hoje você está me visitando, e pediria que, ao menos hoje, não fosse lá. Fique comigo, vamos conversar, nos conhecer!

– Tudo bem. – Falou Daniel. – Mas o que é tudo aquilo? – perguntou, apontando para a escrivaninha.

– Coisas chatas para uma criança.

– Que tipo de trabalho?

– Nada que possa interessá-lo, acredite. – Falou o avô, de modo paciente, ainda sorrindo.

– Você escreveu algo sobre o espelho? – perguntou Daniel, com os olhos brilhando.

– Você é curioso! Há, há, há… igual a mim na sua idade! Mas me diga… você já sabe ler? – Daniel pareceu sentir-se ofendido.

– Claro que sei! Já tenho nove anos! – empertigou-se – ano que vem vou ter dez! – informou, com orgulho.

– Bom, nesse caso… terceira gaveta de cima para baixo, à esquerda na escrivaninha. – Mal o avô havia terminado, Daniel pulou da cama e correu até o móvel. Abriu a gaveta indicada e encontrou lá um livro-diário de capa grossa, feita de couro de crocodilo.

– Meu neto… Só entre no quarto se estiver preparado. Devo avisar que, se fizer isso, sua vida, do dia em que conhecer o espelho em diante, será um eterno pesadelo. E você nunca vai poder acordar.

O resto do dia Daniel ficou com o avô. À noite, começou a ler o diário que lhe foi entregue.

 

3 de Abril de 1886

 

Hoje o sol não se mostrou completamente para além das colinas de nosso pequeno acampamento. Sinto uma leve melancolia pairando no ar e não recebemos nenhuma carícia do vento até agora. O calor sufoca. Hugelake e Graves estão enchendo nossas reservas de água neste exato momento, posso ver que olham para mim de soslaio e conversam algo entre si, provavelmente referindo-se à magnífica peça que resolvi levar para nossa terra comigo.

FatBelly tentou dissuadir-me da idéia de levar o espelho para Oxford, mas estou decidido a fazer isso… foi uma das poucas coisas de valor que consegui trazer comigo nesta jornada inútil. Já começo a sentir o agradável aroma de coelho escaldado com batatas e ervas, de modo que minha boca saliva indecentemente; dou graças aos céus por não estarmos passando fome como os povos desta região. Certamente, na hora da refeição, teremos outra discussão sobre meu tesouro. Sim! Um tesouro! Posso vender isso em Londres por uma fortuna!.

Dale já está avisando que o ensopado está pronto. Agora vou revisar meus argumentos em defesa do espelho e desfrutar do mais delicioso prato que pode ser feito sem a comodidade de uma cozinha bem equipada.

Uma coisa é certa: não sentirei falta da Índia.

 

À noite

 

Estava certo. Durante o almoço tornaram a falar sobre meu belo espelho. Chegaram a insinuar que seria melhor largá-lo ali mesmo, era carga extra e absolutamente descartável, visto que não havia mulheres no grupo. Todos riram quando Graves disse isso.

Percebo que terei de montar certa guarda em frente ao espelho: tenho a impressão de que eles estão planejando quebrá-lo ou roubá-lo quando eu não estiver atento. É isso que estou fazendo agora. Escrevo essas linhas sentado em frente a ele, observando meu reflexo levemente distorcido. Ele é maravilhoso. Agora que olho melhor, não sei se realmente quero vendê-lo.

Sua borda é feita de uma madeira que eu nunca havia visto até então, pequenas criaturas de cabelos encaracolados, faces torcidas e olhos redondos emolduram a lâmina de vidro, cada uma com uma expressão diferente.

Pensando bem, dá algum medo.

Seu suporte, como se fossem os pés de uma grande e deformada ave, também não é a coisa mais agradável de ver… definitivamente, tem algo estranho com meu reflexo… Tudo parece ter uma profundidade maior e mais viva…

Provavelmente são as luzes das velas que estão tornando minha vista cansada e enfumaçada. No entanto, não acho uma boa idéia dormir… podem fazer algo com o espelho.

 

 

 

4 de Abril de 1886

 

O sono me venceu. Graças a Deus o espelho continua no mesmo lugar da noite passada. Não me parece tão assustador de manhã. Ouso dizer que é até simpático. Ouço passos pesados que devem pertencer a Fatbelly.

 

À tarde

 

Meu diário fidelíssimo, acabo de ouvir a mais total bizarrice de nosso cozinheiro, Dale. Desconfiado como eu nunca o havia flagrado, e olhem que ele vive assim, já que é justamente o cozinheiro, ele me puxou para além dos limites do acampamento e disse que eu tinha que me livrar de uma vez daquele espelho demoníaco.

Ao perguntar, pela enésima vez, o porquê daquela certeza, ele abaixou a voz, como se espíritos pudessem estar ouvindo nosso diálogo, e disse que Hugelake e Graves tentaram tirar o espelho da minha tenda de madrugada e viram algo realmente maligno refletido no vidro. Contaram também que as criaturas na moldura pareceram ter vida própria, seus olhares assustaram os dois.

Acho que dificilmente voltarei a rir daquele jeito na vida. Dale, lógico, ficou ofendido e comentou que falara aquilo não apenas pelo meu bem, mas pela segurança de toda a caravana.

O que eu não entendo é como nosso caro matador de coelhos e pássaros pôde acreditar nisso. A menos, claro, que tenha sido algo armado entre eles, um artifício para eliminar a carga extra, mais por inveja do que por praticidade.

 

6 de Abril de 1886

 

Esta será a última noite que ficaremos aqui. Logo estaremos em nosso navio de volta para casa. Enquanto escrevo, observo atentamente o espelho. É inegável o fato de que ele realmente parece ganhar contornos sobrenaturais à luz da lua. Será que Hugelake e Graves não estavam… esqueça essa linha, meu bom diário, dormirei agora. O quanto antes eu chegar à minha adorada Inglaterra, o melhor.

Acho que vou vender o espelho.

 

 

 

7 de Abril de 1886

 

Tive a péssima sensação de que fui observado a noite toda, cheguei mesmo a acordar repetidas vezes. Fatbelly jura que viu alguém caminhando pelos arredores de nossas tendas. De qualquer modo, tenho de ir. Já arrumei boa parte das minhas coisas, o espelho está envolto em uma grande lona encardida. Foi o melhor que pude arrumar. Certamente minhas próximas anotações virão de meus aposentos no navio.

 

 

 

8 de Abril de 1886

 

Como havia previsto, aqui estou sentado no meu catre, sim, porque isso não é uma cama. Consegui que o espelho ficasse no meu quarto, pois certamente seria danificado se repousasse com as demais bagagens nos andares inferiores. Lembrei-me do meu filho e de minha esposa, que estariam esperando por mim de braços abertos e cheios de histórias para contar de eventos que ocorreram na minha ausência. Estariam esperando grandes histórias de mim também, mas nada poderia lhes dar, a não ser o breve incidente do espelho, que foi, no mínimo, curioso.

Sempre sinto uma inexplicável vontade de dormir em navios, por isso, boa tarde. Descansarei com as imagens da minha família na mente.

 

14 de Abril de 1886

 

Estive ocupado com alguns afazeres aqui, daí o motivo de minha ausência nestas páginas. Devo dizer que coisas estranhas parecem estar acontecendo pelo navio, embora eu não tenha presenciado nenhuma. Várias pessoas falam de presenças desconhecidas caminhando pelo convés à noite. Dois marinheiros disseram ter visto um homem desconhecido perambulando pelos corredores escuros do navio.

O fato é que, mais uma vez, Dale veio falar comigo, e dessa vez não fiz pouco caso de suas palavras, mesmo achando ainda absurda a idéia da culpa do que quer que estivesse acontecendo ser do espelho. Ele queria que eu jogasse o artefato no oceano, ameaçou contar a todos os demais sobre o objeto se eu não o fizesse. Ele, Hugelake, Graves e Fatbelly estavam calados até agora por minha segurança, não sabiam se os tripulantes seriam tão compreensivos ao verem o item das trevas que eu havia trazido para dentro da embarcação.

Aquilo me incomodou, e realmente pensei em desfazer-me do espelho, mas não podia. Não posso.

Consegui que Dale me desse mais algum tempo. Eu precisava de provas também. Precisava ver os vultos com meus próprios olhos, ou, ao menos, ver alguma coisa estranha relativa ao espelho, fato que ainda não tinha acontecido.

Meu caro diário, ou quem quer que esteja lendo isso quando eu já não estiver mais aqui, no íntimo eu sempre soube que havia algo de errado com aquele espelho, sabia que ele não era exatamente normal. Mas não podia livra-me dele de modo tão grosseiro. Se tinha de me separar desta obra de arte, seria do modo adequado, vendendo-o na Inglaterra.

 

Daniel fechou o diário do avô, os olhos arregalados, a respiração tensa. Queria continuar lendo, mas o sentimento desconfortável do medo começava a se alastrar pela sua jovem alma. Já estava bem tarde e ele não se sentia nem um pouco inclinado a apagar a luz para dormir. Na verdade, pensava estar vendo as sombras presentes no quarto em movimento, zombando de sua percepção.

Cogitou ir até o avô, mas tal pensamento não passou de uma idéia. Não teria coragem para perambular pela casa escura até o corredor do seu avô. Corredor este, Daniel lembrou com um leve calafrio, que também encerrava o quarto contendo o agourento espelho indiano.

Uma pequena onda de desespero desolado começou a tomar posse do franzino corpo do menino. Viu a fraca claridade da fenda abaixo da porta sumir por um instante e depois tornar a aparecer. Suas calças ficaram molhadas mais uma vez.

A agonia que conduziu o pequeno Daniel pela noite é inenarrável. A todo o momento, o garoto pensava estar vendo movimentos de sombras. Ouvia sussurros estranhos enquanto o vento noturno balançava sua janela. Queria estar com Cego, seu cachorro, no entanto não ousou sair do quarto. Não ousou sequer sair da cama molhada.

Ele não queria mais entrar no quarto do espelho, e embora quisesse continuar a ler o diário, não conseguia reunir coragem o suficiente para fazê-lo.

Encolhido na cama, olhos esbugalhados, observando cada detalhe do ambiente, Daniel imaginava figuras assustadoras enquanto pensava no mundo encerrado atrás do espelho indiano.

Arrepiou-se quando percebeu o real significado das histórias que seu pai contava sobre a casa do avô, mencionando que muitos empregados não se sentiam confortáveis dormindo lá. Foi entendendo, devagar e com medo crescente, as reações estranhas de seu cão, Cego, em várias ocasiões. Pêlos eriçados, latidos para o nada e olhares fixos no vazio.

Ele queria ir para casa, mas sabia que não seria possível. Seu pai havia mencionado que um grande problema estava engolindo a Europa e que o antigo casarão da família era o lugar mais seguro para se estar no momento.

Órfão de mãe e sem irmãos, Daniel sentia-se extremamente solitário, pois também era afastado dos tios e quase nunca encontrava os primos. O velho na cadeira de rodas no andar de cima era seu único avô vivo. Se não fosse isso, o menino estaria na casa de sua avó materna, falecida dois anos atrás, em 1938.

Naquele instante, porém, toda a concentração de Daniel voltava-se para a porta, como se esperando que alguma coisa fosse abri-la a qualquer tempo.

Nada aconteceu e o organismo infantil do menino, por mais assustado que estivesse, ao notar os primeiros sinais do sol, colocou-se em aflito e inevitável repouso, possibilitando àquela jovem alma um pouco de perturbada paz.

Assim que despertou no meio da tarde, Daniel subiu correndo para o quarto do avô, levando o diário do velho apertado contra o peito.

Ao adentrar o corredor, agora não mais proibido, ele estacou, olhando para a última porta diretamente em frente ao lance de escadas. As cortinas brancas das janelas laterais esvoaçavam com suavidade, tocadas pelos dedos do vento vespertino. Um novo receio crescia dentro dele, talvez provocado pelo costume de toda vez parar naquele mesmo lugar e encarar o corredor.

Ao sair de seu estupor momentâneo, Daniel avançou em direção à porta do seu vovô.

– Entre, meu neto. – Respondeu o velhinho, antes que o neto pudesse bater. A voz cansada, simpática e solícita. Daniel entrou com a testa franzida, olhando atentamente para o velho na cadeira de rodas.

– Alguma coisa estava atropelando os degraus. – Disse o avô, com um sorriso amável no rosto, respondendo a muda pergunta do menino de como o homem sabia que o garoto estava parado em frente à porta de seu quarto.

O velho rodou a cadeira de rodas para perto da ampla janela de seu aposento e pôs-se a observar o opulento jardim da propriedade. Daniel, parado ao lado da porta ainda meio aberta, contemplou seu avô com atenção, pensando o maior número de coisas que a cabeça de uma criança pode pensar. Fechou a porta devagar e caminhou até o velhinho. Já não sentia mais medo algum dele.

Lá embaixo, na grama, Cego dormia completamente esparramado, indiferente a uma criada que podava algumas roseiras.

– Você gosta de ficar no jardim, não é, Daniel? – perguntou o avô, sem tirar os olhos da imagem que via.

– Uhum. – Respondeu o menino, também hipnotizado pela visão. O diário do velho pendia frouxamente de sua mão esquerda.

– Acordou agora?

– Sim. – Retorquiu o garoto. Logo se lembrou porque fora lá. – Vovô. – começou Daniel.

– Meu neto? – assentiu o velho, girando a cadeira de modo a ficar de frente para a criança.

– O espelho… por que o senhor não se desfez dele?

– Leu o diário, meu filho? – questionou o vovô, reparando no diminuto livro na mão do neto.

– Não todo… eu… tive…sono…

– Há, há, há… sono? Realmente, saístes tarde daqui ontem, meu neto. – Mais uma vez o sorriso do velho iluminou todo o entorno e Daniel sentiu-se melhor.

– Ainda quer entrar no quarto, meu neto? – o velho sorria, os dentes amarelados pelo tempo.

– Não sei…vovô, por favor, o que tem naquele espelho? Que tipo de criatura sai de lá? Que tipo de lugar tem lá dentro?

– Não posso dizer, meu neto. Se quiser saber, terá de ver. Pessoalmente, não o aconselho a fazer isso.

– Mas o senhor escreveu no diário o que tem lá? O quê o senhor viu lá? – o tom de Daniel era de ansiedade reprimida.

– Apenas continue lendo, meu neto. – Encerrou o velho, com uma expressão verdadeiramente enigmática.

– …

– Já almoçou, Daniel? – interrompeu o avô. – Comeu algo hoje? – o olhar simpático e solícito havia retornado à face do velho.

– Não, senhor.

– Que tal comermos algo em uma das mesas do jardim, assistindo ao magnífico espetáculo natural do pôr do sol?

– O senhor vai sair do quarto!? – perguntou o garoto, absolutamente incrédulo.

– Há, há, há… Eu sempre saí daqui, meu querido neto! Agora, porque não vai dizer a Júlia que chame o Bruce para me ajudar a descer as escadas?

– Eu nunca vi o senhor fora do quarto!

– Daniel, você nunca havia me visto, dentro ou fora do quarto, não é verdade?

Avô e neto desfrutaram de um almoço tardio e saboroso no final daquela tarde, com as roseiras exalando seu perfume e Cego deitado aos pés da mesa de ferro pintada de branco, adornada e moldada em arabescos e floreios graciosos.

Conversaram sobre a escola de Daniel e sobre as viagens do avô, deixando, vez ou outra, alguma coisa no chão para Cego se deliciar.

Das melancólicas tardes que Daniel passara naquela casa, aquela fora, senão a melhor, a mais incomum. O efeito pareceu ser mais forte no avô, que quando chegou a seu quarto, no segundo andar, tinha os olhos levemente marejados e uma feição carregada de emoção.

No início da noite, Daniel encontrava-se mais uma vez em sua cama, com o diário do avô aberto à sua frente.

 

20 de Abril de 1886

 

Seis dias se passaram desde que Dale veio ter comigo sobre o espelho da última vez e nada vi de estranho, nada notei de errado, nada percebi de peculiar. No entanto, os tão falados vultos nos corredores do navio continuam aparecendo, de acordo com os tripulantes, e o medo cresce a bordo. Graves e Hugelake já me lançam olhares impacientes. Sei que não me deixarão com o objeto por muito mais tempo, mas não posso deixá-los… o engraçado é que, apesar de ainda nada ter visto, começo a acreditar no testemunho dos marujos. Já me ocorreu que tudo pode ser uma armação dos quatro, junto com a tripulação, para se livrar do espelho, mas acho que esse meu temor é infundado. Qual seria o sentido disso? Algo está realmente acontecendo.

 

21 de Abril de 1886

 

Meu caro e honrado diário, receptor de minhas confidências e alucinações, desculpo-me pela letra grande e borrada, mas isto eu tenho de relatar. Preciso escrever para ter certeza de que estou são, de que ainda sei unir blocos de letras e formar palavras, tenho de saber que uma parte de meu cérebro está bem e cumprindo suas funções lógicas, apesar de estar servindo à parte que vai narrar agora um completo absurdo, um louco e terrível delírio.

Eu estava sem sono, e isso é difícil de acontecer comigo, especialmente em navios, e não queria ficar no quarto acordado sozinho, tendo por companhia apenas o sinistro espelho indiano que parece abrigar espíritos. Resolvi sair e perambular pela embarcação para aproveitar um pouco a brisa do mar e a total visibilidade das estrelas. Querido diário, não estava muito concentrado em nada e não me importava aonde meus pés me levavam. Que agonia! De agora em diante terei consciência quando estiver andando. Jamais andarei a esmo! O fato é que cheguei a um desses estreitos e mal iluminados corredores destinados aos tripulantes que executam os trabalhos braçais. O tapete carcomido e as portas arranhadas já não eram bons prenúncios.

Diário, caro diário, fiel companheiro, ninguém acreditará no que eu vi.

Ali, ao final do corredor, pairava uma figura em andrajos, tão alta que o longo pescoço estava curvado, com a parte de trás da pequena cabeça roçando o teto, e os braços, longos, esquálidos e esqueléticos, pendendo frouxamente ao lado do corpo.

 

Daniel fechou o livreto com força e olhou assustado para a porta. Tudo parecia tranqüilo. Tranqüilo demais. Olhou para o diário do avô e o depositou muito devagar, quase ritualmente, em cima do criado mudo próximo à sua cama. O garoto arfava e suava frio, tinha os olhos arregalados e os músculos tensos; o coração doía em seu peito tamanha a velocidade em que batia.

Dormir estava fora de cogitação.

 

O garoto passou horas com os olhos esbugalhados fixados em algum ponto da parede em frente. O medo lentamente se alastrava por cada parte de seu corpo e seu coração simplesmente parou por uns momentos quando ouviu batidas na porta. O menino não moveu um único músculo até ouvir a voz de Júlia, uma das serviçais:

– Daniel, está acordado?

– Estou. – Respondeu, com uma voz rouca que nem parecia sua.

– Posso entrar?

– Claro, claro. – Disse, ansioso por companhia. Se não fosse seu estado de medo, seu espírito perturbado, teria notado o leve tom de tristeza na voz da mulher.

A moça entrou no quarto trazendo um copo de água que estendeu para o garoto. Daniel bebeu avidamente. Não lembrava que estava com tanta sede. Júlia olhava-o com carinho e um certo quê de melancolia, junto com preocupação.

– Daniel. – Chamou ela suavemente, ao que a criança, ainda com o copo na boca respondeu com um ruído desses que nossos pais costumam dizer que é falta de educação.

– Eu não sei como dizer isso… faz pouco tempo que vocês se conhecem, mas ele parecia gostar muito de você… – Daniel parou de beber a água para prestar mais atenção. Aquela conversa estava estranha. Sentiu um aperto interno.

– Daniel, seu avô foi embora. – O garoto já sabia que aquela expressão era usada quando as pessoas morriam.

– Ele me pediu que levasse o diário e entregasse a seu pai. Falou que quando você completasse vinte e um anos, se ainda lembrasse tudo isso, poderia ter o diário de volta. Ele ainda conseguiu falar com seu pai antes de partir. – Daniel olhou para o diário cuidadosamente posto em cima do criado mudo.

– Eu não vou ler. – Disse a jovem.

– É o melhor que você faz. – devolveu Daniel, usando uma voz quase etérea. Júlia olhou para ele espantada por algum tempo. Pegou o diário e observou sua capa de couro de crocodilo. Subitamente, Daniel lembrou-se de algo:

– O que vai acontecer com o espelho?

– Que espelho?

– O espelho indiano no final do corredor do quarto de vovô.

– Não há espelho nenhum naquele quarto, Daniel. – Após essas palavras, o garoto saiu correndo do local e logo seus passos agoniados puderam ser ouvidos no andar acima.

Quando Daniel alcançou o segundo andar, estancou por um breve instante, como de costume, mas logo seguiu célere em direção ao cômodo no fim do corredor. As cortinas brancas, esvoaçando com o sopro noturno, davam um ar macabro ao lugar. Ao passar perto da porta do avô, Daniel parou. Estaria o velho lá ainda? Calafrios percorreram seu corpo, e logo se afastou, reunindo toda a sua coragem infantil para ir adiante.

Chegou, enfim, à entrada do tão esperado aposento. Respirava com força, ofegava. Queria muito ter Cego, seu fiel cachorro, consigo, mas não voltaria para buscá-lo. Precisava entrar naquele momento.

Escancarou a porta.

O quarto estava vazio.

O pequeno Daniel ficou perdido em cadeias de pensamentos que só as crianças são capazes de produzir, tentando achar respostas. Demorou para notar um insignificante pedaço de papel no chão. Andou até ele.

 

Então você teve a coragem, finalmente. Não se preocupe, meu neto. Daqui a alguns anos vai conseguir entender o que fiz.

 

Treze Anos Depois

 

Daniel estava sentado em um confortável sofá na sua sala de estar em Londres. Os esforços para a reconstrução ainda não haviam terminado totalmente, mas tudo ia bem. Sua esposa, Isabel, estava ocupada cuidando do primeiro filho do casal, nascido há pouco tempo.

Em suas mãos, tinha o diário do avô, que havia pego em um cofre de banco. Não estava mais em poder de seu pai, pois este tinha morrido na guerra.

Quando abriu o livro, deparou-se com uma carta que não estava lá antes. Leu.

 

Querido neto, suponho que você já atingiu a idade recomendada. Assim sendo, posso falar claramente. Tudo o que você encontrar neste diário é mentira. Nada aconteceu e não existe espelho algum. Lembra da história, não é? Suponho que sim, senão não teria reivindicado o diário das mãos de seu pai. Gostaria muito de saber como vai meu filho. Meu amado neto, espero que aqueles poucos dias em minha casa tenham marcado você. Fiz aquilo para aliviar suas preocupações, para levar sua concentração a outras coisas. Soube, pelos criados, que você era muito quieto, fazia perguntas todo o tempo sobre seu pai… foi então que, por acaso, deixei escapar que o famigerado quarto do segundo andar era uma área proibida. Sabia que sua curiosidade infantil o levaria diretamente para lá, mas sempre arranjava um jeito de impedir seu progresso. Queria aumentar o mistério sobre o lugar.

Eu observava pela janela enquanto você caminhava com seu adorável cão. Você parecia mais vivo, mais entusiasmado com tudo depois que soube da restrição acerca do quarto. Começou a bolar planos para poder burlar minha vigilância. Nesta fase devo confessar que me diverti muito.

Mas o que tinha no quarto? Nem eu sabia. Precisava criar algo, inventar, pois sabia que logo teria que dar maiores informações, para não correr o risco de você perder o interesse. Peço perdão se a história que inventei foi por demais tortuosa para um menino de sua idade. Talvez tenha sido um reflexo de minha alma destroçada que desejou em seu recôndito mais íntimo que tudo aquilo fosse verdade. Que houvesse, em algum lugar, algo maior do que a realidade que vemos no cotidiano.

Sim, meu neto, eu fui à Índia e foi lá que perdi o movimento das pernas. Levei um tiro nas costas.

Voltei para a Inglaterra sozinho, sendo cuidado pela tripulação do navio que me trouxe e lidando com a ruína de muitas das minhas expectativas. Fiquei confinado a uma infeliz cadeira de rodas, sonhando com viagens, pessoas. Sua avó foi maravilhosa, mas não pude deixar de me sentir nada além de um fardo.

Foi então que decidi me isolar naquele casarão. Ali não incomodaria ninguém.

Passamos muito pouco tempo juntos, meu neto, e sinceramente, não espero que você entenda o quanto aquilo significou para mim, um velho nada absorto em seus contos absurdos.

Foi aí que decidi morrer. Bruce, meu mais fiel criado, comunicou a Júlia que eu tinha partido e que meu diário deveria ficar com meu filho, seu pai.

Não morri aquela noite Daniel.

Mas eu iria morrer. Tenho certeza de que enquanto você lê isso os vermes já há muito se banquetearam com minha carne. Os médicos já haviam me alertado que meu estado era péssimo e que pouco tempo eu tinha de vida.

O que eu não queria era que você, a mais preciosa jóia que descobri na vida, e novamente não espero que entenda ainda, me visse morrer diante de seus olhos. Não queria correr o risco.

Saí daquela casa com Bruce e fui para Cork, no sul da Irlanda, para uma pequena casa. Era um lugar onde eu poderia morrer em paz. Se não fossem as pessoas que amei, você, seu pai e sua avó, não sei se valeria a pena ter vivido.

Se quiser, pode continuar a ler o falso diário. Tudo o que encontrará são invenções, como já adverti. Mas, cá entre nós, estão muito bem inventadas. Se não quiser perder seu tempo, peço apenas que o guarde com carinho.

 

Com afeto, Vovô.

 

Daniel deu um sorriso melancólico enquanto uma lágrima escorria de um de seus olhos, impressionado como breves momentos podem marcar com muita força a vida das pessoas. Ele também nunca havia esquecido o avô. Não sentia raiva, apenas saudade.

Visitaria a vila de Cork, na Irlanda, para ver o local onde seu avô dera o verdadeiro último suspiro. Mas antes, tinha algo a fazer.

 

O sol morno do verão banhava toda a propriedade. O lugar estava exatamente como Daniel lembrava há tanto tempo. O local era da família ainda, mas ninguém mais morava lá. O jovem desceu do carro e tirou as chaves do bolso do paletó. Destrancou a porta da frente e entrou. Os móveis cobertos com tecidos brancos davam uma atmosfera de completo abandono ao lugar. Depois de um tempo contemplando a cena, subiu as escadas, que agora rangiam mais do que ele lembrava, e logo se encontrou no corredor do segundo andar. As cortinas, já esburacadas, continuavam a dançar com aquele vento suave de verão.

Abriu a porta do antigo quarto do avô e viu que os poucos móveis do local também estavam cobertos. Havia mais um que ele não se lembrava de ter visto no passado. Era alto e fino. Estava perto da parede. Sorriu ao imaginar o velho na cadeira de rodas, zanzando pelo quarto, esperando seu querido neto subir para ver o que aquela porta proibida, adiante, encerrava.

Foi até a janela e deu uma boa olhada no terreno.

Saiu dos aposentos de seu avô e foi até o último quarto do corredor. Olhou longamente para a porta e entrou.

No lugar vazio, Daniel foi até a parede oposta à porta e sentou encostado nela. Tirou o diário do avô do bolso interno do paletó e logo achou o ponto onde havia parado. Lembrava bem. Começou a ler e não notou um caco de vidro de espelho bem pequeno jogado a poucos centímetros dele.

 

 

 

 

 

 

Conto escrito em 2007. Está com os erros, falhas e inadequações dos meus 20 anos. Era deixar assim ou apagá-lo. Preferi deixá-lo assim.

 

 

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