O Aquário

O famoso aquário de Sidney recebia todos os dias milhares de visitantes, nenhum porém tão assíduo quanto o jovem Joshua, um rapaz franzino com finos cabelos loiros e pele de aspecto doentio. Todos os dias, lá estava o curioso personagem observando toda a vida marinha em cativeiro, os olhos esperançosos atentos a qualquer movimento em qualquer região dentro de seu campo de visão. Joshua já era velho conhecido dos funcionários do aquário, e também do velho Steve, um polvo gigante de mais de quatro metros que curiosamente se aproximava da imensa parede de vidro toda vez que avistava o rapaz, grudando nela suas ventosas e examinando o irrequieto visitante. Joshua sabia que o polvo entendia o motivo de suas idas diárias ao aquário.
Tudo havia começado há dois anos quando ele, ainda adolescente, viu uma inusitada notícia num desses jornais que passam no horário do almoço. Pescadores australianos haviam encontrado uma nova e inacreditável espécie de peixe, era algo fantástico demais para ser verdade. Nas imagens, tudo o que deu para ver foi um belíssimo e enorme rabo cor de esmeralda. Com a curiosidade desperta, Joshua esperou ansiosamente pelo noticiário noturno, onde as informações seriam atualizadas e ele poderia ver que raios era aquilo.
Mas nada passou.
No dia seguinte nada foi comentado também, e assim continuou nos posteriores. A notícia havia sido abafada.
Na internet ele também nada achou sobre o estranho caso e decidiu ir até o local onde foi feita a captura. O nome do pesqueiro que havia pescado o exemplar da nova espécie havia aparecido na televisão e não seria difícil encontrar. Era a Dama dos Corais. Ao chegar na área dos pescadores avistou um barco bastante parecido com o da televisão e foi até ele, certo de que era o que procurava, mas não era. Este se chamava “Aurora”. Indagou pela região sobre a “Dama”, pensava que ela havia saído para a pesca, mas ninguém soube informar. Alguns disseram que tal embarcação sequer existia ali. Quando ele começou a perguntar da captura feita pelos pescadores, as reações ficaram ainda mais estranhas. Eram respostas curtas, todas dizendo que não haviam ouvido falar sobre o caso. Na sua terceira ida ao local o pessoal começou a ficar meio agressivo e ele deixou de ir.
A Curiosidade crescia a tal ponto que ele não conseguia nem dormir adequadamente. Ninguém que ele conhecia havia visto a notícia, ou isso ou as pessoas diziam que não tinham visto. Começou a perguntar a seus professores até que Clarice Irwin, professora de Geografia, admitiu ter visto a intrigante notícia. Em compensação, não estava muito interessada no assunto. Na verdade, não estava nem um pouco interessada. Mais apática impossível.
Aconteceu que uma manhã, no intervalo entre aulas, Joshua se encontrava sentado embaixo de uma árvore bem afastada, num dos cantos do pátio. Seu semblante devia estar transparecendo tristeza e frustração, pois Nate, um dos zeladores do colégio, ousou se aproximar dele e perguntar se estava tudo bem. Joshua foi direto e perguntou sobre a notícia. Sim, Nate havia visto. Os olhos de Joshua brilharam de esperança, afinal Nate não demonstrava gélida indiferença, como a professora, e parecia até entusiasmado. O rapaz perguntou se o velho zelador sabia o que os pescadores haviam pegado e recebeu uma surpreendente resposta. Lembrou que ficou sem palavras por um ou dois minutos. Um dos pescadores era irmão de Nate e não quis contar à família o que havia encontrado. Joshua pediu por favor vária vezes antes de Nate concordar em levá-lo até seu irmão, afinal ele também estava curioso, não tanto quanto o garoto, mas tinha curiosidade.
Joshua esperou impaciente o expediente do zelador acabar e juntos foram para a casa modesta do irmão pescador. Duas batidas e logo a porta estava aberta. Os visitantes entraram e Félix parecia adivinhar a razão da visita, pois foi logo dizendo que não teceria comentários em relação “ao assunto”. Após perguntar se Felix os expulsaria de casa e receber uma negativa como resposta, Joshua mostrou o quanto uma pessoa curiosa pode ser irritante. Nate parecia estar se divertindo e fez coro ao jovem.
Félix resistiu por bravas duas horas e meia até que resolveu fazer um acordo. Contaria o que era a tal nova espécie mas os fez jurar que não abririam a boca. Sua vida estava em jogo ali e ele assumiu que nem seu irmão nem o rapaz que este mesmo trouxera até sua casa queriam assumir a responsabilidade pela morte de alguém.
Félix disse que o peixe pescado com seu amigo Paul não era algo bonito de se ver. Tinha mais ou menos dois metros de comprimento e só a cauda correspondia a mais da metade deste tamanho. O curioso é que, acima da cauda, havia algo muito parecido com um torso humano, com braços, cabeça e tudo, até mesmo coisas que lembravam seios. Mas todo o corpo do animal era coberto de escamas, seus olhos eram grandes e de um amarelo profundo, seus cabelos tinham fios grossos, ásperos e a criatura possuía membranas entre os dois segmentos dos braços e nas axilas. Uma grande e assustadora nadadeira saía de suas costas e seguia o trajeto da coluna.
Felix resumiu tudo dizendo que a coisa era um monstro horrível. O ruído que a criatura fazia, no entanto, era mais belo e harmonioso que o canto do cisne. Tocava a alma, admitiu.
Joshua sabia que só havia um lugar onde eles podiam manter o bicho em segurança enquanto o estudavam.
O Aquário de Sidney.
Depois de quase dois anos de convivência diária e prestes a conseguir um estágio no local pelo seu curso de Biologia, ele havia reunido vários indicativos de que a lendária sereia estava mesmo lá. Havia até, por meio de extensa pesquisa, encontrado diversas explicações sobre sua origem e sobre a realidade das lendas navais dos séculos passados.
Sobre a existência de tais criaturas ele achou bem plausível a teoria evolucionista de certo pesquisador independente norte-americano, que dizia que do mesmo modo que os peixes foram parar na terra e se adaptaram ao ambiente, formando com o passar dos milhões de anos vários tipos de criaturas, algo parecido havia acontecido com certo grupo de mamíferos, mas no sentido inverso. Em uma área de freqüentes inundações, cercados por montanhas íngremes e sem ter para onde ir, alguns indivíduos de certa espécie primata começaram a sofrer modificações em sua fisiologia ao longo dos milhões de anos. Quando a área em quem viviam finalmente foi tragada de vez pelas águas eles já estavam prontos para uma vida totalmente submarina.
Quanto às lendas, Joshua concluiu que às vezes, quando se passa muito tempo no mar, o cérebro não se porta muito bem, especialmente antigamente quando as embarcações de cruzeiro não tinham o conforto e estabilidade das atuais e mulheres raramente eram permitidas na tripulação. O que acontecia era que os marujos, cansados de viagem, muitas vezes com sérias carências alimentares e falta de contato feminino, avistavam sob a água estas curiosas silhuetas e, atraídos por seu canto, que parecia haver um consenso de que era belo mesmo, juravam estar vendo uma linda mulher chamando-os para o paraíso. Se atiravam então ao oceano e nunca mais voltavam, puxados pelas sereias para as profundezas, onde serviam de jantar.
Joshua tinha conseguido até mesmo escutar uma gravação do que seria um canto de sereia. Era a melodia mais tocante que ele havia escutado e causou arrepios por todo o seu corpo. Como seria cara a cara com uma, ao vivo, então?
Uma das informações mais preciosas que ele conseguiu extrair foi que, durante o horário de visitação, o “estranho animal” ficava em outro compartimento, às vezes sendo estudado, observado. Só à noite é que abriam as comportas e o deixavam entrar na parte gigante do aquário. Nessa hora, as luzes do lugar eram reduzidas ao mínimo e assim permanecia até perto do fim da madrugada, quando o espécime retornava de espontânea vontade para o seu aposento reservado. Nenhum funcionário noturno havia visto a nova espécie. Apenas um deles, mais curioso, demorou-se demais em varrer o salão e pôde avistar um estranho vulto de olhos amarelos o observando de trás de uma pedra, quase como se fosse alguém que tivesse caído no aquário e resolvesse bisbilhotar seu trabalho dali de dentro.
Na manhã seguinte recebeu a notícia de sua demissão e o aviso para ficar calado.
Como era inevitável, rumores se espalharam lentamente ao longo dos dois anos sobre uma estranha criatura vivendo no aquário. Ainda bem, pensava Joshua, que ninguém imaginava que fosse uma sereia e todos pensavam que podiam ver o tal bicho durante o horário regular de visitas. Os riscos eram mínimos e o estudante de Biologia ficava contente com isso.
Não demorou para ele perceber que também queria proteger o segredo. Entendeu porque a notícia fora abafada há dois anos e se xingou bastante por ter sido tão xereta na época. Podia ter levantado mais suspeitas, mais curiosos, alguns talvez não tão bem-intencionados.
Quando sua mãe perguntou o porquê das idas diárias ao aquário Joshua disse que o polvo gigante era fascinante, assim como o mero que de vez em quando via por lá. Falou para os pais que o estágio era algo em que vinha pensando fazia tempo. Queria estudar Steve.
O problema era que a equipe de pesquisa que trabalhava no aquário era muito seletiva. Apenas dois estagiários por ano e pronto. Mas Joshua confiava no seu currículo e tinha certeza de que venceria a seleção.
Foi quando estava olhando Steve com atenção, os tentáculos do polvo se esticavam, incrivelmente espalhados pela superfície do vidro, que um homem maduro, de óculos e bigode veio confirmar sua identidade. Ele poderia começar no dia seguinte.
Nos quatro primeiros meses de estágio nenhuma menção à sereia. Não o permitiram trabalhar também à noite como ele tanto queria. Discreto, Joshua se preocupou em ganhar a confiança de toda a equipe, e depois de um ano e meio de estágio sentiu que a tinha.
Lógico que durante este ano e meio ele havia tentado de todas as maneiras ver o animal lendário. No oitavo mês de estágio foi que chegou mais perto. Em um descuido, David Jones, um dos cientistas, deixou aberta uma porta que Joshua sempre vira trancada, a ponto de acreditar que sequer era usada. Sozinho no recinto e com o coração prestes a explodir seu peito, os seus pés começaram a se mover em direção a passagem claramente proibida.
Cruzou o portal e chegou a uma sala branca, ampla e vazia. No lado imediatamente oposto ao da entrada havia outra porta. Joshua foi até ela e notou um painel numérico ao seu lado. Não acreditou quando viu que também estava aberta. Sem pensar muito mais, empurrou a porta e entrou em outra sala grande, branca, mas não vazia. Monitores cobriam as paredes laterais e um imenso tanque ocupava toda a extensão da parede em frente. Não tinha nada a não ser água lá dentro. Um contorno na parede do lado de dentro do tanque indicava uma escotilha. Provavelmente era por ali que a criatura entrava e saía de sua bolha de observação.
Joshua chegou perto do recipiente e notou algumas coisas flutuando na água. Eram delicadas escamas cor de esmeralda, umas duas, ali, bem na sua frente. Foi nessa hora que Jones voltou. Não culpou Joshua. Admitiu ter sido relapso em deixar as duas portas abertas e pediu para o estagiário voltar ao seu trabalho. Nada falou em termos de proibição, não disse que o jovem não poderia voltar ali, mas o estagiário curioso nunca mais achou a porta destrancada.
A imagem daquelas duas escamas não saiu de sua mente por mais de uma semana. Ainda visitava seus pensamentos de quando em vez, cada vez menos nítida. Só o brilho delas o rapaz guardava com clareza.
Dez meses depois daquilo Jones o chamou para uma conversa. Disse que apreciava sua seriedade no trabalho e sobretudo sua discrição. Notou que ele nada havia comentado com ninguém a respeito do episódio com as portas abertas. Nenhuma pergunta havia feito.
Jones queria uma conversa franca e perguntou o real interesse de Joshua no estágio. Sabia que não era Steve. O polvo havia morrido no ano passado.
O jovem Joshua contou então tudo, absolutamente tudo, desde o dia em que ouvira o intrigante noticiário. Confessou que não entende como conseguiu se conter ao ver aquelas escamas no tanque da sala proibida e que entendia que um segredo deste tamanho tinha mesmo de ser guardado com toda a força.
Jones não se fez de desentendido e confirmou. Uma sereia morava no Aquário de Sidney. Os estudos estavam bem avançados e logo chegaria a hora de devolvê-la ao mar. Ao perceber a testa franzida de Joshua, Jones disse que era um animal extremamente inteligente e não seria muito prejudicado pelo cativeiro. Ela até teria aprendido a falar a língua humana, segundo Jones. A essa revelação, Joshua não pôde mais se segurar. Queria vê-la. Jones disse que não podia deixar um estagiário entrar no laboratório secreto, e a essa declaração ambos riram brevemente, mas ia dar autorização para o rapaz passar a noite no aquário. Se tivesse sorte a veria, pois ela era instruída a ficar longe do vidro. Jones também disse que ela já havia ficado solta durante o horário regular de visitas algumas vezes. Isso o fez entender melhor os boatos de que a estranha besta podia ser vista durante o horário de visitas. Mas ela havia ficado bem escondida, segundo Jones. Claro que havia. Joshua visitara o aquário todos os dias procurando por ela e nunca a havia visto. Se emocionou ao pensar que poderia ter visto alguma parte de seu corpo e ter deixado o fato passar despercebido.
Mas agora ele passaria a noite lá e veria finalmente a criatura que roubara sua vida havia mais de três anos.
O resto do dia ele esteve meio eufórico, tentando controlar suas emoções. Seus colegas de trabalho o acharam feliz demais, assim como seus pais em casa. Eles não sabiam da morte de Steve e ficaram um pouco preocupados com o fato do filho passar a noite no aquário de Sidney.
Joshua foi ainda à tarde. Viu todo o movimento e toda a saída dos visitantes. Quando as luzes principais apagaram e foram substituídas por uma iluminação fraca e dúbia, seu coração já estava acelerado. Andou até o vidro e observou com atenção cada criatura lá dentro.
Porém a noite passou e nada foi avistado.
Frustrado, Joshua voltou para casa.
Disse a Jones que nada tinha visto, ao que o cientista respondeu que já esperava por isso, mas que não se preocupasse. Poderia passar duas noites por semana no aquário.
Joshua vivia para essas noites, mas foi competente o suficiente para não deixar seu desempenho cair, o que admirou muito Jones.
Dois meses e nada. Na segunda noite do terceiro mês Joshua começou a tentar chamar a atenção da lenda. Primeiro chegou bem perto do vidro e bateu nele com o punho. Como não deu resultado, tirou a lanterna do bolso e começou a piscar a luz em grande expectativa. Depois se pôs a falar, chamando a criatura.
No quinto mês a esperança começava a esmorecer, e no sétimo ele pensava em abandonar a empreitada. Conversou com Jones a respeito. Havia passado mais de cinqüenta noites esperando e nada havia visto. Até agora seu contato mais próximo fora as duas escamas pairando na água do tanque proibido. Ficou aflito quando soube que a equipe pretendia libertá-la dentro dos próximos quatro meses. Seu rendimento começou a cair, seu mau humor aumentou e seu relógio biológico estava confuso.
Na quarta noite do sétimo mês, Joshua estava sentado em um dos longos bancos de um dos saguões de observação, com a cabeça baixa e a lanterna pendendo de uma das mãos, o feixe de luz iluminando o chão. Ele não viu quando a sereia se aproximou e tocou o vidro com sua mão membranosa enquanto o observava profundamente com seus incríveis olhos amarelos, a cauda balançando suavemente. Era uma figura aterradora e ao mesmo tempo magnífica. Os outros animais do aquário pareciam respeitá-la, era como se ela fosse a rainha do lugar.
Seu corpo esguio colou no vidro, suas mãos o apalpavam, seu olhar melancólico tentava entender a insistência daquele triste humano que duas vezes na semana montava guarda a noite inteira. O que ele queria, afinal?
E ali ficou a sereia, seu corpo todo coberto de escamas esmeralda, seus cabelos flutuando fantasmagoricamente ao redor de sua estranha cabeça, como uma aparição do outro mundo. Joshua, no entanto, havia dormido e só acordou quando um funcionário da manhã o tocou no ombro avisando que o aquário abriria em meia hora.
A dor nas costas era terrível. Conformado, Joshua foi para casa.
Dois meses se passaram, o ávido estagiário havia conseguido permissão para três noites na semana, mas nada viu. Uma manhã, quando estava dissecando um filhote de polvo, Jones o chamou para uma conversa privada
Ele disse que estariam levando a sereia para mar aberto naquela noite. Só a equipe de pesquisa, estagiários não seriam permitidos. Jones achou que o jovem sonhador precisava saber.
Joshua foi para casa mais cedo e chorou muito em seu quarto cheio de livros de biologia e grandes fotos de polvos e lulas. Havia perguntado a Jones onde a deixariam. Ele não podia dizer. Havia perguntado se Jones tinha dito a ela que ele ficava no salão toda noite para vê-la. Jones disse que não podia fazer isso pois o contato com ela era sempre feito ao lado de mais algum outro cientista. Jones estava até se arriscando pelo jovem Joshua e o rapaz sentiu um assomo de gratidão pelo pesquisador.
O jovem estagiário também perguntara a Jones se ele já havia visto outras criaturas como aquela e se surpreendeu com a resposta positiva. Aquela era a terceira que Jones via. A primeira que interagira com ele.
Joshua se viu em um grande dilema. Abraçar o estudo das sereias e ser banido do livro da ciência “séria” ou ficar com os polvos e pesquisar sobre sereias às escondidas e nas horas vagas. Essa dúvida perturbou oito anos de sua existência. Não tinha um único dia sequer que ele não desejasse ver um desses raríssimos exemplares de ser vivo. Quando o jovem se formou, Jones confidenciou a ele que a sereia do Aquário de Sidney tinha a Barbatana maior, a das costas, rasgada. Como em quatro anos não houve nenhum sinal de cicatrização, ele sabia que ainda estaria do mesmo jeito. Se algum dia na vida Joshua visse uma sereia com a nadadeira das costas rasgada, portanto, provavelmente era ela.
Aos poucos uma nova forma de obsessão foi enchendo o coração do biólogo. Ele tinha que encontrar a criatura, conversar com ela, sentia-se tão próximo dela como se ela fosse da própria família.
Perto de completar vinte e nove anos perdeu o pai e a mãe num acidente de carro no qual também esteve envolvido, e o acidente lhe custou os movimentos das pernas. Agüentou como pôde durante mais quatro anos. Nunca se apaixonou, fez poucos amigos e mergulhou no trabalho, nas pesquisas sobre o polvo gigante. A sereia assombrava seus sonhos e roubava a atenção de sua mente. Precisava vê-la.
Não encontrou muito mais coisas sobre sereias, não era exatamente uma vasta área de pesquisa.
Em uma tarde modorrenta de maio decidiu seu destino.
Chamou Jeffrey Vince, seu melhor e único amigo verdadeiro, e fez um dos monólogos mais emocionantes que o mundo escutou. Ele precisava da ajuda do amigo para realizar o que pretendia. Jeffrey relutava, hesitava, dizia que não faria de jeito nenhum. Joshua implorou, disse que lhe seria eternamente grato, que isso acabaria com o sofrimento e a miséria que era a sua vida. Era apenas um grande favor que um amigo prestava a outro.
Os olhares trocados foram fortes e decisivos. Depois da segunda noite de conversa Jeffrey concordou. Colocou Joshua em sua caminhonete e o levou até uma praia afastada, onde já o esperava um simples barco de madeira com comida e água.
Joshua foi posto na pequena embarcação, e Jeffrey empurrou seu amigo para o mar sob a luz do luar. Chorando e sem conseguir se perdoar, foi para um bar beber até perder o controle de si mesmo, e posteriormente, da caminhonete, que acertou um muro a cento e sessenta quilômetros por hora e o matou instantaneamente.
Alheio ao que ocorrera com seu amigo, Joshua remou e remou. Amanheceu em alto mar, o sorriso estampado no rosto, a alegria de volta na vida.
Dois dias ficou à deriva, esperando ouvir algum canto mágico que o libertasse de vez, que realizasse o seu sonho. Mexia na água, chamava, e nada. No quarto dia já não tinha mais água nem comida. Estava cansado e debilitado, mas ainda usava suas forças para tentar atrair algum dos animais míticos. Na manhã do quinto dia duvidava que fosse ver um outro alvorecer, mas viu mais dois.
Lá estava Joshua, no sétimo dia à deriva, a cabeça em chamas, a pele queimada, a boca tão seca quanto um ser humano pode suportar, a barriga doendo de fome, o corpo sujo e lastimável, fedendo, os ossos vibrando de dor. Os olhos mal distinguiam entre o céu e o sol, era tudo um grande borrão claro que aos poucos foi ficando escuro.

O capitão da fragata que encontrou seu corpo já em estado de decomposição achou algumas escamas esmeralda espalhadas sobre seu peito, e viu que uma leve mordida havia perfurado seu lábio superior.
Um belo lamento de tristeza foi ouvido ao longe.

 

 

 

 

 

 

 

Digo a mesma coisa que disse a respeito de “O Mundo Atrás do Espelho”: Conto escrito em 2007. Está com os erros, falhas e inadequações dos meus 20 anos. Era deixar assim ou apagá-lo. Preferi deixá-lo assim.

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